Uma corrida contra o tempo | Estrela da Amadora 1-0 Santa Clara

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Estrela da Amadora e Santa Clara reencontraram-se este domingo para disputar mais uma jornada da Primeira Liga. Mais do que a 21ª jornada do campeonato, esta era a oportunidade de uma e outra equipa darem um pontapé numa série de jogos sem ganhar. Acima de tudo, era um jogo que representava uma nova época dentro de uma mesma temporada desportiva, mas já lá vamos. O embate entre Estrela da Amadora e Santa Clara, que terminou com a vitória dos estrelistas por 1-0, significou a subida, ainda que provisória, dos amadorenses à 11ª posição, com um total de 23 pontos conquistados. Do lado açoriano, o número de derrotas consecutivas sobe para quatro, pelo que o Santa Clara se mantém em lugar de playoff de despromoção, com apenas 17 somados em todo o campeonato.

Puxando a cassete atrás, passo a explicar a frase “nova época dentro de uma mesma temporada desportiva”. No mercado de inverno, entre entradas e saídas, houve um total de 22 mexidas no plantel do Estrela da Amadora. Foram dez saídas, entre as quais dos habituais titulares Sidny Lopes Cabral, Kikas e Ngom, bem como de Montóia. Pelo outro lado, entraram 12 jogadores, provenientes de diferentes contextos, quiçá menos competitivos e profissionalizados, e que atuavam em sistemas de jogo distintos. No lado açoriano, foram dez o número de entradas, sobretudo de jogadores vindos do futebol brasileiro. Quanto ao número de saídas, houve cinco com especial impacto, três delas relativas a jogadores com alta rodagem, tais como Matheus Pereira, Adriano Firmino e Luís Rocha. Mas é no banco de suplentes, contudo, que o impacto é maior: Vasco Matos, o treinador encarregue de fazer o Santa Clara regressar ao principal escalão do futebol português e, mais tarde, de colocar os Bravos Açorianos em situação de qualificação para a Conference League, foi demitido após o desaire frente ao Estoril, rendendo-lhe Petit.

Petit Santa Clara
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

Pelos fatores já elencados, bem como por uma chuva que não contribuía para a prática desportiva, o jogo foi, em alguns momentos, marcado pela intensidade, entrega e fome de vencer, traduzida em duelos por primeiras e segundas bolas e não por jogadas muito bem trabalhadas e executadas. Ainda assim, por mérito de ambos os treinadores que tiveram de lidar com tantas contrariedades e adaptar-se a um contexto que só permite trabalhar em cima do joelho, as ideias de jogo (táticas e mentais) foram bem evidentes. Tanto João Nuno como Petit entraram para jogo com o propósito de se superiorizarem ao adversário, tendo mais bola e rondando a baliza adversária. Do ponto de vista tático, o Estrela da Amadora construía a três, tinha Jefferson Encada e Bruno Langa a ativarem os as laterais – dando largura e profundidade- e os dois centrocampistas e avançados interiores a formarem um quadrado no corredor central. Estrategicamente, o plano estava muito bem montado. No lado visitante, Petit deu vida a um 4-3-3 e a uma defesa constituída por quatro jogadores, algo que raramente acontecia com o seu antecessor. Para além da construção em 4+1, onde os laterais e o médio defensivo Pedro Ferreira apoiavam a saída, foi visível, ocasionalmente, a lateralização dos médios Serginho e Gustavo Klismahn. O objetivo de colocar esses dois jogadores a abrir o campo passava por desfazer a marcação individual a meio-campo imposta pela equipa da casa. A equipa pecava, contudo, por alguns momentos onde se denotava alguma desarticulação de movimentos entre os vários elementos, sobretudo em situação ofensiva. Isso, claro, é fruto dos (apenas) quatro treinos a que Petit teve direito.

A atitude, à qual ambos os treinadores tantas vezes apelam, esteve sempre lá. Faltou, contudo, mais tempo de trabalho para que o jogo fosse mais rico de um ponto de vista técnico e tático. O mister João Nuno referiu este período como uma “pré-época em movimento”, no qual o processo de maturação de uma ideia de jogo é substituído por microciclos mais básicos que visam integrar da melhor forma os novos jogadores. Isto é algo relativamente comum entre as equipas de menor poder do futebol português. Os fatores que levam a que isto aconteça são muitos. A capacidade financeira dos clubes não é suficiente para segurar jogadores com mercado em determinados países europeus ou asiáticos; os resultados têm um peso muito superior ao processo, uma vez que a impaciência dos adeptos é muita e os clubes não podem perder valor, o que conduz à saída recorrente de treinadores; por fim, a entrada de treinadores e jogadores novos retarda o desenvolvimento de uma ideia de jogo e, consequentemente, dificulta a obtenção de resultados. Com este círculo vicioso, o nível de jogo decresce, são criadas barreiras ao trabalho de jogadores e treinadores e o campeonato vai-se tornando cada vez mais desequilibrado em comparação com aqueles que ocupam os lugares cimeiros da tabela classificativa.

Dito tudo isto, o jogo deste domingo carregou consigo ideias muito interessantes, mas que, devido a diferentes fatores, nem sempre foram postas em prática. Resta agora que dirigentes e adeptos do Estrela da Amadora e Santa Clara – ou de qualquer outro que esteja a atravessar um momento de reformulação semelhante – estejam conscientes da dificuldade que jogadores e equipas técnicas atravessam. Neste momento, o trabalho motivacional dos timoneiros é essencial para que exista vontade de competir e para que os índices de concentração estejam elevados, uma vez que só dessa forma a retenção das nuances e dinâmicas táticas será efetiva.

João Nuno Estrela da Amadora
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

Por fim, deixamos aqui as declarações dos técnicos João Nuno, do Estrela da Amadora, e de Petit, do Santa Clara. Eis, primeiramente, as do treinador que venceu a partida:

Bola na Rede: O Estrela, principalmente na primeira parte, teve os três corredores muito ativos, tanto pela projeção do Encada e do Langa nas laterais, como por um quadrado no eixo do ataque formado pelo Robinho, Doué, Jovane e Marcus, que permitia criar superioridade no meio e descobrir espaço entrelinhas. Apesar de ter vencido o jogo, de a estratégia ter sido bem montada e de ter tido muitas soluções em ataque organizado, o que é que o mister acha que faltou para a equipa conseguir ter ainda mais oportunidades de golo em ataque organizado?

João Nuno: Primeiro que tudo, quero dedicar a vitória ao Rodrigo, um jovem atleta de ténis de mesa do Estrela da Amadora que está a passar por uma situação complicada de saúde. Portanto, esta vitória é para ele. Em relação à sua análise, mais uma vez, excelente. Acho que nos faltou, muitas vezes, quando chegávamos a um corredor, rapidamente procurar esse quadrado dentro e entrarmos pelo lado contrário. O Santa Clara entrou mais forte que nós no início do jogo. Nos primeiros 10/15 minutos, o Santa Clara entrou melhor que nós, teve uma oportunidade. Nós não conseguimos fechar bem o meio-campo deles porque não estávamos à espera daquilo. Acho que passou muito por nós percebermos o que é que o Santa Clara tinha feito. Nós não sabíamos o que é que íamos apanhar. Pela constituição da equipa, eu até estava a pensar numa coisa diferente, num meio-campo diferente do que ele [Petit] apresentou. Depois, quando conseguimos corrigir isso, acho que essa fase até ao final da primeira parte é toda do Estrela da Amadora. Podíamos e devíamos ter criado mais. Acho que na frente não conseguimos ligar por vezes no nosso avançado, num relevado difícil para as duas equipas. Muito aguenta ele com tanta chuva que, infelizmente, tem caído nos últimos dias no nosso país, mas dificultou as duas equipas. Acho que o espetáculo em alguns momentos…há alguns lances que a bancada parece que pergunta “como é que aquele jogador falha um passe?”, mas a verdade é que a lama não facilitava. Muitas vezes falhávamos passes simples e acho que, então pelo corredor de direito, a dinâmica Marcus/Encada muitas vezes travou nessa lama, nesse falhar de passe, que não nos permitiu criar mais. Na segunda parte, acho que entrámos muito bem, fizemos o golo. A seguir ao golo, houve ali mais 10 minutos em que estivemos bem, em cima do Santa Clara. A parte final é um bocadinho de inexperiência desta equipa. Se repararmos, na parte final, temos vários jogadores que têm quatro treinos, três treinos. A dificuldade de eles perceberem o que é que está a acontecer é tremenda. Foi difícil para mim, foi difícil para os rapazes, mas fica sempre aquilo que eu digo: quando não jogamos bem, temos de ter alma, temos de ter vontade…e conseguimos os três pontos.

Bola na Rede:  O mister retificou os miciclos, voltou um bocado atrás, ou os jogadores que chegaram agora vão ter de se adaptar ao andamento dos outros colegas que já cá estavam?

João Nuno: Parece que estás ali na sala…amanhã já vou ver se está ali alguma câmera [risos]. Essa foi uma conversa que temos tido nos últimos dias, ali dentro daquela sala. É como na escola, nós voltámos atrás na matéria. Fomos bater em treinos. Fomos olhar para o que fizemos quando chegámos e tivemos de fazer tudo outra vez. É meia equipa praticamente, não é? É meia equipa. O que é que acontece num jogo coletivo? Quando uns não estão com a mesma ideia… há 10 ou 11 numa ideia e há 12 noutra. Enquanto isto não está tudo ligado para a mesma coisa, é difícil…e foi isso que fizemos. Temos andado para trás, temos ido a treinos que já não queríamos fazer e, como eu disse, estamos numa pré-época em movimento. Só que na pré-época eu posso perder, aqui não convém. Temos de fazer pontos. É a nossa vida, é o nosso destino na Primeira Liga. Queremos muito ganhar e vamos a Guimarães cheios de vontade de jogar e para ganhar ao tempo.

Bola na Rede: Mister, a principal mudança verificada desde a sua chegada, portanto neste jogo, foi a estrutura da equipa tanto a defender com uma linha de quatro, como também a atacar através de um 4-3-3. Na verdade, foram poucas as oportunidades de golo permitidas ao Estrela da Amadora e o Santa Clara até podia mesmo ter chegado ao empate ou, até mesmo, quem sabe, à vitória. Como tal, olhando para o futuro a curto prazo, quais são as fases do jogo que o mister acha que devem ser melhor trabalhadas e os momentos do jogo que devem ser melhor trabalhados, visto que a equipa até demonstrou a atitude que o Mister tinha exigido?

Petit: A primeira parte já a disseste toda. Fizemos um bom jogo. Em quatro dias de trabalho, alterámos a estrutura para um 4-3-3. Acho que entrámos muito bem no jogo. Os primeiros 20 minutos foram de muita qualidade, com duas ou três situações de golo claríssimas. Logo uma com uma grande defesa do Renan, outra com o Gabriel ao segundo poste sozinho, que é uma grande jogada da nossa parte. Depois, ali no último terço, tivemos mais situações que podíamos ter definido de outra maneira. O Estrela foi-se aproximando, mas ser criar grandes situações de golo, penso que durante o jogo todo. Houve um remate no poste, mas o golo nasce de dois remates de longe, que depois dão o cruzamento. Mas acho que os jogadores conseguiram fazer aquilo que foi pedido durante estes quatro dias. Com uma boa dinâmica ofensiva, criámos situações de golo – cinco ou seis durante o jogo todo – e não permitimos muitos espaços ao Estrela para criarem essas situações de golo. Sabemos que o Estrela da Amadora é uma equipa que chama, que estica muito na sua primeira fase de construção, e depois vêm as segundas bolas e acelera o jogo. Nós estudámos bem o Estrela da Amadora, conseguimos anular o jogo deles. É um resultado injusto para aquilo que foi o jogo. Acho que criámos situações suficientes para fazer mais do que o que levámos daqui. Levámos zero pontos, mas há que continuar a trabalhar. Faltam treze jogos. O próximo jogo é já na sexta-feira. Vamos analisar, corrigir e preparar já o próximo jogo. Por aquilo que eles fizeram, pela atitude, pelo compromisso e pela qualidade que meteram, acho que vamos ser felizes no futuro.

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