Força da tática | Sporting x Torreense

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A época 2025/2026 em Portugal terminou oficialmente de forma histórica, depois do Torreense ter vencido o Sporting por 2-1 e ter conquistado a Taça de Portugal. A equipa de Torres Vedras venceu a taça pela primeira vez e tornou-se na primeira equipa de sempre da segunda divisão a vencer a prova, numa época em que ainda pode subir à primeira divisão, caso ultrapasse o Casa Pia, no play-off.

Foi um jogo histórico, mas um jogo longe de ser brilhante. Valeu pela emoção única e crua que apenas a Taça de Portugal pode proporcionar e pela postura tática do Torreense durante toda a partida, de proposta vincada desde o apito inicial:

Fonte: Sofascore

Como era de esperar, o Sporting foi dono e senhor da bola, assinado por baixo pela equipa de Torres Vedras, que esperava primeiro em bloco médio, depois em bloco baixo, diversificando a sua estrutura entre estes dois momentos. Ou seja, numa primeira fase, o Torrense esperava em bloco médio em 1x4x4x2, assumindo 1x5x4x1 conforme o Sporting avançava no terreno e até recorreu ao 6x3x1 em alguns momentos.

O Sporting, numa primeira fase, manteve-se fiel ao princípio de superioridade numérica; isto é, quando Costinha juntava-se a Zohi para formar o 1x4x4x2, Morita (esporadicamente, tanto Maxi como Vagiannidis também fazem este papel) baixava para formar uma linha de três com os defesas centrais, garantindo vantagem numérica de três para dois. Quando o homem mais avançado do Torreense era apenas Zohi, os leões construíam apenas com Quaresma e Gonçalo Inácio, mantendo vantagem numérica de dois para um. Isto permitia que houvesse sempre linha de passe na primeira fase de construção, facilitando a circulação, a fim de tentar encontrar um passe entre as linhas do Torreense.

Ainda que uma das principais armas do conjunto de Rui Borges seja a forma como ocupa o corredor central e consegue combinações curtas e rápidas entre jogadores dotados tecnicamente, como Pedro Gonçalves, Trincão e Suárez, era nos corredores laterais onde estava o ouro, mas onde o Sporting nunca o conseguiu encontrar. Os leões mantiveram dupla largura no lado direito, com Vagiannidis e Geny Catamo, mas isto também fez com que Geny nunca estivesse em situações de 1×1, uma vez que a presença de dois jogadores no mesmo espaço facilitava o trabalho defensivo do Torreense, que sempre se esforçou para não deixar Javi Vázquez numa ilha com Geny.

No corredor direito, onde o Sporting foi mais perigoso, acontecia o contrário: com Pedro Gonçalves a baixar no terreno ou a deambular para o corredor central, Maxi Araújo tinha a função de atacar o espaço que se formava quando o extremo leonino conseguia arrastar um defensor consigo. A partir daqui, nasceram os lances mais perigosos do lado verde e branco e foi de onde nasceu a jogada do golo do Sporting.

Dany Jean Torreense Morten Hjulmand Sporting
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

O Torrense manteve-se fiel ao seu plano de jogo, mesmo quando se viu a vencer por 1×0 nos minutos iniciais da partida. Procurando a profundidade na grande maioria dos seus ataques, é comum ver a equipa de Luís Tralhão em 1x5x4x1, por norma, com Leo Silva a cair para o meio dos centrais. No entanto, o Jamor viu o lateral direito David Bruno a juntar-se aos centrais e Luis Quintero a descer para formar uma linha de cinco, sendo que o médio defensivo apenas descia, como habitual, quando o objetivo passava a ser defender a área, formando uma linha de seis jogadores.

Com bola, querendo apressar os ataques, o Torreense preferiu quase sempre o corredor esquerdo, através da velocidade de Dany Jean e da capacidade de chegada de Javi Vázquez. Assumiu-se em 1x4x3x3, formando um triângulo no meio-campo perante a dupla leonina de Morita e Hjulmand. Desta forma, havia vantagem numérica da equipa de Torres Vedras no miolo do campo, colocando a questão no meio-campo do Sporting se devia sair para pressionar o ‘seis’ opositor ou fixar nas referências Costinha e Liberato.

Sendo que o Sporting pressionava em 4x4x2, com Trincão a juntar-se a Suárez na primeira linha, o Torreense procurou Leo Silva nas costas dos avançados, onde podia receber sozinho através da ligação guarda-redes-médio defensivo. Caso Hjulmand ou Morita tomassem a decisão de saltar em Leo Silva, o guardião Lucas Paes batia na frente, tendencialmente para Dany Jean, na extremidade esquerda, correndo poucos riscos. Kévin Zohi foi outra grande ameaça à profundidade, enquanto Luis Quintero trouxe critério e alguma pausa ao jogo.

Torreense Adeptos Jamor
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Com as saídas de Morita e Vagiannidis para as entradas de Diomande e Luis Guilherme, Pedro Gonçalves desceu para o meio-campo, Luis Guilherme assumiu a função (pouco feliz) de extremo esquerdo e Quaresma alternou entre central e lateral, dependendo do momento do jogo. Isto fez com que o Sporting, sem bola, assumisse uma linha de cinco em alguns momentos, com Geny a fechar como lateral – com mais um homem atrás, o Sporting tinha menos um homem à frente e Pedro Gonçalves não cobre o mesmo espaço que Morita, permitindo ao Torreense ter mais facilidade na saída e prolongar os seus ataques.

De um modo geral, Luís Tralhão venceu a batalha tática frente a Rui Borges ao retirar o espaço no corredor central ao Sporting e minimizando ao máximo o seu impacto ofensivo. De resto, a entrega e crença dos jogadores do Torreense foram papel e caneta para a história poder ser escrita.

Rui Gonçalves
Rui Gonçalves
Licenciado em Sociologia, o Rui Gonçalves aborda o futebol dentro e fora das quatro linhas. Através de um olhar crítico, escreve sobre tática, gestão desportiva e os seus impactos individuais e sociais.

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