Relato de um regresso (muitas vezes) anunciado

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A efemeridade existencial apodera-se visceralmente de cada ser humano. Urge, a certo momento, esmiuçar, pulverizar toda e qualquer coisa, dissecando índoles e esventrando consciências. E aí, só aí, se deduz e apreende o âmago do próximo, os seus intentos e a veracidade das suas condutas, capazes de moldar e esculpir um vínculo afetivo. O Homem forja a intimidade que pretende estabelecer.

Aqui emerge o relato de platonismo! Islam Slimani é o principal intérprete da trama. Alvalade, 2013…

Neste momento, deflagra a mágoa e irrompe a saudade, bem como a nostalgia e a agrura. Nos primórdios, a conexão era inexistente. O “Consílio dos Óbices” reunira-se e impedira toda e qualquer ligação. Não nos divisava apenas um ecrã, divisava-nos a amálgama do muro de Berlim com a muralha da China. A fusão das nossas almas era impraticável… Contudo, a transfiguração, embora lenta, despontava. Introduzido aos poucos e poucos, transtornava e desnorteava o reduto recuado das formações adversárias. Observava todas as suas movimentações e pressentia o bramido que queria exteriorizar, mas que sem fundamento, não se comprovava.

Pacientemente, decifra a fórmula do golo (diante do Alba, 8-1). Na modesta de um despretensioso mortal, a celebração do tento adquiriu maior relevância do que o dito cujo. Embater a mão contra o peito, sob o símbolo de leão, traduzia o (já) inefável amor ao qual nos habituou. Ali, floresceu toda a admiração e toda a chama que (ainda) hoje se constata. A circunstância é análoga à primeira paixão. Pelo menos para mim. Germinaram, no ventre, aquelas borboletas sobre as quais todos comentam, mas que se esvaem no misticismo, que se declaram enigmáticas e insondáveis. Doravante, o contacto com o retângulozinho ia de vento em popa. Ao longo de três épocas, fomentou e acondicionou a perseverança, acorrentou o espírito vivenciado no balneário leonino e solidificou aquilo que outrora surgia esparso.

O mortífero argelino ainda surge vezes sem conta no imaginário leonino
Fonte: Sporting CP

Evoco a final da Taça de Portugal em 2015, na qual o argelino, sob o decurso em tons de vermelho da álgida Poseidon, devolveu a esperança e invocou o raiar de Febo. Relembro o expressivo 0-3 na Luz e a ressurreição do terramoto de 1755, encarnou em Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal). Recordo o Cerco do Porto, nas pelejas constantes com Iker Casillas, nas quais Islam Slimani, incorporado no “miguelismo” sportinguista, subjugou a si as forças liberais nortenhas.

O seu regresso é dialogado há algum tempo. Caso se efetue, regurgita em mim o júbilo, brota a euforia e o otimismo. Com egrégia personalidade, a desenvoltura da conquista é hábil e auspiciosa no contorno da impossibilidade. A autenticidade que o caracteriza merece a glória. A massa associativa, imperecível acompanhante da sua entrega, merece que o argelino exulte e seja exultado.

Foto de Capa: Sporting CP

artigo revisto por: Ana Ferreira

Romão Rodrigues
Romão Rodrigueshttp://www.bolanarede.pt
Em primeira mão, a informação que considera útil: cruza pensamentos, cabeceia análises sobre futebol e tenta marcar opiniões sobre o universo que o rege. Depois, o que considera acessório: Romão Rodrigues, estudante universitário e apaixonado pelas Letras.                                                                                                                                                 O Romão escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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