A CRÓNICA: O CD MAFRA JOGOU 45 MINUTOS, O FC VIZELA JOGOU O QUE RESTA

O Sol raiava sobre as onze camisolas canarinhas e as onze camisolas azul céu. Restava saber a quem estaria concernida a exibição com lustro mais acentuado.

João Cunha troçou dos momentos que se traduzem pela ausência de luz. Após uma bola bombeada para a grande área e colocada no seu companheiro de setor João Miguel (15′), o camisola cinco – com visibilidade totalmente desimpedida – atirou ao poste.

Escrevia-se, mesmo sem ser esse o propósito inicial, uma nova versão do Ensaio sobre a Cegueira: Carlos Henriques, guarda-redes do CD Mafra, ao ser solicitado por Pedro Barcelos com o firme intento de lançar a profundidade (36′), atirou contra Cassiano; este, através de uma corrida desenfreada, recuperou o esférico e ofereceu-o a Samu que desperdiça a oportunidade de inaugurar o marcador.

Era preferível fazer uma pausa, limpar o suor que provocava ardência nos olhos e ouvir a palestra previamente preparada. Intervalo!

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No regresso ao relvado, eis a ação fortuita: após recuperação de bola (46′), M. Paulo descobriu F. Cann entre os dois centrais do CD Mafra, lançou-o na profundidade e esperou que o pé respondesse afirmativamente. Trovoada seca em Vizela! Claridade primaveril! 1-0!

O jogo acabou por arrefecer até ser feita luz novamente: após lançamento de linha lateral, Ofori serviu Samu que depositou rapidamente em Tavinho (71′); o número sete do FC Vizela desmarcou-se pelo flanco direito,, correu alguns metros e aplicou um passe atrasado a pedido de Samu para que a concretização se consumasse. 2-0!

Os últimos dez minutos foram empolgantes: Ivo Pinto aproveitou os flashes das câmaras existentes e defendeu para a fotografia, a remate de Lee (82′); na resposta, Tavinho, através de uma investida individual (83′), desmontou Gui Ferreira, imprimiu velocidade e dividiu o remate desferido com o cruzamento.

O apito final soou. O FC Vizela somou mais três pontos e continua a caminhada sob o epíteto de outsider rumo à subida.

 

A FIGURA

Fonte: Facebook FC Vizela

Segunda parte do FC Vizela – se a primeira parte deixou a desejar e não encerrou em si o ímpeto ofensivo característico da grande maioria das partidas que compõe o perfil do FC Vizela, a segunda dissipou as dúvidas que podiam existir. Álvaro Pacheco mexeu bem no meio campo na entrada para o intervalo: o desenlace da partida está na entrada de M. Paulo.

 

O FORA DE JOGO

Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Entrada em falso na segunda parte do CD Mafra – os indícios deixados durante os primeiros 45 minutos não avizinhavam o descalabro que iria constituir a segunda metade. A concentração foi substituída pela desconcentração. Não existiu capacidade de reação ao golo sofrido até à entrada de Lee.

 

ANÁLISE TÁTICA – FC VIZELA

Álvaro Pacheco repete (quase) sem adulterações o sistema tático utilizado defronte do GD Chaves (2-2), na última jornada da Segunda Liga Portuguesa: 4-5-1. Por sua vez, Matheus Costa, sancionado com a cartolina vermelha diante dos flavienses, cumpre o castigo e dá lugar a Marcelo no centro da defesa do FC Vizela.

Durante a primeira metade, a formação vizelense conheceu um desacerto na maioria das suas investidas ofensivas: Ericson comprometeu na segunda fase de construção e permitiu o desarme em algumas situações, enquanto que R. Guzzo e Samu foram incapazes de ser a conexão com o último terço do terreno e, assim, mediar interações. A demanda incessante da profundidade que Cassiano e F. Cann oferecem ao jogo não estava a resultar face aos elevados índices de concentração da defesa do CD Mafra e à sua antecipação. Salienta-se também o posicionamento deficitário naquela que foi a melhor oportunidade de golo até ao término da primeira parte.

Os segundos 45 minutos reuniram um conjunto de fatores favoráveis ao triunfo: entrada forte, capacidade de controlo da partida através da gestão dos momentos de jogo, exploração dos espaços entrelinhas, – algo não concretizado até à entrada de M. Paulo – afunilamento dos flancos pela preponderância ofensiva de Tavinho, Kiko Bondoso e Ofori e criação de situações de perigo iminente. Defensivamente, a linha de quatro esteve irrepreensível: hábil no desarme e comprometida com os que ocupavam o miolo, a primeira fase de construção foi cumprida sem grandes dificuldade.

 

11 INICIAL E PONTUAÇÕES

Ivo (6)

Raphael Guzzo (7)

Cassiano (5)

Marcelo (6)

Kiko Bondoso (6)

Samu (7)

Ericson (4)

Kiki (6)

Aidara (6)

Richard Ofori (6)

Francis Cann (6)

 

SUBS UTILIZADAS

M. Paulo (7)

Taviinho (7)

Mosevich (-)

A. Soares (-)

João Pedro (-)

 

ANÁLISE TÁTICA – CD MAFRA

Filipe Cândido não prescinde do habitual 3-5-2. O lateral esquerdo Bruno Silva (ex-Moreirense FC) cumpriu castigo e abriu uma vaga no corredor, espaço esse ocupado pelo suplente Gui Ferreira. Os forasteiros venceram, na passada jornada, o FC Penafiel (1-0).

Nos primeiros 45 minutos, a equipa do CD Mafra estudou bem o plano gizado por Álvaro Pacheco e companhia: vedar os espaços nas costas do seu setor defensivo com a utilização da armadilha do fora de jogo e colocar um véu sobre os espaços entrelinhas, na primeira fase de construção do FC Vizela. Campos e Gui Ferreira auxiliavam o ataque e cumpriam o seu papel nos momentos defensivos – transformando o 3-5-2 em 5-3-2 – através da pressão alta exercida sobre o portador da bola. Ofensivamente, o CD Mafra foi a equipa que criou mais perigo, mesmo que Camará e Sanches se sentissem muito desapoiados e fossem lançados constantemente na profundidade.

A segunda parte do CD Mafra desiludiu e não cumpriu as expetativas face ao desempenho nos primeiros 45 minutos. O golo madrugador sofrido abalou a estratégia gizada: a dádiva da posse ao adversário e o perfeito usufruto do contragolpe. A primeira falha de posicionamento defensivo resultou no golo adversário. Até à entrada de Lee, a equipa de Filipe Cândido foi incapaz de criar perigo junto da baliza adversária. As substituições para a frente de ataque não surtiram o efeito necessário para discutir o rumo que a partida podia ter.

 

11 INICIAL E PONTUAÇÕES

Carlos Henriques (5)

Campos (6)

João Cunha (5)

João Miguel (6)

Pedro Barcelos (5)

Gui Ferreira (6)

Cuca (6)

Carlos Daniel (5)

Camará (6)

Ismael (6)

Edi Semedo (6)

 

SUBS UTILIZADAS

Andrezinho (5)

G. Moura (4)

Lee (6)

Okitokandjo (-)

Wenderson (-)

 

BnR NA CONFERÊNCIA DE IMPRENSA

FC Vizela

BnR: Bom dia, mister. Antes de mais, parabéns pela vitória. Na primeira parte, o CD Mafra estudou bem a lição e tapou os espaços entrelinhas, travou o possível perigo que a profundidade podia causar bem como o ataque do FC Vizela pelos flancos. O Samu e o R. Guzzo não estavam a conseguir mediar as interações. O Ericson dava mostras de falhas na segunda fase de construção e acabou por perder algumas bolas quando pressionado. Marcos Paulo era a peça que faltava para montar o puzzle pretendido?

Álvaro Pacheco: Sim, sim. Uma primeira parte mesmo sem bola, não estávamos a ser assertivos. Foi uma primeira parte descompactada. o CD Mafra conseguiu sair bem por dentro e por fora. Nos espaços entrelinhas eu discordo um bocadinho consigo, nós conseguimos chegar. Faltou aos jogadores terem mais tranquilidade e serenidade nos momentos com bola. Ao intervalo, eu disse aos meus jogadores que precisávamos de sair com uma linha de três porque eles estavam a sair com uma linha de cinco. A partir daí, já sabíamos que os espaços nos terrenos mais interiores iam abrir. Sabíamos também que, se conseguíssemos marcar primeiro, seria muito difícil o CD Mafra reverter o resultado em seu favor porque, nesta temporada, nunca o conseguiu. Animicamente, eles iam sentir-se afetados. Quero também dizer que, se o CD Mafra saísse vencedor na primeira parte, não seria nenhum escândalo porque criou a melhor oportunidade de perigo. Contudo, felizmente para nós, conseguimos marcar cedo no início da segunda, onde fomos claramente melhores. Quero felicitar os meus jogadores!

 

CD Mafra

BnR: Bom dia, mister. Pergunto-lhe o que faltou ao CD Mafra para reagir mais rapidamente ao golo sofrido? Até à entrada de Lee, as situações de perigo iminente não se verificaram.

Filipe Cândido: Termos alguma estabilidade emocional, tem de ser passada por alguns jogadores com mais experiência, na divisão. Temos feito uma aposta em função do investimento que temos. temos muito jogadores que vieram do Campeonato de Portugal e isso depois reflete-se em diversos momentos de jogo. O Marcos Paulo também teve essa capacidade para virar o jogo em função do FC Vizela. Até aí, na primeira parte, nós conseguimos tapar os espaços entrelinhas e aproveitar os pequenos espaços que nos foram concedidos. Faltou-nos maturidade. Estamos em março, mas eu costumo dizer que são as dores de crescimento de uma equipa que ainda não tem aquele estado emocional como queríamos que tivesse.

 

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