Comandante William

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Numa época em que o Sporting registou um recorde de aquisições, a inconsistência das escolhas para constituir a base do plantel originava o desequilíbrio que previa o insucesso. Neste leque de novidades incluía-se o Argentino Rinaudo, jogador não tanto aprumado na técnica como na intensidade, característica que nele mais se evidenciava. Na nobre posição de jogar à frente dos centrais, parecia Rinaudo ganhar protagonismo. Até que, de forma discreta, um menino da formação leonina promovido à equipa principal parecia ganhar preponderância de jogo para jogo, deixando adivinhar que a primazia das opções até poderia estar dentro de casa.

A história de William Carvalho começava com a garantia de uma titularidade ganha a pulso, e que se manteve com a passagem dos Treinadores que antecederam Jorge Jesus. Um processo de amadurecimento que começou cedo e que justificou o estatuto do jovem Capitão Leonino. Conjugado com o especial percurso ao serviço do Sporting, William de Carvalho integra a renovada geração que consolidou a selecção nacional Portuguesa. Ser Campeão Europeu é um privilégio curricular ao alcance de poucos, e foi também por isso que as portas da Europa se abriram para prestar atenção a este médio, que engana com a velocidade e a simplicidade da técnica. Mas ao contrário do que sucedeu com o caso de Adrien Silva, foi passada com resistência a pressão da época de transferências, e a braçadeira de capitão respeitou a ordem hierárquica. Agora, para além de ser o representante mais experiente da Academia de Alcochete na equipa principal do Sporting, William é também capitão de Equipa, o posto máximo da representação leonina dentro de campo.

William Carvalho fere como poucos os ritmos de jogo no meio campo Fonte: Sporting CP
William Carvalho fere como poucos os ritmos de jogo no meio campo
Fonte: Sporting CP

Jogar numa posição que interfere tanta vez no desenvolvimento táctico do jogo aumenta de igual forma a interferência do jogador em lances determinantes. Ser trinco poderá ser ingrato, porque entre as reduções de espaço e os passes longos que inventam uma nova jogada há sempre uma abordagem que não corre como esperado, e o William sabe disto. É tanta vez esta lucidez, que claramente lhe pertence por direito de experiência, que faz dele um jogador diferente. A forma como lida com o erro é notável, não deixando que uma escolha comprometedora afecte o resto do jogo. É por isto que gosto do William. Por isto, e por jogos como aquele que fez ao serviço da selecção contra a Suíça, deixando os amantes de futebol enternecidos por o ver mascarado de pêndulo que, de vez em quando, diz ao resto dos jogadores do campo que lhe apetece desacelerar o ritmo da coisa.

Confesso que nem sempre percebo as críticas que apontam à sua falta de velocidade, até porque quando se tem a zona nuclear do campo como habitat, a definição de velocidade transforma-se. Destituindo esta falácia, podemos dizer que há poucos jogadores com a inteligência de William na abordagem dos lances, até porque a sua resolução nem sempre está na capacidade de chegar primeiro à bola, mas sim na arte de prever a decisão dos adversários. Mas nos dias que correm é injusto falar de William sem falar da sua mania de começar a colocar a bola onde quer. Já não é a primeira nem a segunda vez que vemos este rapaz a telecomandar o esférico para o sítio certo, seja o pé do Gelson ou a zona do Corredor onde o Piccini estará três segundos depois. São gestos de um grande jogador, cuja evolução técnica aliada à cultura da assiduidade lhe oferece a chancela de Comandante. O Comandante William.

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal

Ricardo Gonçalves
Ricardo Gonçalves
Como uma célebre música diria, "eu tenho dois amores", com o desporto e a comunicação a ocuparem 50/50 do seu coração. Entusiasta confesso daquilo que é a alegria do futebol, promete transmitir-vos através de palavras as emoções que se sentem durante os 90 minutos (e além disso). Escreve sem acordo ortográfico

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