Os jogadores não se medem aos “sprints”

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sexto violino

Muito se fala da solidez do sector defensivo, da boa forma recente de Adrien, da inteligência de João Mário ou da enorme entrega do insaciável Slimani. Mas houve um jogador que teve de provar muito mais para só agora começar a ser elogiado de forma consistente pela crítica. Falo de Bryan Ruiz, o “lento”, o “soneca”, o “fora de forma”, o “gajo que tem de abancar” – como foi chamado por muitos sportinguistas ao fim de uns quantos jogos menos exuberantes no início da época, sensivelmente na mesma altura em que se começavam a ouvir, aqui e ali, algumas críticas a Jorge Jesus porque o Sporting ganhava mas não goleava e/ou não jogava bem.

Ora, a verdade é que nem os leões são uma equipa de Football Manager, onde são frequentes os resultados volumosos, nem Bryan Ruiz é um super-homem. Nesse sentido, tanto em termos colectivos como individuais, tem de existir um período de adaptação, que poderá ser grande ou pequeno consoante a qualidade do treinador e do jogador em causa. Tanto no caso de Jesus como de Bryan, estamos a falar de intervenientes de primeira categoria. Eis a razão pela qual, decorrido tão pouco tempo, este já é o melhor Sporting da última década e, simultaneamente, também o motivo pelo qual o jogador costa-riquenho chegou e, num curto espaço de tempo, ouviu críticas, assimilou as ideias do treinador e se tornou um dos melhores jogadores do campeonato – tudo isto mais rapidamente do que o diabo a esfregar um olho, ou do que um qualquer Gonçalo Guedes a completar o ciclo “jovem desconhecido – novo Ronaldo – suplente proscrito – porque-agora-temos-um-brinquedo-novo-na-equipa”.

Bryan Ruiz tem sido um jogador fundamental no Sporting de Jesus. Extremo-esquerdo de recurso durante quase toda a primeira volta, o número 20 compensa com inteligência aquilo que lhe falta em velocidade, deriva para o meio como Jesus bem gosta para quebrar marcações e confundir adversários e, com cinco meses de Sporting, é já o “prolongamento” do treinador em campo. Já o era antes da época iniciar oficialmente, aliás, quando JJ afirmou a seu respeito que Bryan “é um jogador que sabe tudo”. Mérito também para o treinador, que percebeu isso de forma quase instantânea. De facto, Jesus vê aquilo que muitos outros deixam escapar.

As pessoas que acham que os futebolistas se medem aos “sprints” e que, em consequência disso, acabam a bater palmas a Djalós (será preciso lembrar os anos de crédito que este jogador teve em Alvalade, ou o facto de alguns Sportinguistas continuarem a dizer que ele “não era assim tão mau”?) e a assobiar Bryans devem pôr os olhos neste jogador. Ele é a prova de como, mais do que com os pés, o futebol se joga com o cérebro. O bom futebol, pelo menos. E essa é a diferença entre as equipas medíocres e as boas equipas.

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Para JJ, Bryan é indiscutível: “é um jogador que sabe tudo”
Fonte: Sporting CP

Correr mais não é sinónimo de correr melhor. Ter conhecimento táctico, saber gerir a bola quando a equipa precisa de a conservar e perceber quando se deve contemporizar ou soltar – contra o FC Porto, Bryan foi fundamental nestes aspectos – são qualidades que não saltam tanto à vista como um extremo velocíssimo ou um pontapé-canhão, mas revestem-se de grande importância numa equipa. E o Sporting tem, hoje em dia, provavelmente o melhor jogador em Portugal nesse binómio virtuosismo/inteligência. Completando a citação de Jorge Jesus sobre Bryan Ruiz feita no último Verão: “O que me impressiona mais nele é a cultura táctica. Ele é um jogador que sabe tudo. Sabe tudo. Em termos tácticos sabe tudo, sabe posicionar-se, enfim. Pode fazer três posições e vai fazê-las bem ao longo da época. É um atleta, tem 1,88 metros, bate bem as bolas paradas. Por isso é um jogador que é um reforço”. Jesus lançou os dados em Agosto, a realidade encarregou-se de lhe dar razão logo depois. E, perante tamanho elogio, haverá alguém que ainda se atreva a discordar?

Inteligência, técnica, liderança, capacidade de decisão, critério táctico, regularidade. O futebol de Bryan é de outros campeonatos, mas em boa hora aterrou em Alvalade. A forma como recebe a bola e, em poucos instantes, consegue ler o jogo e descortinar soluções que poucos descobririam faz dele um craque, estatuto consolidado pelo facto de ser um “pensador” que decide bem muitas vezes. Não desdenho o valor de um extremo rápido e agitador numa equipa – e como o Sporting necessita de alguém assim! – mas, ao olhar para Bryan Ruiz, quase tenho vontade de perguntar: “Quem precisa de velocidade de ponta quando tem no plantel um jogador com esta velocidade de execução?”. Dois tipos de velocidade – a primeira é mais nítida, mas a segunda é a que, quando bem aplicada, mais me encanta. E Bryan Ruiz é mestre nessa arte.

O seu estilo aparentemente despreocupado faz com que, nos dias em que as coisas correm menos bem, Bryan seja um dos alvos mais fáceis dos adeptos, como aliás se viu logo ao início. Não contem com este jogador para correrias desenfreadas e sem critério, porque ele não dá um passo que não seja necessário. E isso não é uma crítica, nem uma forma camuflada de lhe chamar “pastelão”, mas sim uma prova da inteligência do jogador. A verdade é que Ruiz não sabe jogar mal porque pensa bem e, dessa forma, está alguns segundos à frente de todos os outros.

No jogo com o FC Porto, Luís Freitas Lobo disse algo muito acertado sobre este jogador: ele “sabe jogar cansado”. É por isso, aliás, que muitos adeptos, onde por vezes me incluo, costumam dizer, nos primeiros minutos após o intervalo, que “o Bryan tem de sair”. Contudo, ele lá continua a tocar na bola com requinte e a calar tudo e todos, não raras vezes subindo até de rendimento nas segundas partes.

Até agora, não é favor nenhum dizer que o costa-riquenho tem sido um dos melhores jogadores do campeonato. De todos os futebolistas do plantel do Sporting, Bryan Ruiz é o que, devido à sua calma e inteligência, me dá mais confiança de poder estar a festejar em Maio. É uma honra poder contar com a qualidade do seu futebol.

 

Algumas jogadas e golos de Bryan Ruiz no Sporting:

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Foto de capa: Sporting CP

João V. Sousa
João V. Sousahttp://www.bolanarede.pt
O João Sousa anseia pelo dia em que os sportinguistas materializem o orgulho que têm no ecletismo do clube numa afluência massiva às modalidades. Porque, segundo ele, elas são uma parte importantíssima da identidade do clube. Deseja ardentemente a construção de um pavilhão e defende a aposta nos futebolistas da casa, enquadrados por 2 ou 3 jogadores de nível internacional que permitam lutar por títulos. Bate-se por um Sporting sério, organizado e vencedor.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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