O último dia da campanha para as eleições presidenciais ficou marcado pelo regresso de um passado já distante. Quando todos os candidatos faziam um último apelo ao voto, apareceu também um daqueles que aparece com o apelido de Bragança nas costas a pautar o seu regresso na vitória do Sporting sobre o Casa Pia. No caso de Daniel, há um fator extra. Os verdadeiros reis são aqueles capazes de trazer as ruas consigo. E as ruas, o máximo expressar da vontade popular, estiveram com o médio.
A segunda lesão grave de Daniel Bragança no espaço de um par de anos foi um duro revés num crescimento do médio, à data, nos primeiros meses de Rui Borges como treinador do Sporting. Os leões lidavam com uma onda de lesões e, num fevereiro que podia ser fatídico e que terminou como um mero obstáculo, o português caiu novamente. 11 meses depois, e com um aparecimento fugaz na equipa B, o emocional regresso.
Nunca Ricardo Mangas ouviu tantos aplausos. Ao seu lado, Daniel Bragança era recebido de pé pelo Estádio de Alvalade que o viu crescer e que há anos acompanha o desenvolvimento de um dos maiores talentos que Alcochete viu crescer neste século. O caminho até ao topo não foi uma autoestrada, mas o médio franzino dos pés de veludo cresceu a ponto de se tornar também num importante jogador na equipa principal.
A entrada em campo foi, de resto, impactante. Numa fase em que o Sporting já estava mais a gerir o jogo do que a procurar continuar a puxar, o médio português revitalizou a energia em campo. Já com o Académico de Viseu, pela equipa B, tinha entrado sem receios nem medo das arrancadas e do choque, claramente bons sinais perante o habitual receio depois de paragens tão longas e que, naturalmente, ainda se pode vir a sentir.
Rui Borges chamou Daniel Bragança para jogar à frente do duplo pivô, no espaço para o 10 habitualmente reservado a Francisco Trincão. A solidez defensiva do Casa Pia já se havia dissipado e, com espaços para aproveitar, o médio português foi aproveitando para aprimorar o cerco à baliza, para testar o remate e para aproximar a equipa da frente. Foi procurando tocar a bola a diversas alturas e, na chegada à área, marcou um golo celebrado em família. Ninguém quis faltar à festa de Daniel Bragança.
Rui Borges já falou no médio como um reforço de janeiro importante. Entre todos os setores e posições, o número 8 do Sporting é capaz de ser um dos mais abertos. João Simões oferece a capacidade de transporte e de chegada, mas ainda sem a capacidade de gerir os ritmos e os timings do jogo. Hidemasa Morita, mais associativo e impactante na saída de bola, mas também na capacidade de fazer subir a equipa, está num momento de baixa forma e sem a capacidade de acrescentar a mesma pauta à equipa. Giorgi Kochorashvili ainda não parece enquadrado a 100% no jogo leonino que, por seu lado, também não está desenvolvido para beneficiar da qualidade do passe longo do georgiano.


Neste contexto, e sem um companheiro certo ao lado de Morten Hjulmand, é possível pensar nos benefícios que Daniel Bragança trará para o jogo do Sporting. Desde logo porque o português consegue enquadrar várias das mais-valias dos seus companheiros e concorrentes pela posição.
Há em Daniel Bragança a fineza para organizar o jogo do Sporting, para construir sob pressão e para gerir timings desde trás. Outrora 10, o médio foi recuando em campo nos últimos anos para ver mais vezes o jogo de frente e ser mais influente na construção da sua equipa. Por outro lado, e mesmo neste cenário, Daniel Bragança cresceu também para jogar a dois, ganhando capacidade de condução, de transporte e de chegada a área, ocupando os espaços livres de trás para a frente. As capacidades de Daniel Bragança tornam o médio um dos jogadores que se pode voltar a impor na equipa do Sporting e ser chave numa segunda volta que se quer história nos lados de Alvalade. A braçadeira está no braço e a varinha mágica nos pés e na mente. O resto, só as quatro linhas e a bola poderão ditar.
BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Muito se fala das vantagens e mais-valias de ter um central esquerdino na construção. Hoje o Sporting acaba por jogar com dois centrais esquerdinos na construção, não é muito comum. Pergunto-lhe quais os principais desafios e potencialidades, como o passe do Inácio no segundo golo, em conjugar dois esquerdinos no centro da defesa?
Rui Borges: Muito honestamente, acho que é a mentalidade. Se jogarmos com dois pés direitos é normal, com dois canhotos já não é, mas é exatamente a mesma coisa. Acho que não há nada de anormal no jogo, só não estamos habituados a que isso aconteça, porque não é normal nas equipas. Acho que no futuro cada vez mais vai acontecer isso. Ontem dizia a brincar, no treino, junto da minha equipa técnica, como íamos jogar com dois centrais canhotos e dois laterais destros, que daqui a poucos anos íamos ver laterais a pé contrário e trocados. Dá outras coisas ao jogo, outras visões na tomada de decisão. O futebol cada vez mais é revolucionado nesse sentido e cresce no sentido de criar alternativas para ultrapassar as equipas, que são mais competitivas, organizadas e com mais qualidade. No que são os centrais, a mim não muda nada. É só a mentalidade de não estarmos habituados a ver dois centrais de pé esquerdo e estarmos habituados a ver dois centrais de pé direito. A qualidade de passe do Inácio está lá seja a jogar à esquerda ou à direita. O passe para o segundo golo é extraordinário, a receção do Geny é extraordinária também. Tem mais a ver com a capacidade individual que nos dão do que com jogarem dois canhotos ou dois destros. Tem a ver com a qualidade individual deles e vão encontrar sempre uma linha de passe.
Bola na Rede: Na primeira parte, principalmente antes do golo sofrido, o Casa Pia consegue algumas chegadas com perigo pela direita através da relação entre o Livolant e o Larrazabal. Como vê esta relação entre estes dois jogadores complementares no processo de crescimento? Acredita que esta dupla pode potenciar o jogo ofensivo do Casa Pia?
Álvaro Pacheco: Sim, sem dúvida nenhuma. São dois jogadores que têm uma capacidade ofensiva muito boa e nós também estrategicamente, no nosso plano de jogo, queríamos ser capazes de tirar a profundidade e o jogo interior e obrigar o Sporting a jogar pelo jogo de corredores para, quando ganhássemos bola, aproveitar os espaços que o Sporting nos concedia, principalmente nos corredores laterais. Aí, o Larrazabal e o Livolant iriam ser muito importantes, como iram ser também, do outro lado, o Abdu [Conté] e o Kelian [Nsona]. No lado esquerdo não fomos capazes de dar essa fluidez no corredor e de ser mais acutilantes para obrigar o Sporting a sentir-se mais desconfortável. O processo é por aí, fazer a equipa potenciar o seu corredor direito e dar-lhes mais ferramentas e argumentos para sermos capazes de ficar mais fortes e desafiar o corredor esquerdo a ser capaz de ter essa produtividade no futuro.

