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O conto do Menino do Mercado

Romão Rodrigues · 3 min

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(Hora da sesta)

No infantário, as crianças repousam nos cubículos destinados. O objetivo primordial prende-se com o facto de os fazer descansar uma ou duas horas, de modo a que as educadoras de infância possam adentrar no perímetro de amena cavaqueira.

A estratégia é um pretérito. Velhaca, por sinal. Adormecer as almas ainda vivas, contar-lhes a história da carochinha (isto engloba muita coisa, ao que parece), naquela voz pretensiosa, eloquente e com aquele tom de mistério incluído, mesmo que se busque uma maçã no cimo de uma árvore, e sair de sorrelfa pela porta, em bicos de pés.

Educadora de infância – Meninos, hoje conto-vos a história do “Menino no Mercado”! (afina a voz naquele tom que já se conhece).

“Era uma vez um menino tímido, baixo e rechonchudo. Todas as manhãs, no caminho para a escola, passava por uma mercearia e via as frutas sobre as caixas, numa banca alongada.

Ao olhar nessa direção, o seu estômago tremelicava: era pobre, vestia roupa farrapada e a primeira refeição do dia era o almoço oferecido pela cantina da escola. Os pais não conseguiam ajudar de forma alguma.

Naquele instante, o fenómeno era observado por todos os que cruzavam a rua, repentina ou absortamente. A maioria das pessoas ficava pasmada face tal situação. Com pena, com tristeza, com alguma repulsa até. Mas nunca ninguém foi capaz de ajudar. E lá ia o rapaz, de mochila às costas e cabisbaixo, tropeçando na calçada.

Até ao dia em que…”

Escuta-se o último ressonar cândido. Acontece o que já foi descrito.

O sono foi alimentado e estimulado pelo h em falta. A partir desse momento, cada alma imberbe foi guiada pelo turbilhão de pensamentos desagregados e sem um fio condutor, tão pouco. O momento discorre em perfeita harmonia com a ataraxia característica. Mas a dormir todos são alheios ao que está a acontecer no mundo. Portanto, resta interromper o sono de quem está destinado ao sofrimento.

O menino cresceu, desenvolveu uma paixão clubística e perde o apetite quando o clube a faz passar vergonhas. É hipertensa. Hoje é vítima de “mercadofobia”.

Apesar das lacunas evidentes do plantel, os leões continuam sem movimentações no mercado
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Pelos vistos, o clube segue a mesma cognominação, ainda que por razões distintas. O Sporting Clube de Portugal é mesmo o menino da história inventada à pressa, de modo quase tosco.

No mercado, ativos na inatividade. As possíveis contratações são, maioritariamente, impossibilitadas por fatores diversos. Listas e listas de reforços que estão com um pé, pé e meio ou com apenas um dedo em falta e que acabam por desaguar noutras instituições, às vezes nos tão mencionados “rivais”.

Quem é que, no seu perfeito juízo, pretende dar um passo atrás na carreira e, ainda por cima, assistir à redução salarial? Aos apupos constantes da massa adepta? À humilhação de não ser a terceira força do futebol nacional e estar em risco de perder a quarta posição brevemente? Aos corajosos, uma palavra de apreço: o mundo descreve o movimento rotativo em torno de pessoas assim.

“Não devemos acreditar em tudo o que lemos nos jornais” é a frase mais impotente dos dois séculos passados: em algum momento, nem que seja o da leitura de determinada notícia, crê-se naquilo que se lê e comprova-se, afirma-se, reitera-se. Contudo, “não devemos colocar a mão no fogo por ninguém” é, contraditoriamente, de potência excelsa.

Refiro-me – evidentemente – aos endividamentos em catadupa, aos calotes que são uma constante e ao queixume originário de dirigentes de clubes/instituições. Isto baralha os adversários: supostamente, a corda está ao pescoço e começa a sinalizar a sua marca; contudo, são feitas propostas como se fôssemos o Tio Patinhas, como se não tivéssemos um treinador para amortizar. Minto! Dois treinadores para amortizar…

Aproxima-se mais uma época de contratações cirúrgicas, porque alguma delas virá com rótulo, a prometer mundos e fundos e lesionar-se-á – época para o galheiro! – nos primeiros treinos; mais uma época de contratações que justificam o investimento pelo facto de existir um certo e compreensível receio face a um escoamento da reserva de flops (marketing puro).

Este “Menino do Mercado” ainda não redigiu o ponto de viragem. Até ver!

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Romão Rodrigues

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