A CRÓNICA: A ESPERTEZA DO CD TONDELA AFIRMA-SE NO CASTELO

Vitória SC e CD Tondela defrontaram-se em partida referente à 25ª jornada da Primeira Liga, subindo ao relvado do D. Afonso Henriques com o intuito de reverter a fase negativa de resultados pela qual ambos os emblemas atravessavam.

Entrou melhor o Tondela. À imagem do desnorte ultimamente verificado pelo Vitória SC, espelhado na série de três derrotas consecutivas, a equipa foi incapaz de travar as movimentações ofensivas dos forasteiros.

Foram vários os momentos de aflição, causados por desequilíbrios constantes e explorados pela ligação entre o meio-campo beirão e Rafael Barbosa, o playmaker que beneficiou de inúmeros espaços entrelinhas para distribuir constantemente em profundidade, criando assim situações perigosas para a baliza de Bruno Varela.

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Mario Gonzalez, em crescendo dentro deste Tondela, entrou na partida praticamente a cheirar o golo. Tento esse acabaria por chegar à passagem dos 27 minutos e com elevada nota artística. Numa das várias situações de aposta na profundidade, o avançado espanhol aproveitou a sonolência defensiva dos vitorianos para, na cara do guarda-redes português, receber e colocar o Tondela em vantagem.

Do outro lado da moeda, a reação foi demorada. Falta de agressividade e intensidade marcaram a exibição do Vitória em toda a primeira parte. As contantes situações de inferioridade numérica, falta de reação à perda e pouca criatividade no momento ofensivo em nada fizerem jus aos nomes dos conquistadores em campo.

Porém, em alguns momentos a qualidade individual teria que se sobrepor às mecânicas coletivas pouco eficientes. Foi exatamente num momento individual que a turma de João Henriques voltou à partida. Um cruzamento teleguiado de Sacko encontrou a cabeça de Estupiñán, que de forma exemplar, atacou o esférico como um verdadeiro número 9 e marcou um belo golo já na reta final dos primeiros 45 minutos.

O golo, para além de restabelecer a igualdade no marcador, serviu também para atenuar as dificuldades dos caseiros. Já no segundo tempo, à medida que a equipa de Pako Ayestarán se foi retraindo, o Vitória teve mais tempo, espaço e liberdade para pensar as suas jogadas de ataque.

Miguel Luís e Quaresma entraram para oferecer maior critério na vertente atacante. André André, a realizar uma exibição consistente, associou-se aos companheiros frescos para criar alguns calafrios a Trigueira, no entanto, a fase mais complicada do Tondela na partida coincidiu com outro grande momento de Mario Gonzalez.

O avançado espanhol de 25 anos voltou a aproveitar as facilidades proporcionadas pela dupla de centrais – agora Mikel Agu e Jorge Fernandes – e finalizou à meia volta depois de um excelente passe de Bebeto, num golo em tudo idêntico ao primeiro da tarde: assistido por um defesa lateral e a marcar entre os defesas-centrais do Vitória.

Com cerca de 20 minutos para recuperar, os pupilos de João Henriques esbarraram numa sólida defensiva, sem conseguir evitar a quarta derrota consecutiva apesar das inúmeras tentativas para evitar o pior.

Com este resultado, o Tondela consegue vencer pela primeira vez fora de portas nesta edição da Primeira Liga, somando 28 pontos e garantindo a nona posição ao fim de 25 jornadas. O mau momento do Vitória, por outro lado, continua. São 12 pontos perdidos em 12 possíveis, situando-se ainda na sexta posição, com 35 pontos e com cada vez mais companhia na luta pela sexta posição.

A FIGURA

Mario González – num campo tradicionalmente difícil para qualquer adversário, o ponta de lança da equipa beirã não acusou a pressão. A eficácia demonstrada neste jogo vem comprovar o destaque que lhe é auferido quando se fala deste Tondela FC. Posicionamento, interpretação perfeita dos momentos de jogo e dos espaços que lhe são concedidos e veia goleadora bem saliente. Duas machadadas na construção do muro da manutanção!

 

O FORA DE JOGO

Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Vitória SC – a entrada na primeira metade vaticinou aquele que viria a ser um dos piores jogos da época. O sonho europeu começa a desvanecer face a uma apatia que, nos últimos quatro jogos, tem sido pedra de toque. O comodismo da formação de J. Henriques, uma vez mais, saiu caro. Nenhuma substituição surtiu o efeito desejado. Escassearam amostras de entrega e de luta. O perigo atingiu o clímax quando a equipa já perdia por 1-2…

 

ANÁLISE TÁTICA – VITÓRIA SC

O técnico da equipa que guarda o Castelo, João Henriques, voltou ao 4-3-3. Face ao jogo que sinalizou a jornada 24, em Alvalade, a equipa gizou um sistema de quatro centrais recuando F. Sacko e apostando em H. J. O. Sá em detrimento de Pepelu; A. André, M. Agu e André Almeida – regresso à titularidade – ocupam o miolo; na frente de ataque, M. Edwards dá lugar a Rúben Lameiras e forma, com O. Estupiñán e Rochinha, o triângulo ofensivo.

Entrada apática nos primeiros 45 minutos da partida: não existiu, praticamente, a passagem pela segunda linha de construção e a agressividade não compareceu no terreno; A. André e A. Almeida não foram capazes de pautar situações de transição ofensiva e, além disso, apresentavam-se como uma dupla permeável às investidas do CD Tondela; . A nível defensivo, a dupla de centrais parecia não estar conectada com o miolo e, no seu seio, expunha-se a perigos desnecessários; por acréscimo, os flancos eram invocados com pouca frequência.

Na segunda metade, a formação minhota subiu as suas linhas no terreno e alterou as peças do seu tabuleiro cedo; contudo, os resultados não surtiram o efeito desejado nem tão pouco imediato: R. Quaresma e M. Edwards atracaram na quadra com o objetivo de imprimir velocidade, ritmo e de inscrever o cunho da criatividade no encontro, B. Duarte alinhou ao lado O. Estupiñán de modo a baralhar as marcações da defesa tondelense e M. Luís, atuando ao lado do capitão vitoriano, possibilitava a libertação de A. Almeida na quadra e o colmatar de situações passíveis de perigo.

 

11 INICIAL E PONTUAÇÕES

B. Varela (6)

F. Sacko (6)

J. Fernandes (5)

A. Amaro (5)

H. J. O. Sá (6)

A. André (6)

M. Agu (5)

A. Almeida (5)

R. Lameiras (5)

O. Estupiñán (6)

Rochinha (5)

 

SUBS UTILIZADAS

Miguel Luís (5)

R. Quaresma (5)

B. Duarte (4)

M. Edwards (-)

 

ANÁLISE TÁTICA – CD TONDELA 

O treinador espanhol Pako Ayestaran gizou o habitual 4-4-2 (fugindo ao 4-3-3 anterior), mas dispôs diferentes peças no seu xadrez: o eixo defensivo permaneceu inalterável, enquanto que os responsáveis pelo flanco direito variou (Tiago Almeida foi substituído por Bebeto); no centro do terreno, J. Grau foi o escolhido para jogar ao lado de J. Pedro e para ser apoiado ora por Olabe, ora por J. Murillo; Rafael Barbosa e M. González foram selecionados para travarem as batalhas ofensivas.

Até ao golo vimaranense, o CD Tondela dominou – por completo – a partida e disseminou momentos acolchoados de bom futebol: triangulações bem desenhadas, ocupação dos espaços e entrelinhas, exploração da profundidade interior e dos flancos e anulamento de qualquer erguer ofensivo do Vitória SC: o facto de povoar o próprio miolo com mais um elemento possibilitou o conforto e o controlo da partida. O golo sofrido – em situação de contra-ataque – exibiu o vazio que habitava o corredor esquerdo.

Nos segundos 45 minutos, os pupilos de Pako Ayestaran recuaram as linhas e adotaram uma postura de espera e expetativa. Numa situação de contra-golpe e pleno aproveitamento ofensivo, desfizeram a igualdade. Depois, face ao pressing vitoriano, apostaram essencialmente no não comprometimento defensivo. Destaque para o posicionamento da linha de quatro e pela coesão entre os três setores.

 

11 INICIAL E PONTUAÇÕES

P. Trigueira (6)

Bebeto (7)

Y. Tavares (7)

R. Alves (6)

F. Ferreira (6)

J. Murillo (7)

J. Pedro (8)

J. Grau (6)

R. Olabe (7)

M. González (9)

R. Barbosa (7)

 

SUBS UTILIZADAS

Jaquité (5)

T. Almeida (-)

P. Augusto (4)

E. Martínez (6)

Arcanjo (-)

 

BnR NA CONFERÊNCIA DE IMPRENSA

 

Vitória SC

BnR: O facto de Rafael Barbosa se colar aos centrais adversários e aparecer nas costas do Agu e assim criar situações de possível perigo para a sua equipa foi o principal alimento para este desaire? 

João Henriques: Na segunda parte retificámos bem isso. Nós não fomos a equipa agressiva que deveríamos ser muito por fruto daquilo que está para trás, da ansiedade da equipa e a insegurança em alguns momentos. Permitimos exatamente isso. O Tondela teve mais tempo e espaço para jogar, mas retificamos bem na segunda parte e tivemos claramente por cima, mas não foi suficiente. Na primeira parte empatámos o jogo e na segunda melhoramos esse aspeto, melhoramos nas ocasiões e em situações para finalizar, mas depois não fomos pragmáticos o suficiente para traduzir isso nos três pontos que nós queríamos.

CD Tondela 

BnR: Boa tarde. Antes de mais, parabéns pelo triunfo. Queria perguntar-lhe se sente que a disposição de mais um jogador no centro do terreno – ou seja, no meio campo – possibilitou e abriu espaço a esta vitória importante para as contas da manutenção?

Pako Ayestaran: Durante toda a semana, tive dúvidas. Tinha dois jogadores e, no final, optei por introduzir um jogador com mais características que visavam a posse no meio. Também tinha a dúvida de, fora ou dentro, quem tinha de estar: se o Roberto, se o Rafael Barbosa. O Rafa, habitualmente, tende a jogar por fora e nunca por dentro num 4-3-3. O Vitória SC, a jogar por fora, cria muitos desequilíbrios e precisava de um jogador que fosse capaz de dar apoio ao lateral e de criar situações de perigo nas alas. E também sabia que as transições se faziam pelo meio do terreno, como o Rafa demonstrou hoje: ficar com bolo, dar apoio aos médios e ele desempenhou a tarefa na perfeição.

Artigo de opinião de Romão Rodrigues e Ricardo Rebelo