Cerca de uma semana depois de os jogadores e adeptos do Sporting terem abandonado o gelo norueguês cabisbaixos e incrédulos com a exibição protagonizada pela equipa, as bancadas de Alvalade uniram-se e cantaram em uníssono. Os atletas entraram em campo determinados a fazer daqueles 90 minutos um tempo infindável para o adversário e recompensar a audiência. Com o 3-0 registado no fim do tempo regulamentar, após golos de Gonçalo Inácio, Pedro Gonçalves e Luis Suárez, e consequente empate na eliminatória, já ninguém concebia a hipótese de um final anticlimático. Como tal, Maxi Araújo e, mais tarde, Rafael Nel carimbaram, já no prolongamento, a passagem dos leões aos quartos de final da Champions League, pela segunda vez na história do clube, a primeira desde a temporada 1982/1983.
A determinação do Sporting na entrada para este segundo encontro é parte fundamental na passagem à próxima fase da prova milionária. A entreajuda que tantas vezes faltou em Bodo, refletida numa reação à perda imediata e intensa, bem como em transições defensivas estonteantes, foi o principal ingrediente na exibição categórica do conjunto de Rui Borges. Porém, as perspetivas tática e estratégica não podem ser, em momento algum, ignoradas. O treinador mirandelense aprendeu com os erros: adaptou as referências de marcação, pelo que Berg deixou de ter espaço – Trincão parou de ter a responsabilidade de o marcar e Morita encarregou-se de o fazer – e Evjen foi vigiado por Maxi ou Inácio, não havendo inferioridade leonina no meio-campo. Ofensivamente, Borges instruiu os jogadores a variarem os corredores de ataque.


O ex-Toluca teve um papel preponderante na execução do plano de jogo sportinguista. Depois da utilização de Fresneda a lateral-esquerdo no jogo de ida, dada a indisponibilidade de Maxi e de Ricardo Mangas, o internacional uruguaio foi peça-chave porque permitiu aos leões ajudar na criação de mais focos de ataque e de superioridade numérica no último terço. Ainda promovendo a comparação com o primeiro jogo da eliminatória, até porque uma e outra partida estão interligadas, assistimos a um Sporting mais versátil, que não explorou apenas o jogo interior e combinações curtas, mas que recorreu a variações mais diretas e rápidas do centro de jogo para o lado descoberto, potenciando, da melhor forma possível, essa tal vantagem numérica. A mobilidade dos vários jogadores e a variedade de dinâmicas e funções de cada elemento, claramente trabalhadas ao detalhe, foram muito importantes para surpreender a equipa do Bodo/Glimt.
Tanto os jogadores que iniciaram a partida como, mais tarde, aqueles que entraram – em especial, Nuno Santos, Zeno Debast, Daniel Bragança e Rafael Nel – foram muito importantes por diversos motivos. Nuno Santos, substituindo Pote, deu mais energia à ala esquerda, permitindo a Maxi envolver-se por dentro ou, em contrapartida, relacionar-se com o uruguaio em corredor lateral; Daniel Bragança foi fundamental no golo que consumou a reviravolta na eliminatória, ao atacar o espaço entre central e lateral; Debast, tal como Inácio, deu uso à sua soberba qualidade de passe para continuar a desmontar e trocar as voltas ao bloco defensivo norueguês; substituindo o muito desgastado Luís Suárez, Nel contribuiu para renovar a energia do Sporting, mostrando-se comprometido no primeiro momento de pressão. Fez ainda o gosto ao pé, carimbando em absoluto a passagem leonina aos quartos de final da prova milionária e, de um ponto de vista pessoal, fazendo o primeiro golo ao serviço da equipa principal dos leões (em dois jogos), em plena Champions League.


Após a eliminação da equipa que comanda desde 2017, Kjetil Knutsen mostrou-se, quase de forma literal, sem palavras para o que acontecera dentro das quatro linhas. Como o próprio técnico assumiu, o Bodo/Glimt, para além de não ter conseguido dar continuidade à identidade que lhe permitiu vencer cinco jogos consecutivos na principal prova de clubes do mundo, não teve nenhuma fórmula para parar o ímpeto ofensivo dos leões. Para se ter uma noção mais palpável do que aqui se escreve e do domínio leonino, o Sporting contabilizava já 15 remates no fim do primeiro tempo, aos quais somou outros 19 na segunda parte. Fora desta estatística estão os lances em que, por milésimos de segundo, algum atleta verde e branco falhou o desvio. Dessa forma, encontrando, com muita dificuldade, algum defeito na exibição de um clube que se tem mostrado “tão grande como os maiores da Europa”, fica a ideia clara de que, capitalizando as inúmeras situações de perigo que foi originando ao longo de mais de 120 minutos, os leões poderiam ter decidido a eliminatória mais cedo.
De um ponto de vista meramente simbólico, a grande remontada verde e branca que aqui vem sendo descrita é apenas comparada à fantástica reviravolta que, lá na longínqua temporada de 1963/1964, o Sporting conseguiu perante o Manchester United, em plenos quartos de final da Taça das Taças. Recorde-se, a formação leonina virou um 4-1 a favor dos reds para um 6-4 no agregado, após vitória por 5-0 no antigo José Alvalade. O emblema lisboeta acabou por vencer essa edição da competição – a sua única conquista internacional. Aos dias de hoje, tantas e tantas vezes, é colocada no sistema de som do Estádio José Alvalade a faixa Heróis de 64, da banda Supporting, afeta ao clube. Continuando esta campanha histórica, e olhando à exibição da passada terça-feira, os tais Heróis de 64 têm inspirado os novos Heróis de 26.


Rui Borges, parafraseando as declarações de Luís Neto no balneário leonino, afirmou que “nós [Sporting] conhecíamos o melhor Bodo/Glimt, mas o Bodo/Glimt não conhecia o melhor Sporting”. Mesmo que estas palavras possam conter algum exagero, foi notório que a equipa norueguesa não estava à espera de enfrentar tamanha energia, atitude, inspiração, rigor tático e dinamismo do conjunto da casa. A incapacidade para travar a formação leonina revelou uma certa impreparação do técnico Knutsen para o cenário que o Sporting apresentou.
Neste momento, o Sporting Clube de Portugal, objetivamente, está entre os oito melhores clubes da Europa. Aliás, é a segunda vez que o demonstra nesta época desportiva, olhando até à classificação da fase de liga. A missão de atingir as meias-finais, isto é, ultrapassar o Arsenal, é extremamente complicada. Todavia, Rui Borges demonstrou que Alvalade já não é local para descrenças e que os leões de Portugal já não são gatos na Europa.

