Ressacas europeias e egos desmedidos

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É engraçado lembrar que nos tempos do auge de Jorge Jesus no Benfica, quando estrutura e adeptos encarnados defendiam o experiente treinador até ao limite do indefensável, era quase uma bandeira dizer-se que “não se ganham títulos só com a formação”. Ora, parece que essa ideologia acabou curiosamente por ser transportada para Alvalade nestes últimos dois anos, percebendo-se claramente que a aposta naquilo que muitos viam como o ADN do Sporting se tem vindo a diluir.

Curiosamente, é uma frase com a qual até concordo na generalidade, mas desde os tempos de Paulo Bento no Sporting (que foi quando ela começou a ser esgrimida essencialmente como um ataque dos rivais aos leões) que ressalvo que o problema nunca foram os jogadores da formação per se, mas sim quem os acompanha.

Todos compreendem que jogadores como Coates, Bryan Ruiz, Bas Dost ou Markovic podem ser claras mais-valias num plantel que se quer competitivo, mas o problema é que depois o mesmo Sporting conta igualmente com jogadores como Douglas, André, Petrovic ou Schelotto. E eu ponho-me a pensar se muito desse dinheiro que é esbanjado em estrangeiros para serem segundas linhas não poderia ser investido em uma ou duas verdadeiras mais-valias e preencher as outras vagas com alguns miúdos da formação como João Palhinha, Iuri Medeiros, Francisco Geraldes, Tobias Figueiredo ou Daniel Podence.

Ao invés, parecemos continuar constantemente a jogar na lotaria, esquecendo-nos que o jackpot já nos saiu em 2013, com Slimani, e que situações dessas não têm tendência para acontecer regularmente. E, mesmo quando voltarem a acontecer, o sucesso da operação será diluído em todos os erros de casting que tivemos até esse momento.

Jorge Jesus pode dar a volta ao texto ainda nesta temporada Fonte: Sporting CP
Jorge Jesus pode dar a volta ao texto ainda nesta temporada
Fonte: Sporting CP

Entretanto, o Sporting conta com um plantel com seis ou sete jogadores de topo, outros seis ou sete de boa qualidade e preenche as restantes vagas com uma panóplia de futebolistas que alternam entre o mediano e o medíocre. Ora, custa perceber que esse último grupo de futebolistas é composto quase em exclusivo por jogadores contratados, o que deita por terra a tese de que a aposta na formação possa ter alguma relação causa-efeito na ausência de profundidade no grupo de trabalho sob o comando de Jorge Jesus.

E como se isso não fosse suficiente, ainda temos de conviver com o ego desmedido do treinador leonino, que (espero eu) já se terá arrependido de ter dito que se “o Sporting tem o melhor plantel em Portugal, o segredo está no treinador” ou que “o Real Madrid teria tido mais problemas” se ele estivesse no banco. É que talvez o desgaste da  Liga dos Campeões não seja a única explicação para a falta de resposta do onze leonino nos últimos jogos e poderão também essas palavras egocêntricas do treinador do Sporting ter feito alguma mossa no grupo.

Mas não me interpretem mal. Continuo a achar que Jorge Jesus tem todas as condições para ser a grande quota parte da solução e não tanto do problema. Haja, contudo, coragem para se dedicar exclusivamente no treino, onde é de longe o melhor da Primeira Liga, e em dar a volta por cima ao descalabro emocional do plantel.

Aliás, até lhe dou um conselho. No meio de tanta coisa que quis transportar da Luz para Alvalade, que se dedique pura e exclusivamente a uma muito simples. Um lema tantas vezes cantado pelos adeptos do Benfica e que deve ser rapidamente apreendido pelos jogadores do Sporting: “Raça, crer e ambição”. É disso que o adepto tem saudades…

Foto de capa: Sporting Clube de Portugal

Ricardo Figueiredo
Ricardo Figueiredohttp://www.bolanarede.pt
Sportinguista sofredor desde que se conhece, a verdade é que isso nunca garantiu grande facciosismo, sendo que não tem qualquer problema em criticar o seu clube quando é caso disso, às vezes até com maior afinco do que com os rivais. A principal paixão, aliás, sempre foi o futebol no seu contexto mais generalizado, acabando por ser sintomático que tenha começado a ler jornais desportivos logo que aprendeu a ler. Quanto ao ídolo de infância, esse será e corre o risco o de ser sempre o Krassimir Balakov, internacional búlgaro que lhe ofereceu a alcunha de “Bala” até hoje. Ricardo admite que ser jornalista desportivo foi um sonho de miúdo que conseguiu concretizar e o que mais o estimula na área passa pela análise de jogos e jogadores, nomeadamente os que ainda estão no futebol de formação ou naqueles campeonatos menos mediáticos e que pensa sempre que ninguém vê como o japonês, sul-coreano ou israelita..                                                                                                                                                 O Ricardo não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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