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A espécie humana contenta-se com pouco, muito pouco. Apraz-me, por exemplo, ver a minha casa repleta, de amigos ou familiares. Na verdade, enche-me de alegria. É isso mesmo. Erguer a cabeça, olhar discretamente e pensar que aquela gente podia – eventualmente – sofrer sucessivas metamorfoses de modo a assemelhar-se a mobília e a acompanhar-me durante a diáspora que a vida representa. Tudo seria mais fácil.
Ora, tecendo a analogia para o campo futebolístico, dá qualquer coisa como ver o meu José Alvalade XXI cheio, uma autenticidade oval composta pela dosagem certa e equilibrada de gemas e claras, içando cachecóis, bandeiras e tarjas de apoio ao clube e rugindo cânticos que irritam a pele e lhe causam a maior das dobras. O Mundo Sabe Que o Homem, de forte, tem pouco ou nada; portanto, o leitor encontra-se automaticamente dispensado de dissimular o caldo lacrimal aquando da construção de memória fotográfica.
Trago, a público, uma pequena lista sintomática das cheias que uma parte restrita de Lisboa experimentou (atenção: a última atualização foi aplicada em maio de 2018. Porém, dadas as circunstâncias e sabendo de antemão os factos que enjaularam o clube nos últimos dois anos, a atualização seguinte deve aponta para uma margem de erro nula ou quase nula).
5.
Sporting CP 0-0 SL Benfica (2017/2018): 49 339. A penúltima jornada foi massacrada com o eterno derby. Ali, disputava-se o acesso direto à Liga dos Campeões: os pontos na tabela classificativa equidistavam-se antes da partida. O resultado final é uma mescla de estuque com esferovite: durante os 90 minutos, os da casa jogaram para o empate à la moda de Jorge Jesus – no leque vasto, encontra-se a utilização de Matheus Pereira no Dragão, na época antecedente – e as águias correram atrás do prejuízo, mas sem o descortinar definitivamente (possivelmente, um dos melhores jogos do Benfica em Alvalade sem apontar um único tento). Banho tomado, flashs, conferências de imprensa e análises realizadas, seguiu-se o naufrágio na Madeira. O resto é história.
4.
Sporting CP 2-1 FC Porto (2016/2017): 49 399. Tarde soalheira de agosto. Terceira jornada. Ambiente cálido não fosse próprio de um embate da estirpe de um genuíno clássico. Partida disputada sem graves incidentes a não ser a expulsão de um médico pertencente aos quadros leoninos: Frederico Varandas. Gelson Martins e Slimani resolveram o que Felipe podia ter complicada com aquele golo madrugador. William Carvalho jogou, fez jogar e não quis ver mais ninguém a fazê-lo. Joel “Rising Star” Campbell agitou as bancadas com um sprint. Marvin Zeeglaar encabeçou o onze inicial, a par de João Pereira (!). Bruno César ainda era bombeiro. As minhas férias no Algarve acabaram pouco depois. A esperança no título durou pouco tempo mais…
3.
Sporting CP 0-1 SL Benfica (2015/2016): 49 699. Prometo que é o último clássico da shortlist, até porque também começo a não gostar da brincadeira. A envolvência do pré-jogo, a euforia a querer extrapolar as costuras do discernimento. Só existia uma voz. Aquele momento era nosso. Era a nossa vez. As bancadas de Alvalade, o lustro que delas provinha, o uno (quase) perfeito. Precisamente por esta altura, as palavras ausentam-se sem deixar rasto. Está a acontecer! Não pode ser! Já foram, sem aviso. E eu senti o cheiro… Mitroglou, marcou o golo mais importante da sua vida e tirou aquilo que de mais precioso estava prestes a encharcar a minha. Doía menos levar um tiro ou com os pitons de Renato Sanches que vitimaram Bryan Ruiz.
2.
Sporting CP 3-1 Manchester United (2003/2004): 49 992. O primeiro de milhares ou milhões. O fracasso da noite assentou sobre a performance de Dulce Pontes. Luís Filipe (duvido que o reconheça sem a devida pesquisa) recebeu o Óscar de pessoa improvável de ferir um colosso europeu. Cristiano Ronaldo foi a confirmação e incutiu à massa adepta o sonho, alimentando-o até ao final da partida, altura na qual se destrinça a sua partida para cidade cinzenta. Fernando Santos era o treinador e não fomos campeões, facto que acaba por redundar no impercetível. Última época de João Pinto a envergar a camisola rubra. Cá para mim, nessa noite, qualquer adepto imaginou que fosse possível vencer uma competição europeia naquele belo lugar…
1.
Sporting CP 1 – 2 Real Madrid FC (2016/2017): 50 046. Légia de Varsóvia, Borussia Dortmund e os pupilos de Zinédine Zidane: eis o grupo na liga milionária. A eliminatória disseminou-se na capital espanhola, primeiro jogo. A vitória moral de que todos falaram foi, claro está, insuficiente e ilustradora de uma regressão nos níveis de entusiasmo. A presença de Luc Castaignos na partida defronte do em tempos campeão europeu alemão também não tranquilizou. Nestas circunstâncias, o fulgor e o sôfrego desejo de ver um filho voltar à casa onde foi criado foi concedido: Ronaldo jogou e não finalizou. O penalty convertido de Adrien ainda animou as bancadas de Alvalade, ainda que em inferioridade numérica.














