O jogo em Alvalade para a Taça terminou com uma vitória do Sporting Clube de Portugal por 1–0 frente ao Futebol Clube do Porto. No papel, foi um jogo competitivo, decidido pela margem mínima, com tudo aquilo que normalmente esperamos de um clássico do futebol português: intensidade, tensão e momentos de qualidade. No entanto, quando o dia terminou, aquilo que ficou no centro do espetáculo não foram os 22 jogadores em campo, mas sim as declarações dos presidentes. De um lado, Frederico Varandas; do outro, André Villas-Boas.
Nos últimos anos, e já se tinha percebido isso na época passada, assistimos a um intensificar do protagonismo que os presidentes dos clubes, sobretudo os chamados “três grandes”, parecem querer assumir na narrativa da liga. A competição já não se joga apenas dentro das quatro linhas. Joga-se também nas salas de imprensa, nos microfones improvisados à saída dos estádios e nas declarações estrategicamente colocadas antes e após cada jornada.


Há cada vez mais a sensação de que a liga portuguesa é uma competição disputada em dois palcos, o relvado e o discurso público. Por vezes, a impressão é mesmo a de que o segundo palco tem ganho demasiado peso. Hoje, para uma equipa ser campeã, não basta ser contundente e feroz dentro de campo. Tem também de o ser fora dele. Figurativamente falando, como se viu tantas vezes na época passada, os campeonatos jogam-se também na construção da narrativa. E nesse jogo específico, o jogo das palavras e da pressão institucional, quem saiu vencedor foi Frederico Varandas.
A crítica à arbitragem tornou-se um elemento quase estrutural do futebol português. Antes do jogo prepara-se o terreno; depois do jogo avalia-se o desempenho não apenas dos jogadores, mas também dos árbitros, quase sempre com um grau de dramatização que ultrapassa a análise desportiva. A postura dos presidentes tem-se tornado cada vez mais ostensiva, com declarações incisivas, acusações veladas ou diretas e tentativas claras de influenciar o ambiente competitivo.


É verdade que quem aparece mais frequentemente neste papel são os líderes dos três grandes, Sport Lisboa e Benfica, Sporting Clube de Portugal e Futebol Clube do Porto, mas o fenómeno não se limita a eles. Já vimos também intervenções públicas do presidente da SAD do Futebol Clube de Famalicão e do presidente do Sporting Clube de Braga. O padrão começa a generalizar-se e a transformar o debate desportivo numa disputa de versões, suspeitas e comunicados.
O problema é que nada disto favorece o espetáculo. Não favorece o futebol português, nem a forma como ele é percecionado dentro e fora do país. O jogo deveria viver dos seus momentos de criatividade, dos passes que desmontam defesas, dos golos de cortar a respiração e da imprevisibilidade que faz do futebol um espetáculo único. No entanto, muitas vezes, esses momentos acabam relegados para segundo plano perante o ruído institucional.


No fim de contas, aquilo que a Liga Portugal parece estar a produzir já não é apenas uma liga de futebol profissional — é, cada vez mais, uma liga de futebol profissional e dos presidentes. Uma competição em que o impacto do jogo não se mede apenas pelo resultado, mas também pelas declarações que o seguem.
O futebol português continua a ter talento, paixão e estádios cheios de emoção. Mas, ironicamente, o jogo deixou de ser avaliado apenas pelas estatísticas habituais. Em vez de passes decisivos ou remates enquadrados, parece que agora também se contam as métricas do discurso: quem usou o melhor dicionário e quais foram as palavras com maior “xG” no jogo final das conferências de imprensa.

