diva de alvalade catarina

Não sei bem o que o futuro nos espera. O mundo anda louco, as pessoas loucas andam, a comunidade oscila entre ser a origem da loucura ou deixar-se contaminar por aquela que lhe é exógena.

Sempre fui fã maior do planeamento. De um planeamento estratégico. Das pessoas que não só sabem onde querem chegar, como sabem arquitectar os caminhos a percorrer, no entretanto. Que o percorrem, efectivamente. Ainda mais daquelas que o fazem com dignidade. Com elevação. Aqueles que escolhem repercutir, em cada pequeno passo que dão, os bons valores que (ainda) existem. Os que não passam por cima de ninguém e que percebem que, se sozinhos chegamos mais rápido, juntos chegamos mais longe.

Alvalade é uma Escola de bons valores. Nós criámos – e criamos – alguns dos maiores talentos desportivos, para lá de futebolísticos, deste mundo. Criámo-los de forma sustentada, tornámo-los homens e depois oferecemos-lhes o mundo. Contudo, olhando para trás, não consigo não achar que falhámos – quase sempre – num dos momentos mais importantes do planeamento: o momento de dar o salto, de fazer render, de consolidar o valor, de ser excelente de forma não só contínua como, sobretudo, sustentada. Esta última fase do crescimento, se virem bem, deixámos sempre ao cuidado de terceiros.

Isto é – sempre foi, a meu ver -, um dos critérios maiores da distinção entre os bons e os excelentes. Nós temos de nos tornar sustentadamente excelentes. Nós somos o Sporting. Não podemos continuar a viver na dimensão do “quase”, do “quase que lá chegámos” em que vivemos desde que me lembro de existir.

Nós temos a obrigação, até o “devir”, de fazer acontecer. Com as armas que temos, que são muitas, e boas. A diferença das nossas armas é essa: vêm de dentro, não as importamos, não nos apoderamos do que não é nosso. São prata da casa que, até agora, só se tornaram ouro quando saídas de Alvalade.

Este é o nosso desafio maior a médio prazo: encher os cofres – entenda-se, primeiramente os relvados – com barras de ouro, e não com tustos de latão, como até agora temos feito.

Precisamos de nos socorrer do tal planeamento de que há pouco falava.

Quando Bruno foi eleito, lembro-me de comentar que esse planeamento, à época uma necessidade ainda mais premente, não podia ser feito a 1/2 anos, mas devia, antes, ser feito a 5/8 anos. Com confiança nas estruturas, nas bases, nas rotinas que se criam. Que têm de ser de excelência, ainda que essa excelência não chegue para, no imediato, levar de vencidos os milhões de que outros dispõem.

Este é um sentimento ambíguo: se, por um lado, temos de dar oportunidade aos nossos pequenos para se tornarem, errando se preciso for, grandes, por outro vivemos sob a necessidade de apresentar resultados. Vitórias.

Por muito que me custe dizê-lo, parece-me que na próxima época viveremos esta ambiguidade como nunca. Espero estar enganada, evidentemente, mas não posso chegar a outra conclusão face aos (parcos) indícios que vão surgindo. Não teremos Nani, provavelmente não teremos La Culebra, e Slimani também está no mercado. Pior do que isso, não temos in house quem ocupe, indiscutivelmente e com qualidade, os seus lugares, e ainda menos dispomos de meios para ir ao mercado buscar indiscutíveis.

Posto isto, resta-me contar-vos um dos meus piores defeitos: no fundo, bem lá no fundo, sou uma optimista (ainda não percebi bem porquê….). Eu acredito no futuro. Eu acredito – tenho de acreditar – no nosso crescimento. Sustentado. Equilibrado. Contínuo.

Mais do que isso, eu tenho de acreditar que os meus filhos vão crescer a ver o Sporting vencer de forma reiterada. Como eu não cresci. Como os meus netos crescerão, espero (e acredito). E aí, nós vamos rejubilar a dobrar. É esse um dos dias que eu mais quero ver chegar. Sempre quis.

É esse o dia em que eu vou acordar, olhar para cima e dizer: ” Obrigada, Avô, por me ensinares esta coisa tão diferente que é ser Sporting.”

SL, 1906

Foto de capa: Sporting.pt

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