A histórica caminhada do Sporting na fase de liga da Champions League

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À partida, o cenário era tudo menos simples para o Sporting. Pela segunda edição consecutiva, um novo formato da Liga dos Campeões, mais longo, mais exigente e sem margem para erros prolongados colocava todas as equipas perante um desafio inédito.

Para o Sporting, esse desafio surgia ainda mais pesado: um plantel condicionado por sucessivas lesões, um treinador constantemente escrutinado, mesmo depois da conquista da dobradinha na época passada, e um percurso europeu recente marcado por altos e baixos. Poucos viam nos leões um candidato real ao apuramento direto, muito menos a uma campanha capaz de marcar a história da competição.

O sorteio não foi indulgente. Pelo caminho surgiam gigantes do futebol europeu, estádios míticos, ambientes hostis e o peso da comparação constante com clubes habituados a estas andanças.

Mas foi precisamente aí que este Sporting começou a distinguir-se. Longe de se encolher perante o contexto, a equipa foi crescendo a cada jornada. Aprendeu com os erros, ganhou confiança com as vitórias e construiu uma identidade competitiva que lhe permitiu discutir jogos contra qualquer adversário. Em casa ou fora, frente a equipas teoricamente superiores, os leões mostraram organização, coragem e uma maturidade pouco comum no futebol português em contexto europeu.

O resultado final ultrapassou todas as expectativas. O Sporting terminou a fase de liga com 16 pontos, garantiu o apuramento direto para os oitavos de final e inscreveu o seu nome em várias páginas inéditas da história da prova: primeira equipa portuguesa a atingir este patamar no novo formato, primeira a somar cinco vitórias numa só edição e primeira a conseguir uma reviravolta fora de portas.

Mais do que números, ficou um percurso de afirmação. Um Sporting grande, respeitado e plenamente integrado entre os melhores da Europa.

1.ª jornada – Sporting 4-1 Kairat Almaty

Mas… comecemos pelo início. A estreia europeia aconteceu em Alvalade, a 18 de setembro de 2025, num jogo que exigia concentração máxima, apesar do claro favoritismo.

Frente ao Kairat Almaty, o Sporting assumiu desde cedo a iniciativa, dominou territorialmente e procurou instalar-se no meio-campo adversário, mas encontrou dificuldades para desmontar um bloco baixo e organizado.

O falhanço de uma grande penalidade, por intermédio de Morten Hjulmand, e alguma ansiedade coletiva adiaram a vantagem, que lá acabou por aparecer, através de Francisco Trincão, mesmo antes do intervalo.

jogadores Sporting
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Na segunda parte, o Sporting manteve-se fiel ao seu plano, acelerou nos momentos certos e começou a encontrar espaços com maior regularidade. A qualidade individual fez a diferença e o jogo começou a inclinar-se de forma clara, com o ‘bis’ de Trincão e ainda os golos de Alisson Santos (estreia a marcar pelos leões, na altura) e Geovany Quenda, que se tornou no segundo jogador português mais novo de sempre a marcar na Liga/Taça dos Campeões, apenas atrás de António Simões, pelo Benfica.

Na reta final, os cazaques ainda chegaram ao tento de honra, não por nenhum dos portugueses que lá atua (Luís Mata e Jorginho), mas por Edmilson Santos, brasileiro que até já passou pelas divisões inferiores do futebol português, só que sem alterar o desfecho da partida.

De facto, não foi uma exibição perfeita, mas foi uma entrada segura, importante para ganhar confiança e lançar a campanha com três pontos fundamentais frente a uma equipa claramente mais fraca do ponto de vista coletivo e individual.

2.ª jornada – Nápoles 2-1 Sporting

Em Nápoles, o Sporting enfrentou um adversário de outra dimensão competitiva. Diante de uma formação orientada pelo técnico italiano Antonio Conte, a equipa leonina entrou organizada, consciente das dificuldades e preparada para sofrer. Durante largos períodos, conseguiu anular os principais argumentos ofensivos do adversário, mantendo o jogo equilibrado e controlado emocionalmente.

O primeiro golo sofrido (dos dois que Rasmus Hojlund marcou) surgiu num momento de transição mal defendida, mas não quebrou a equipa. Pelo contrário, o Sporting cresceu, começou a sair com mais critério e foi recompensado com o empate, na conversão de uma grande penalidade por Luis Suárez.

Quando o jogo parecia pender para o lado leonino, um erro isolado de Rui Silva, já dentro do último quarto de hora, acabou por ser decisivo. A derrota foi pesada, nomeadamente do ponto de vista mental e psicológico, pelo que se produziu (recorde-se a defesa extraordinária de Vanja Milinkovic-Savic a um cabeceamento de Hjulmand, no último lance do encontro), mas deixou uma mensagem clara: o Sporting estava preparado para competir ao mais alto nível e não seria figurante nesta Champions.

3.ª jornada – Sporting 2-1 Marselha

O regresso a Alvalade trazia consigo a necessidade de reagir. Frente à turma orientada por Roberto De Zerbi, o Sporting entrou bem, pressionante e intenso, mas acabou surpreendido por um golo adversário, de Igor Paixão, que expôs fragilidades momentâneas na transição defensiva. O jogo tornou-se, consequentemente, mais tenso e emocionalmente exigente.

Luis Suárez Sporting Benjamin Pavard Marselha
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Mesmo em desvantagem, os leões nunca perderam o controlo. Com superioridade numérica na segunda parte, após a expulsão, por duplo amarelo, de Emerson Palmieri, assumiram claramente a iniciativa, empurraram o Marselha para trás e aumentaram o volume ofensivo, ainda que nem sempre com clareza na finalização.

Aliás, a reviravolta, produzida essencialmente pelos tentos de Geny Catamo e Alisson Santos, surgiu como consequência natural dessa insistência. O Sporting acreditou até ao fim e foi recompensado com uma vitória de enorme importância, não apenas pelos pontos, mas pelo impacto psicológico numa campanha que ganhava novo fôlego, até pelo calendário que se avizinhava.

4.ª jornada – Juventus 1-1 Sporting

Em Turim, logo no segundo jogo de Luciano Spalletti à frente do comando técnico da turma transalpina, o Sporting apresentou-se sem receios, circulou a bola com qualidade, encontrou espaços e mostrou maturidade numa fase inicial em que conseguiu controlar o ritmo do jogo. O golo leonino, de Maxi Araújo, em particular, logo aos 12 minutos, foi, de resto, o culminar de uma excelente jogada coletiva, das melhores na temporada leonina até então.

Contudo, a reação da Juventus, fruto da chamada “chicotada psicológica” aquando da chegada de um novo treinador, trouxe maior pressão e obrigou o Sporting a baixar linhas. O empate, por Dusan Vlahovic, mudou o contexto do jogo, tornando-o mais físico e emocionalmente desgastante, com os italianos a empurrar cada vez mais.

Ainda assim, o Sporting resistiu. Soube sofrer, manteve-se compacto e segurou um ponto de enorme valor num dos estádios mais emblemáticos da Europa. Foi um empate que reforçou estatuto e confiança, numa exibição que só não deu para mais pelo desgaste físico que se fez sentir, resultado da enorme quantidade de jogos consecutivos, num curto espaço de tempo, da qual a equipa “sofreu”.

5.ª jornada – Sporting 3-0 Club Brugge

Numa noite fria em Alvalade, o Sporting assinou uma das exibições mais completas da época. Desde o primeiro minuto, dominou, pressionou alto e impôs o seu jogo com autoridade. O golo inaugural, de Geovany Quenda, cedo deu tranquilidade e permitiu controlar o encontro.

Salvador Blopa Sporting
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

A equipa leonina revelou grande capacidade para variar o jogo, explorar a largura e acelerar nos momentos certos. O segundo golo (Luis Suárez) confirmou a superioridade e deixou o adversário sem resposta, perante um Sporting confiante e seguro.

Na segunda parte, mesmo com menor intensidade, os leões nunca perderam o controlo. O terceiro golo, por intermédio de Francisco Trincão, fechou definitivamente a partida e praticamente carimbou, pelo menos o play-off. Uma vitória clara, madura e afirmativa.

6.ª jornada – Bayern Munique 3-1 Sporting

Em dezembro, na Allianz Arena, o Sporting sabia que teria de viver largos momentos sem bola. Organizado em bloco baixo, mostrou disciplina e concentração, tentando aproveitar cada recuperação para sair rápido e criar perigo.

Contra a corrente do jogo, chegou ao golo (autogolo de Joshua Kimmich) e silenciou momentaneamente o estádio. Esse momento deu confiança à equipa, que acreditou ser possível discutir o resultado frente a um dos gigantes europeus.

No entanto, o Bayern acabou por impor a sua força, aproveitando erros e momentos decisivos. Apesar da derrota, fruto de três golos sofridos no espaço de 12 minutos (Serge Gnabry, Lennart Karl e Jonathan Tah), ficou uma exibição honrosa, competitiva e digna, num campo em que a maioria das equipas que o visita sai de lá goleada, que reforçou a imagem europeia do Sporting.

7.ª jornada – Sporting 2-1 PSG

Já em janeiro do novo ano de 2026, frente ao campeão europeu, o Sporting entrou com respeito, mas sem medo. A primeira parte foi de sofrimento, com o PSG a dominar territorialmente e a criar dificuldades constantes.

Matheus Reis Gonçalo Ramos Sporting PSG
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Após o intervalo, o cenário mudou. O Sporting subiu linhas, foi mais agressivo e começou a acreditar. O golo inaugural, de Suárez, incendiou Alvalade e empurrou a equipa para um último quarto de hora de enorme entrega emocional.

Apesar do (grande) golo de Khvicha Kvaratskhelia, que deu o empate à formação parisiense, os leões ainda foram a tempo de vencer o jogo, com outro golo do avançado internacional colombiano, já aos 90’, vergando, assim, o campeão da Europa em pleno José Alvalade, e terminando o encontro num ambiente de total comunhão entre equipa e adeptos.

Foi uma vitória histórica, carregada de simbolismo, que confirmou o crescimento europeu do Sporting e o colocou definitivamente entre os grandes. O triunfo confirmou, ainda, o play-off e havia, também, a possibilidade de garantir a passagem aos ‘oitavos’ de forma direta, caso, na última jornada, os leões vencessem em Bilbau e beneficiassem de mais alguns resultados das equipas que, no momento, constavam à sua frente na tabela classificativa.

8.ª jornada – Athletic Bilbao 2-3 Sporting

San Mamés apresentou-se, por isso, como o derradeiro teste. O Sporting entrou mal, sofreu cedo e voltou a ver-se em desvantagem após reagir, na sequência de um canto batido por Maxi Araújo e concretizado por Ousmane Diomande (regressado de lesão, curiosamente).

Contudo, o jogo tornou-se caótico, emocionalmente pesado e cheio de contrariedades, tal como a lesão de Gonçalo Inácio e, lá está, o novo golo sofrido, desta vez por intermédio de Gorka Guruzeta (Oihan Sancet fez o primeiro da turma basca).

Na segunda parte, porém, designadamente após a tripla substituição realizada por Rui Borges, surgiu um Sporting diferente. Mais maduro, mais dominante e mais confiante, assumindo o controlo total do encontro, impondo-se num dos ambientes mais exigentes da Europa.

Oihan Sancet e Francisco Trincão no Athletic x Sporting
Fonte: Athletic

Com quase meia hora por jogar mais a compensação, Trincão fez o empate e, já ao cair do pano, o, por vezes, “patinho feio” (e até associado a uma saída para o Nápoles) Alisson Santos voltou a ser herói na Champions – já o tinha sido frente ao Marselha e  marcado um dos golos da vitória frente ao Kairat Almaty, como referido anteriormente -, depois de um lance onde Luis Suárez até tinha quase a “obrigação” de marcar o 2-3, tamanha foi a qualidade do passe realizado por Pedro Gonçalves para isolar o colombiano.

A vitória foi histórica: primeira em Espanha, reviravolta fora de casa e, como mencionado, beneficiando dos resultados que precisava, apuramento direto garantido. Um final épico para uma campanha que ficará para sempre na memória leonina.

Um fecho à altura do caminho

No centro de tudo esteve Rui Borges. Num percurso marcado por dúvidas externas, críticas constantes e um contexto particularmente adverso, o treinador soube manter o grupo unido, focado e competitivo.

Nunca perdeu a humildade, nunca se escondeu nas vitórias nem fugiu às responsabilidades nas derrotas. Com escolhas por vezes discutidas, como acontece com todos os grandes líderes, foi capaz de construir uma equipa com identidade, rigor competitivo e, sobretudo, ambição europeia, como não é assim tão habitual ver pelos lados de Alvalade, diga-se, de passagem.

Rui Borges Sporting
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Os números falam por si: treinador português com mais vitórias nas competições europeias esta época, responsável por uma campanha que colocou o Sporting num patamar histórico e que devolveu ao clube o respeito pleno no contexto continental.

Mas este feito não se explica apenas a partir do banco. Em campo, surgiram protagonistas à altura da exigência. Luís Suárez foi o rosto da eficácia e da liderança ofensiva, decisivo nos momentos-chave e incansável na entrega. Morten trouxe equilíbrio, inteligência e critério ao meio-campo, enquanto João Simões se afirmou com maturidade rara para a idade, assumindo responsabilidades nos jogos grandes.

Geny Catamo foi decisivo pela verticalidade e pelos desequilíbrios em momentos críticos, Trincão e Pote acrescentaram classe e definição, e Alisson mudou jogos a partir do banco com irreverência e impacto imediato. Na defesa, Diomande cresceu sempre que o palco foi maior, impondo-se com autoridade frente a alguns dos melhores avançados da Europa, bem apoiado por uma linha que soube sofrer quando foi preciso. Rui Silva foi determinante em noites de aperto, segurando pontos e vitórias com defesas decisivas, mesmo depois do erro em Nápoles (não se abalou e isso é de valorizar).

No final, este Sporting não foi apenas uma soma de bons jogadores. Foi, antes, um coletivo forte, solidário e ambicioso. Uma equipa que honrou o símbolo que carrega ao peito e que pode, com orgulho, afirmar-se como uma das grandes histórias desta edição da Liga dos Campeões.

Raul Saraiva
Raul Saraiva
O Raúl tem 19 anos e está a tirar a Licenciatura em Ciências da Comunicação. Pretende seguir Jornalismo, de preferência desportivo. Acredita que se aprende diariamente e que, por isso, o desporto pode ser melhor.

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