O Mundo Sabe Que… o meu irmão não sabe tocar flauta

- Advertisement -

O fim de semana que findou bradou ao lado mais pensativo que em mim figura. A reflexão constante absorvia-me do noticiário recorrente, das tragédias que albergam no mundo e que não são despejadas com justa causa e da crise interna vivida no cenário político do LIVRE. (Constou-se que a direção do partido despertou, levantou-se repentinamente da cama, fez a higiene pessoal e, enquanto realizava a primeira refeição da manhã, lia o programa eleitoral, como de um escrito recente se tratasse e, descontente com o resultado, reescrevia-o, pensando de si para si como é que tinha sido capaz de redigir tal coisa. Joacine Katar Moreira, por sua vez, viajou para a Palestina e tirou duas semanas de férias).

Muita da minha (aparente) introspeção derivou da carnificina infantil musical proveniente da flauta do meu irmão. A melodia enfadonha sondou todo e qualquer canto da casa, ecoando pelo prédio inteiro. De quinta-feira a domingo, a escala musical era repetida vezes e vezes sem conta, independentemente do compartimento ou hora.

Os buracos do instrumento esvaíam o seu esforço, a sua dedicação e a sua devoção (honrando o ideal sportinguista) para o teste que se avizinhava e que fará dele um ícone da música clássica. Mesmo de headphones, o ruído estridente perfurava e interrompia o normal funcionamento da fábrica mental.

Completamente hipnotizado, repousando no sofá, surge no meu pensamento a velha Nave de Alvalade, a mais bela das formas de visitar o espaço, segundo depoimentos de terceiros. A personificação de um meio de transporte que alcançava todo e qualquer astro, que explorou a paisagem espacial que cada modalidade ofereceu durante anos a fio e que descortinou a órbita de vários planetas que a visitavam.

O local onde o estrépito leonino ensurdecia o vácuo sonoro adversário. A construção sobre a qual se ergueu um misto de fantasia e realidade, vividas a uma intensidade superior à da velocidade da luz. A fusão entre o espaço sideral e a terra em tons de verde.

Uma viagem imaginativa, conduzida pela regressão espiritual, colocou-me presencialmente no antigo pavilhão. Curiosamente, em centenas de sonhos, este é o único que consigo rebobinar.

Fonte: Sporting CP

A nave, constituída por todos os tripulantes, iniciou a viagem: observando o que me envolvia, fui automaticamente contagiado pela alegria extravasada, pela fusão de um “sportinguismo” esfumado e constantemente recalcado; entraram em campo as modalidades do clube, devidamente alinhadas e cientes de que estavam sob as ordens do Reino de Leão e sob a supervisão de rugidos de alerta no ataque às diversas presas que por ali passassem.

“O Mundo Sabe Que” entoado, num uníssono arrepiante, era o mote e os níveis de confiança repunham-se. Aplaudimos a equipa, incitamos palavras de coragem e içamos cânticos de apoio, de início ao fim. As refeições confecionavam-se com a dosagem necessária de medo e pressão do público introduzidas no caldeirão a ferver. No sonho, fomos eternamente invictos. Na realidade, poucas vezes nos vergamos.

Durante (quase) duas décadas, edificou-se uma fortaleza imponente. Um veículo à prova de todo o arsenal de artilharia existente, rebocado pelas gargantas que não emudeciam e que empurravam a equipa no sentido da vitória e que olvidou a desdita que caracterizava o “desporto rei”. Sem a senil nave, o Sporting era um clube putrefacto. Com ela, tornou-se um clube de modalidades que tinha futebol.

Uma meia hora perfeita, se não fosse um sopro agudo nos meus tímpanos. De flauta em riste, lá estava o meu irmão, concentrado na escala musical. Abracei-o e prometi que, quando soubesse tocar, lhe ensinava o “O Mundo Sabe Que”.

 

Foto de Capa: Museu do Sporting CP

Romão Rodrigues
Romão Rodrigueshttp://www.bolanarede.pt
Em primeira mão, a informação que considera útil: cruza pensamentos, cabeceia análises sobre futebol e tenta marcar opiniões sobre o universo que o rege. Depois, o que considera acessório: Romão Rodrigues, estudante universitário e apaixonado pelas Letras.                                                                                                                                                 O Romão escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

Subscreve!

Artigos Populares

José Mourinho elogia jogador do Benfica: «Tem um motor de alta cavalagem»

José Mourinho analisou a vitória do Benfica sobre o Estrela da Amadora. Técnico das águias marcou presença na conferência de imprensa.

José Mourinho aponta 4 posições para Rafa Silva no Benfica e rejeita polémicas: «Eu acredito no presidente do Benfica»

José Mourinho analisou a vitória do Benfica sobre o Estrela da Amadora. Técnico das águias marcou presença na conferência de imprensa.

José Mourinho e o momento de sábado no Seixal: «Remeto para a simplicidade do comunicado que o Benfica fez»

José Mourinho analisou a vitória do Benfica sobre o Estrela da Amadora. Técnico das águias marcou presença na conferência de imprensa.

José Mourinho elogia Daniel Banjaqui e Anísio Cabral: «Não foi surpresa para ninguém porque não enganam»

José Mourinho analisou a vitória do Benfica sobre o Estrela da Amadora. Técnico das águias marcou presença na conferência de imprensa.

PUB

Mais Artigos Populares

João Nuno responde ao Bola na Rede: «Queremos que chegue rápido o final do mercado»

O Benfica venceu o Estrela da Amadora no Estádio da Luz. João Nuno, técnico do conjunto visitante, analisou o encontro.

Alavés surpreende com triunfo caseiro diante do Real Bétis: Eis os resultados do dia na La Liga

Este domingo, o Alavés recebeu e bateu o Real Bétis por 2-1 na 21.ª jornada da La Liga. O ex-FC Porto Toni Martínez marcou um dos golos da vitória.

Mão cheia do Braga frente ao Alverca na Primeira Liga

Na Pedreira, o Braga goleou o Alverca por 5-0, este domingo, num jogo a contar para a 19.ª jornada da Primeira Liga.