Aleluia… ele ficou (por enquanto)!

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Leonard Cohen compôs aquilo que toda a gente conhece como uma das mais belas e apaixonantes melodias poéticas. E, se a música já se tinha fundido com o firmamento, Jeff Buckley foi o responsável por perpetuar esse facto naquela voz fraterna, aconchegante e soalheira. Um verdadeiro Big Brother (George Orwell, “1984”) em tom musical. Cenários distintos, impenetrabilidade semelhante. Ao primeiro ruído emitido por cada uma delas, eclodia o silêncio e a abstração de tudo o resto. Saudades do que ainda não vivi, nem irei viver.

O mercado de transferências cessou, Aleluia. Como adepto da listada verde e branca, corroía-me a possível (e esperada) saída de Bruno Fernandes. Descrever a inquietação, ao longo de um verão, dia após dia, seria desperdício de tempo e de caracteres. Avanços e recuos que incendiavam os programas de debate futebolístico e eu a esvair-me em espuma, com convulsões e ataques epiléticos sempre que posicionava a televisão nos canais respetivos. Um braço de ferro vencido, estranhamente. Aleluia!

A pérola resguarda-se no coral, apesar de pairar a incerteza. Ouvi falar de acordos futuros com clubes de estirpe maior, mas fugazmente se dissiparam nas declarações de presidentes e empresários; o acorde falhou, o secretismo e o tilintar das moedas não se escutou (“I’ve heard was a secret chord”). Aleluia!

E ele ficou. Colocando de parte a renovação, aumento salarial e toda essa burocracia, admirem o espírito temerário do homem: a casa arde e o ele, com inúmeros baldes de água, corre-a de uma ponta à outra, atirando-os para os locais onde o fogo se contempla de modo a evitar que tudo se reduza a cinzas. Tudo isto sem indumentária de bombeiro. E, pelo que vejo, a fé continua intacta, mas com tendência a sumir-se dada a ausência de provas de temeridade igual ou maior por parte dos colegas de trabalho (“Your faith was strong, but you needed proof”). Aleluia!

A manutenção do capitão é uma doce melodia para os ouvidos das hostes leoninas
Fonte: Sporting CP

O meu fascínio cedo despertou, embora não saiba precisar o momento exato. E aí começou a germinar aquela sensação de que podíamos ter uma palavra a dizer no que de mais sagrado existe e no que foge há tempo calculável e doloroso. Bruno Fernandes conseguiu, nestes dois anos, ser a ponte entre o desastre o sucesso, se é que o que conquistamos nestas duas épocas morosas possa ser considerado como tal: mostrou-se a pomba sagrada e cada suspiro com o desígnio de manter o fôlego se deve a ele (“I remember when I moved in you/ And the holy dove, she was moving too/ And every single breath that we drew was Hallellujah”). Aleluia!

A saída em Janeiro é viável e até lá toda a massa associativa viverá ladeada pela apoquentação da consumação da transferência, agravada pela possibilidade (remota) de o Sporting Clube de Portugal estar na luta pelo título. Mas, invade-me um sentimento misto: neste momento, todas as verbas são bem-vindas e, apesar de as vendas de Thierry e Raphinha imprimirem uma respiração financeira mais desobstruída, a verba encaixada com a transferência do oito leonino era ouro sobre azul, como se profere na gíria; contudo, a outra metade da minha sagacidade incita à salvaguarda da coqueluche porque ali se localiza um jogador à imagem do clube, mesmo que esteja num pedestal, interna e nacionalmente, face às peripécias constantes.

Aconteça o que acontecer, eu estou ao lado do genuíno senhor da batuta, do senhor que comanda uma orquestra desafinada e incrivelmente menos harmoniosa do que os D.A.M.A! (“And even thought it all went wrong/ I’ll stand right here, before the Lord of Song/ With nothing, nothing on my tongue but Hallelujah”).

Foto de Capa: Sporting CP

Romão Rodrigues
Romão Rodrigueshttp://www.bolanarede.pt
Em primeira mão, a informação que considera útil: cruza pensamentos, cabeceia análises sobre futebol e tenta marcar opiniões sobre o universo que o rege. Depois, o que considera acessório: Romão Rodrigues, estudante universitário e apaixonado pelas Letras.                                                                                                                                                 O Romão escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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