Vitória morna numa competição surreal

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sexto violino

Só em Portugal é que é possível existir uma competição em que os participantes não partam em igualdade de circunstâncias. Se condicionar os sorteios de modo a que os quatro primeiros classificados do campeonato anterior fiquem em grupos diferentes já era prejudicial para os clubes pequenos, criar um modelo com dois grupos de quatro equipas e outros dois de cinco só é normal para uma Liga que amplia um campeonato para 18 equipas mas continua a dizer que são o 15º e o 16º classificados a descer de divisão. Mas adiante.

No que ao jogo diz respeito, o Sporting realizou a chamada “exibição q.b.”, sem um grande domínio nem grandes exibições individuais, mas com boa capacidade de sofrimento e uma solidez defensiva um pouco acima do habitual. Esta época, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que a equipa conseguiu terminar um jogo sem golos sofridos…

O jogo começou com tropeção de Naby Sarr aos 4’, que Hernâni por pouco não aproveitou. Na resposta, foi o Sporting quem teve êxito. Golo de Héldon (bons primeiros 20’, depois desapareceu) após boa combinação de Podence (tecnicista e irrequieto, ainda que por vezes lhe tenha faltado objectividade) com Esgaio (uma assistência e competente a defender, se bem que tenha chegado atrasado a alguns lances), que o cabo-verdiano finalizou com um remate rasteiro e cruzado. O Vitória reagiu bem e, de uma forma geral, manteve o controlo do jogo até ao fim. O Sporting perdeu o meio-campo, muito por culpa de um Slavchev com nítida falta de ritmo, de um Rosell algo escondido e de um Gauld pouco interventivo sem bola, ainda que a sua exibição tenha sido em crescendo. Ainda na primeira parte, ia colhendo os frutos quando pressionou o guarda-redes Douglas.

O Vitória esteve sempre muito organizado, utilizando os dois flancos e obrigando Marcelo a intervir algumas vezes (boa resposta do brasileiro ao jogo de Vizela; estranho seria se tudo corresse bem a um guarda-redes que só joga “quando o rei faz anos”). O Sporting, por seu turno, cometeu muitas faltas perto da sua área – aos 25’, já eram 7 infracções cometidas contra 0 do adversário. Depois do intervalo, os vimaranenses intensificaram a pressão e o sector intermédio leonino chegou a ser completamente engolido, o que levou Marco Silva a trocar o apático Slavchev por Wallyson (melhor com bola do que sem ela; esclarecido mas algo lento a soltar). Os visitados tiveram quase sempre mais posse de bola mas, tirando as ocasiões de Josué aos 55’ e de André aos 80’, também nunca criaram muito perigo. O Vitória foi perdendo gás e, depois de um fora-de-jogo muito mal tirado a Geraldes (exibição agradável, que mais uma vez prova que as análises feitas nos jogos de pré-época são muitas vezes precipitadas), o recém-entrado Dramé fechou a partida rematando colocado à entrada da área, com o adversário em contrapé.

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Ryan Gauld foi a figura da partida
Fonte: Site oficial do Sporting CP

Dado que o Sporting apresentou uma equipa completamente renovada, importa analisar mais ao pormenor os restantes intervenientes. Na defesa, Sarr voltou a provar, sobretudo no primeiro tempo, que não é jogador para o Sporting. As suas falhas ao nível de posicionamento, tempo de salto, cabeceamento e abordagem aos lances mostram que dificilmente algum dia será. A tentativa de corte de cabeça em que a bola lhe bate entre o braço e o ombro aos 66’ é apenas um exemplo das suas constantes péssimas intervenções. Contudo, boas notícias logo ao lado: grande exibição de Tobias Figueiredo! Sereno, bom na contenção e no tempo de corte, dificilmente não fará melhor do que Maurício caso o treinador aposte nele para a liga.

Mais à frente, Rosell não esteve mal mas também não colocou grande pressão em William Carvalho na luta pelo lugar. Slavchev pouco acrescentou e foi o primeiro a sair, e Tanaka esteve sempre desligado da equipa. Hadi Sacko entrou para o lugar de Podence mas, com a bola quase sempre no meio-campo leonino, nunca esteve em evidência nem protagonizou nenhum contra-ataque.

Com mais alguma sorte, o Vitória podia ter conseguido o empate. Contudo, o Sporting foi eficaz e teve mérito na gestão da vantagem. Este jogo provou que os vitorianos, apesar de estarem a fazer um grande campeonato com todo o mérito, não são nenhum bicho-papão, ao contrário do que a derrota por 0-3 para a liga podia parecer indicar. Os leões menos utilizados estiveram à altura e o ex-dirigente do Vitória que, a meio da semana, aconselhou desdenhosamente o Sporting a apresentar uma equipa melhor do que a da última vez, teve o seu desejo satisfeito. Cuidado com aquilo que se pede ao Pai Natal…

A Figura

Ryan Gauld – Capacidade de passe e outros pormenores técnicos bastante acima da média, assim como a velocidade de pensamento e de execução. Foi quase sempre ele que iniciou os (poucos) ataques Sportinguistas e, ainda na primeira parte, solicitou Podence no espaço com mestria. Também bate cantos e poderá ser bastante útil nesse capítulo. A julgar pela partida de hoje, em que fez por justificar mais oportunidades, servirá sobretudo para jogar no meio. A acompanhar com optimismo moderado. Menção honrosa para Tobias Figueiredo.

O Fora-de-Jogo

Junya Tanaka – Tirando um livre perigosíssimo – e como está o Sporting necessitado de quem cobre bolas paradas com sucesso! – foram 90 minutos cheios de nada. É certo que não se podem pedir mundos e fundos a um jogador que foi hoje titular pela primeira vez, mas terá de melhorar bastante para que tanto ele como o clube ultrapassem com êxito a ausência de Slimani. Naby Sarr também voltou a destacar-se pela negativa.

João V. Sousa
João V. Sousahttp://www.bolanarede.pt
O João Sousa anseia pelo dia em que os sportinguistas materializem o orgulho que têm no ecletismo do clube numa afluência massiva às modalidades. Porque, segundo ele, elas são uma parte importantíssima da identidade do clube. Deseja ardentemente a construção de um pavilhão e defende a aposta nos futebolistas da casa, enquadrados por 2 ou 3 jogadores de nível internacional que permitam lutar por títulos. Bate-se por um Sporting sério, organizado e vencedor.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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