Tarde de sol, horário decente, estádio bem composto, duas equipas que procuravam a vitória. Foram estes os ingredientes de um dos principais jogos da jornada, que terminou com a vitória do Estoril Praia diante do Gil Vicente, por 3-1. Após golo gilista no primeiro quarto de hora do encontro, depois de uma grande penalidade convertida por Murilo Souza, a equipa de Ian Cathro reagiu rapidamente, através de um cabeceamento de Felix Bacher. No segundo tempo, Yannis Begraoui fazia o segundo e terceiro golos dos canarinhos, garantindo ao Estoril Praia subir ao sexto lugar, somando 33 pontos. No lado oposto, os comandados de César Peixoto, que, na última jornada, haviam subido ao quarto lugar da Primeira Liga, voltam ao quinto posto, com 40 pontos em todo o campeonato.
O duelo entre canarinhos e galos poderia ter caído para qualquer um dos lados. Contudo, mais do que lutar pelo resultado, o encontro serviu um propósito consagrado na génese do futebol e no desporto em geral: o entretenimento. Há um vasto grupo de pessoas – nas quais não me incluo, mas que compreendo – que avalia negativamente o estado atual do futebol devido à perda de espontaneidade por parte dos jogadores e a um excesso de jogo de xadrez que padroniza em demasia o desporto-rei. O que é certo é que Estoril Praia e Gil Vicente, a partir de sistemas de jogo, dinâmicas e perfis diferentes, equilibram extremamente bem a riqueza tática e o fator espetáculo. Os quatro golos que compuseram o resultado final, aliados a mais de uma dezena de remates de uma e outra equipa, bem como a defesas de alto nível por parte de Joel Robles e Lucão, demonstram bem a intenção de Ian Cathro e César Peixoto em procurar, tanto quanto possível, a baliza contrária. Duas abordagens estrutural e mentalmente diferentes conduzem a um mesmo objetivo: lutar para ganhar, não apenas defendendo a própria baliza, mas, sobretudo, procurando as redes adversárias.
A complexidade do futebol leva-nos a debater mil e uma questões, umas mais pormenorizadas, outras mais abrangentes. Tantas e tantas vezes, discordo daqueles que pensam o futebol de uma perspetiva “resultadista” – portanto, pragmática – mais do que processual. Embora o processo nem sempre se traduza em invencibilidade, está na base de equipas dominadoras, corajosas, vitoriosas e que, invariavelmente, se inscrevem nas bíblias futebolísticas. Deve-se estar ciente de que abordagens mais positivas acarretam riscos e que podem surgir, aqui e ali, resultados desnivelados. Mais do que jogo a jogo, o processo deve ser encarado a médio e longo prazo. Entre os mais pragmáticos e “resultadistas”, poderá pesar mais a derrota que Ian Cathro e respetiva equipa tiveram na última jornada, frente ao AVS SAD, por 3-0, que ditou a primeira vitória dos avenses em 22 jogos. Por outro lado, para quem partilha da minha ótica de avaliação, é muito mais importante verificar que, ao fim de 23 jogos, o Estoril Praia está na sexta posição, e que a qualidade e variabilidade de soluções com e sem bola são cada vez maiores. No fundo, é imperativo que as vitórias tenham uma razão lógica que as valide, de modo a serem regra e não exceção.


O Gil Vicente de César Peixoto, ainda assim, é bem mais consensual do que a equipa de Cathro. É um conjunto com uma mentalidade mais equilibrada, o plantel parece ter sido construído em torno de jogadores com caraterísticas distintas, porém complementares, de modo a torná-lo mais completo e hábil para enfrentar diferentes contextos e adversidades. Contudo, a intenção de assumir jogo, de atacar a baliza contrária, de ser agressivo nessa procura pelo golo está sempre lá. Essa ambição, no sentido positivo do termo, faz com que o Gil Vicente consiga estar numa luta bem acesa pelos lugares europeus.
O jogo entre galos e canarinhos não refletiu apenas a forma de estar de uma e outra equipa em campo. Isto é, não foi apenas uma forma de ambos os técnicos quererem mostrar irreverência e originalidade sem uma ideia lógica adjacente. Houve adaptações, ainda que circunstanciais e cirúrgicas, no jogar de uma e outra equipa. Exemplo disso foi a saída de Rafik Guitane do 11 inicial – ainda que viesse a ter impacto numa altura mais adiantada do jogo – e respetiva entrada de Antef Tsoungui, defesa-central de origem. O jogador belga estabeleceu-se num dos vértices mais recuados do losango ofensivo, mas a sua utilização teve como principal intenção controlar a ameaça de Santi García, bem como equilibrar e oferecer cobertura em transição e organização defensiva. O Gil Vicente, no polo oposto, tentou contornar a marcação mais individualizada do Estoril Praia, a partir dos apoios frontais de Gustavo Varela e respetivos movimentos de ataque ao espaço de Santi García.
Apesar de algumas alterações e ajustes no 11 inicial – especialmente no lado da formação da casa -, o processo era o mesmo de outros jogos. Holsgrove, Tsoungui, Jandro e João Carvalho ocupavam os vértices do tal diamante, alternando, aqui e ali, as posições e dificultando a ação defensiva adversária. No lado gilista, o corredor central foi constantemente procurado, como já é comum na equipa de César Peixoto. Todavia, pela pressão efetuada pelos canarinhos, os galos eram obrigados a procurar outras soluções, retirando a Luís Esteves a capacidade para aparecer no jogo de forma mais cirúrgica e cerebral. Ficou a ideia de que havia espaço para o Gil Vicente explorar, sobretudo na ala esquerda, situações de aparente vantagem e superioridade. Como tal, o marcador, apesar do equilíbrio na criação de oportunidades, premiou a equipa que melhor se adaptou às circunstâncias do jogo. Ter um jogador com a veia goleadora de Begraoui, que já só está a três golos dos melhores marcadores do campeonato, Luís Suárez e Vangelis Pavlidis, é um trunfo extra.


Depois de tantas e tantas polémicas que têm assombrado o nosso futebol nas últimas semanas, sobretudo por parte de dois dos três do costume, Estoril Praia e Gil Vicente, apenas pelo que fizeram no Estádio António Coimbra da Mota, garantiram novo balão de oxigénio e inspiração para o futuro da nossa Liga. Uma vez mais, ficou a ideia de que, se todos os agentes desportivos quiserem, e com mais treinadores como Ian Cathro e César Peixoto, o nosso produto ainda vai a tempo de ser valorizado. Não é por acaso que alguns dos maiores talentos do futebol mundial, tanto jogadores como treinadores, têm um passado ligado ao futebol português.

