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Não merecemos nada

Fernando Costa · 3 min

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Nas últimas semanas, o autor deste pequeno texto esteve ausente de Portugal. Foi o tempo de descansar e tirar uma pausa do quotidiano, mas foi também, como é recorrente quando se viaja, tempo de ganhar novas perspectivas sobre a vida. Ou, pelo menos, redimensioná-las. Compreender quais são as preocupações que merecem esse termo, e quais as que não merecem metade do tempo habitualmente perdido. Perceber o que vale a pena, e o que não vale. Se tivéssemos sempre essa noção da dimensão das coisas, muito provavelmente a nossa vida – seja pessoal ou profissional – seria muito mais objetiva, ou se quisermos, muito menos dispersa do que costuma ser. Ainda assim, é humanamente impossível desligarmo-nos de absolutamente de tudo que nos rodeia no nosso dia-a-dia habitual. Seja a família, os amigos, ou as coisas que mais amamos. O futebol e o desporto costumam, na questão do autor, incluir-se nesse lote.

Portanto foi com alguma regularidade – e passo agora este texto para a primeira pessoa, se me permitem – que fui acompanhando o que se passava no nosso pequeno mundo. No nosso pequeno Portugal. Verifico as manchetes dos jornais com um triste riso de quem percebe de que nada irá mudar, como quem observa aquele amigo que faz continuadamente asneiras ao ponto de se tornar inevitavelmente engraçado. Desde os exaustivos discursos de Bruno de Carvalho, passando pelas repetitivas picadas de Pinto da Costa, até aos mandamentos de Vieira, que se tentam passar por mais puros e inocentes do que realmente são, terminando na vergonhosa orgia de insultos dos diretores de comunicação dos três grandes, mostrando uma personalidade mais fraca e vazia que a própria Federação, também ela ausente e guiada pelas forças atuais do futebol português.

Questionava Pepa esta semana, treinador do Tondela, se no nosso campeonato manda quem berra mais alto. A minha pergunta é: mas ainda alguém duvida disso? O futebol português vive numa casa onde a autoridade define-se por quem mais verbaliza, não por quem mais lidera. Basta observar as últimas décadas do futebol português para perceber isso. Seja por capas de jornais, seja por escutas telefónicas, seja por correio electrónico. E quem devia realmente mandar, não tem força nem coragem suficiente para se impor, porque está acorrentado aos seus aliados e consequentes regalias.

A guerra entre os três grandes está a ficar insustentável Fonte: Cortina Verde
A guerra entre os três grandes está a ficar insustentável
Fonte: Cortina Verde

Num mundo de egos, hipocrisias e vale-tudo, ninguém sairá vencedor. Ninguém. E quem sair, vai ser rapidamente ofuscado com conspirações e acusações de controlo e favoritismo. E isto é tão óbvio, não só para mim mas para qualquer acompanhante do nosso futebol, que já se torna completamente redutor fazer qualquer observação quanto a isto. Um conjunto de verdades a “la palice” que toda a gente sabe e ninguém faz por mudar. Porque o que realmente importa, no final, é quem fica na frente da tabela.

Para terminar este mar de críticas já por todos conhecidos, e já escrevendo estas palavras em solo lusitano, observo a notícia de Ernesto Valverde, treinador do Barcelona, no nosso país vizinho, a admitir que o clube foi beneficiado num lance determinante há umas jornadas atrás. Aqui, os treinadores queixam-se que o adversário festejou demasiado um golo. Que mais posso dizer? Não merecemos nada. Cada vez mais o nosso futebol, habituado a grandes portugueses, se vai tornando proporcional ao tamanho do nosso país.

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal

Fernando Costa

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