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A teimosia de Jorge Jesus e o seu reflexo na equipa

Cláudia Figueiredo · 6 min

A teimosia de Jorge Jesus e o seu reflexo na equipa
Foto: Sporting CP

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Quando olhamos para Jorge Jesus, sejamos nós adeptos do Sporting ou de qualquer outra equipa nacional, todos somos capazes de lhe reconhecer qualidades que o tornam num dos melhores treinadores portugueses da atualidade, a nível técnico e sobretudo tático. No entanto, é quase inevitável que esses mesmos adeptos também sejam capazes de lhe apontar, pelo menos, uma mão cheia de defeitos que normalmente têm impacto direto no rendimento das suas equipas, colocando-as em momentos delicados e difíceis de ultrapassar.

Para além do egocentrismo que lhe é reconhecido – que já o havia colocado em maus lençóis no Benfica com a perda de três importantes troféus na reta final da época 2012/13 – também a teimosia em apostar nos seus jogadores de confiança, mesmo que estes estejam em claro sub-rendimento, é um dos motivos que justificam a queda de forma do Sporting nesta nova época.

Se pegarmos na equipa que é habitualmente titular, e analisarmos caso a caso é fácil perceber aquilo de que falo nas linhas anteriores. Na lateral direita, Schelotto e João Pereira concorrem por um lugar no onze. No ano passado, quando chegou a meio da época, Schelotto agarrou o lugar e teve um crescendo de forma até ao final da época – algo que, de resto, aconteceu com a restante equipa titular – e colocou João Pereira numa situação de eclipse total em que a imprensa chegou a questionar Jorge Jesus sobre o motivo pelo qual o português nunca fazia parte dos planos. Esta época, em treze jogos oficiais, o português disputou sete encontros contra seis do ítalo-argentino. Para mim, João Pereira seria o lateral de eleição – não metendo de parte o “esquecido” Ricardo Esgaio – a quem se devia confiar a titularidade, pois raramente compromete, mesmo quando lhe aparecem pela frente jogadores que à partida serão uma dor de cabeça devido à intensidade e velocidade que colocam no jogo. Em sentido inverso, Schelotto já teve erros preocupantes durante esta época e o banco seria uma boa opção, não fosse este um jogador contratado na era Jorge Jesus, o que leva o treinador a querer “à força” que o jogador tenha um rendimento assinalável.

João Pereira tem sido mais esclarecido que o seu concorrente direto Fonte: Sporting CP
João Pereira tem sido mais esclarecido que o seu concorrente direto
Fonte: Sporting CP

A lateral esquerda é, neste momento, a maior dor de cabeça para treinador e adeptos. Marvin Zeegelaar e Jefferson estão longe de render aquilo que se exige a jogadores que representam um clube candidato ao título nacional. E, por isso mesmo, Bruno César já foi chamado por três vezes para diminuir os estragos. Na época passada, Jefferson foi o lateral mais utilizado – Marvin só chegou em janeiro – e, tal como nos habituou, acredito que com uma boa dose de confiança e ritmo de jogo, a história podia ser bem diferente a começar nos cruzamentos milimétricos que fazia e que tanto jeito dariam por esta altura a Bas Dost. Mas, mais uma vez, Marvin foi uma compra da era Jorge Jesus.

Bryan Ruiz está em claro sub-rendimento e nem a alteração da sua posição habitual para segundo avançado trouxe melhorias significativas ao ponto do costarriquenho evidenciar todas as qualidades que sabemos que tem. Apesar de transpirar talento com a bola nos pés, algo que é um presente dos deuses para qualquer amante do futebol, o seu compatriota Joel Campbell parece estar a subir de forma e se continuar assim é possível que seja utilizado com mais regularidade por Jorge Jesus. No entanto, Bryan Ruiz está mais familiarizado com as rotinas da equipa e as ideias do treinador e, por isso, parece-me que será a primeira opção para a ala esquerda durante os próximos tempos.

Lazar Markovic é um velho conhecido do futebol português e a sua vinda para Alvalade trouxe grandes expetativas acerca da sua performance desportiva. A chegada do sérvio no último dia de mercado e a recente lesão na coxa que o afastou dos relvados turcos durante três meses podem ter sido cruciais para um início de época pouco fulgurante. Coincidência ou não, é a jogar como segundo avançado – tal como Jesus já percebeu – que Markovic consegue aumentar o seu rendimento. Inicialmente, era opção nas alas, tanto direita como esquerda, mas gradualmente tem sido o substituto natural de Alan Ruiz, que não tem rendido aquilo que se esperava dele. André e Bryan Ruiz também já passaram por esta posição e, apesar do costarriquenho conseguir render nela, o brasileiro não tem tido a mesma sorte. De fora desta luta, parece estar Castaignos que pode jogar nas duas posições mais avançadas do terreno mas não é opção do treinador em nenhuma delas. Na meia hora que realizou esta temporada, contra o Tondela, o holandês não deslumbrou mas também não comprometeu, e é certo que todos nós gostaríamos de ver mais dele (assim como de Meli).

A lesão de Adrien Silva veio abrir um buraco no meio-campo. A aposta inicial do treinador recaiu sobre o reforço que veio para ser o substituto natural do português. Elias chegou e também perdeu grande parte da pré-época mas tinha a vantagem de chegar a uma casa que já conhece, o que naturalmente facilita a adaptação. O brasileiro parece ser uma sombra do jogador que conhecemos na época 2011/12. Por isso mesmo, Jorge Jesus foi obrigado a arranjar uma solução que tapasse o fosso entre os avançados e a posição 6. Bruno César, mais uma vez, tem sido essa solução de recurso. O meio-campo melhorou apesar de, tal como se esperava, não ter a mesma dinâmica de quando o internacional português Adrien Silva está em campo.

Neste momento, Elias é uma sombra do jogador que passou pelo Sporting em 2011/12  Fonte: Sporting CP
Neste momento, Elias é uma sombra do jogador que passou pelo Sporting em 2011/12
Fonte: Sporting CP

Apesar de todos os percalços que têm havido e das más decisões que Jorge Jesus tem tomado, o treinador também tem muito mérito na forma como projetou alguns dos elementos que se tornaram peças influentes no jogo da equipa. A primeira grande surpresa foi Bruno César. Tal como já disse anteriormente, o brasileiro tornou-se um bombeiro de serviço que apaga todos os fogos, não importa a zona do terreno onde eles aconteçam. No mercado de Inverno da época passada, quando chegou a Alvalade, poucos foram aqueles que perceberam a utilidade desta contratação. Porém, quase um ano depois, percebe-se que Jorge Jesus aproveitou muito bem um jogador que já conhecia dos tempos da Luz e que andava “perdido” no Estoril depois de uma passagem pelo estrangeiro. A polivalência de Bruno César tem sido preponderante e até decisiva quando todos os recursos parecem já ter sido gastos na procura de soluções.

No mercado de Janeiro, Jorge Jesus foi também buscar Rúben Semedo, um jogador que tinha feito a pré-época no Sporting e que foi para Setúbal com o intuito de somar minutos na primeira liga. Contra todas as expectativas, o regresso aconteceu mais cedo do que o previsto e Paulo Oliveira acabou por ser preterido em detrimento do seu colega de equipa. Para mim, grande parte do crescimento e da exponencial evolução que Rúben Semedo teve até agora, é fruto de um trabalho intenso que o treinador tem realizado com ele. É certo que Paulo Oliveira não merece a condição de terceira opção, mas tal como sabemos, Jorge Jesus sempre preferiu centrais possantes, algo que Rúben Semedo tem a mais que Paulo Oliveira. E a escolha não me parece de todo descabida, visto que Rúben Semedo é um diamante em bruto que tem todas as condições para vir a ser um central de referência no futuro. E, se tudo correr bem, deverá estar a poucos meses de ser chamado à seleção campeã da Europa.

Se falamos de mérito do treinador, é inevitável falar de Gelson Martins. Jorge Jesus manteve o “menino” na equipa titular, mesmo com a chegada de nomes sonantes como são Joel Campbell e Lazar Markovic. E de outra maneira não podia ser, já que o momento de forma é invejável e Gelson é considerado o próximo caso sério da formação de Alvalade, não tivesse ele ido ao Santiago Barnabéu deslumbrar a Europa do futebol.

Foto de capa: Sporting Clube de Portugal

 

 

Cláudia Figueiredo

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