Poderíamos falar de má sorte, de uma maldição ou simplesmente de algo inexplicável. A verdade é que já é algo recorrente, de ano para ano, com o problema a persistir. O Sporting voltou a ser assombrado pelas lesões, umas de curta duração, outras a longo prazo, a comprometer uma época inteira, à cabeça a lesão de Fotis Ioannidis. Esta época, a equipa leonina conta com 18 jogadores no departamento médico, espalhadas pela temporada, mas com algumas lesões a acontecerem em momentos críticos da época.
Não só em momentos críticos, mas a surgirem em quantidades anormais, com jogadores importantes de rotação a estarem de fora em simultâneo. O caso mais recente deu-se frente ao Tondela com Gonçalo Inácio, Fresneda, Hjulmand e Ioannidis a estarem ausentes do encontro. O próprio Rui Borges admitiu que a situação médica do clube “não é normal”. O Sporting tem várias reincidências, com jogadores a voltar a pisar o relvado para, mais tarde, voltarem ao departamento médico por tempo indeterminado. Fresneda e Debast são exemplos.


Esta constante onda de lesões no Sporting levanta questões, seja no planeamento do plantel, seja na performance do departamento médico, bem como na sobrecarga de jogos. As performances da equipa de Rui Borges caíram, os resultados demonstram-no com alguns jogadores a serem uma sombra do início da época. Luis Suárez já não demonstra o vigor nem o ímpeto goleador da fase inicial da época. Parece exausto.
Nos últimos jogos, demonstrou a garra de outrora e o porquê de ter feito esquecer Viktor Gyokeres, dentro da massa adepta. O problema é que não existe rotatividade, não existem opções para substituir o colombiano no imediato. Ioannidis chegou com esse papel. No entanto, já são 26, os jogos perdidos pelo ponta de lança grego. Rafael Nel tem ganho destaque por algumas exibições, mas não é um produto acabado, tem muito para crescer se quiser ser uma opção de rotação para os leões.


Trincão é um dos casos mais gritantes da gestão do plantel leonino. O português jogou 32 jogos esta época na liga portuguesa, apenas dois a sair do banco, a totalizar 2672 minutos. Nenhum jogador é de ferro, nem sobre-humano, o cansaço acumula e as pernas vacilam com o rendo a cair a pique.
Trincão é craque da cabeça aos pés, qualquer treinador adoraria tê-lo a jogar os 90 minutos sem parar, sente-se a sua presença em campo e o jogador é essencial para a formação e estilo de jogo de Rui Borges. Mas a energia já não é a mesma do início da época, Trincão está esgotado e está a jogar no limite da sua condição física, encontra-se a sofrer com a falta de opções no banco.


Pedro Gonçalves, Pote como é comumente conhecido, também já não dá as garantias de outros tempos. Depois de cinco meses lesionado, Pote voltou aos relvados, com as exibições a serem de um nível muito abaixo daquele que se espera de um jogador do calibre do português.
É preciso paciência para o jogador, que está a regressar aos poucos de uma lesão grave, ainda que misteriosa pela falta de comunicação do clube em relação à sua situação. Existe um secretismo recorrente, relativamente às lesões, faltando mais transparência entre o clube e os adeptos.
Juntando-se a Pote na lista de jogadores lesionados por um período longo, está Nuno Santos, um lesionado crónico, e Daniel Bragança, um autêntico maestro que tem vindo a revelar um instinto goleador e uma ótima chegada à área. É pena que Bragança tenha chegado de forma tão tardia ao plantel do Sporting, o português teria sido um ótimo ativo e uma excelente opção de rotação.
E isto explica, parcialmente, a performance do Sporting, mas não justifica. Uma onda de lesões funciona como uma bola de neve: lesão de jogadores, falta de opções no plantel, falta de rotatividade, sobrecarga e consequente perda de rendimento. Porém, não é justo retirar responsabilidades ao planeamento desportivo do Sporting, que se revelou infrutífero e sinceramente limitado.
Das 11 contratações dos leões, contam-se pelos dedos as que foram sucessos absolutos, outras deixam um sabor amargo pelo que se pensava que podiam acrescentar. Dos dois de pontas de lança, apenas um foi sucesso, Ioannidis, apesar de ter demonstrado alguma qualidade, não jogou tempo suficiente para ser uma opção viável.
O meio-campo continua fragilizado, já a contar com as duas saídas eminentes de Hjulmand e de Morita, os leões não reforçaram como deveriam. Kochorashvili mostrou-se uma aposta ao lado, com a possibilidade de saída no próximo mercado. Alisson Santos foi um bom ativo, já Faye tem tido dificuldades em se impor. Luís Guilherme tem potencial, mas ainda não é um produto acabado. Vagiannidis é a nova ovelha negra do plantel e Mangas é como se não entrasse para as contas.


O mercado de inverno não corrigiu as lacunas que o plantel apresentava, apenas Luis Guilherme se tem revelado útil para Rui Borges, faltou acrescentar profundidade depois de uma primeira metade da época fustigada pelas lesões. Este não é um problema de hoje, é recorrente, o que fica no ar é que houve um fechar de olhos e um ignorar de uma situação grave que compromete o cumprimento dos objetivos do Sporting.
Rui Borges parece ser o homem certo para guiar o Sporting a bom porto, mas como qualquer comandante, precisa de um barco estável e que lhe sejam facultadas as armas necessárias para rivalizar com o FC Porto (que planeou a época de forma exímia e corrigiu lacunas no mercado de inverno) e com o Benfica.

