Carta Aberta aos: adeptos de futebol

- Advertisement -

cartaaberta

Lembro-me de começar a ver futebol com o meu pai. Os jogos, tal como actualmente, decorriam maioritariamente à hora de jantar, dificultando a sua visualização, uma vez que a minha mãe não gostava de que a televisão fizesse parte do espaço e tempo dedicado às refeições. Era a única hora do dia em que estávamos todos juntos, dizia ela. No entanto, quando se tratava da transmissão de partidas importantes, era aberta a excepção e recorríamos à tábua de passar a ferro para que esta fizesse de suporte para a televisão que transportávamos da sala para a cozinha – devo dizer que ficava com um sorriso de orelha a orelha enquanto a minha mãe resmungava devido à desarrumação (“Fio p’ra cá, fio p’ra lá…”).

Por vezes, debatia-me ainda com outro problema: o jogo que eu queria ver não passava em canal aberto. Nessas ocasiões, comia o mais rapidamente possível para me dirigir ao café mais próximo de casa, na companhia do meu pai. Não vos sei dizer o porquê deste fascínio pelo desporto-rei, mas a verdade é que os meus olhos brilhavam e eu sentia-me cativada pelo ambiente envolvente, pelos cânticos dos adeptos, pelos jogadores, pelas tácticas, pelas fintas, pelas jogadas, pelos golos.

Confesso que tenho saudades deste tempo. Não por hoje, mais crescida, ter outras responsabilidades, mas pelo facto de, ao ser uma criança, ter a ingenuidade como minha melhor amiga. Diz-se que quando somos mais pequenos temos a capacidade de apreciar as coisas na sua forma mais pura, livre de estereótipos e imune à dificuldade e complexidade que é a vida em sociedade com claros objectivos financeiros. Acho que era desta forma que eu perspectivava o futebol. Limitava-me a observar os lances de génio que eram criados jogo após jogo pelos principais intervenientes no relvado e as conversas com aqueles que me rodeavam focavam-se no quão bem ou mal tinha jogado determinada equipa.

Hoje, mais crescida, sinto que me encontro mergulhada num mundo futebolístico em que o futebol em si perdeu prioridade. As discussões entre adeptos de futebol sobre o jogo propriamente dito são sufocadas por debates sobre fundos financeiros, valores de transferências, direitos de exclusividade televisiva, corrupções, casos de arbitragem, guerras entre presidentes, treinadores e jogadores. Se não concordam, parem para pensar: quando falam com os vossos amigos, familiares ou colegas, quais são os argumentos que utilizam para tentar justificar que o vosso clube é melhor?

O meu Benfica nunca me desilude. Dos três grandes, foi aquele que fez o melhor acordo com a NOS e isso demonstra a sua grandeza!

– Até te podes gabar desse feito mas é o meu Sporting quem continua no topo com o Jorge Jesus como treinador. Lembras-te dele?

– Sim, lembro-me dele. E do Carrillo, tu lembras-te?

– Ah, esse traidor… Muito pouco trabalhador. Trocou a equipa que é prejudicada todas as semanas para assinar por um clube que só com colinho consegue títulos.

– Muda o disco. Quantos penáltis vão pedir no próximo jogo?

Não sejam escravos dos interesses políticos e económicos. Não tratem o futebol como se de uma empresa fordista se tratasse. A corrupção – em todos os sectores da sociedade – vai sempre existir, tal como as batalhas fora do relvado. Cabe-nos a nós, como verdadeiros amantes de futebol, parar de alimentar, através das nossas palavras, as máquinas capitalistas sobre as quais nunca conseguiremos exercer nenhum controlo. Apoiem o clube que amam pelo espectáculo que ele produz dentro das quatro linhas e não por aquilo que consegue junto dos empresários ou dos meios televisivos. Sempre que possível juntem a família, aprendam os cânticos e encham os estádios. Discutam sobre se a melhor táctica é o 4x3x3 ou o 4x4x2, questionem-se acerca do motivo que conduz à eficácia da equipa catalã e comentem os rasgos individuais do Cristiano Ronaldo. Façam com que o futebol volte a ser a festa que vocês observavam quando eram crianças. Façam com que as crianças continuem a querer ver televisão à hora de jantar, mesmo que a mãe não concorde.

Foto de Capa: maisfutebol

Rita Latas
Rita Latashttp://www.bolanarede.pt
Atualmente a trabalhar na Sport TV, Rita Latas está no mundo do jornalismo desportivo há sete anos. O futebol foi a modalidade que a levou a ingressar na área, depois de 13 anos como jogadora federada

Subscreve!

Artigos Populares

Adana Demirspor afunda-se na Turquia e termina época com -54 pontos e 169 golos sofridos: eis o porquê

Clube turco acaba com um registo profundamente negativo que reflete uma época marcada por castigos e fragilidades competitivas.

Diogo Dalot após a vitória frente ao Liverpool: «Muito feliz pela qualificação para a Champions League»

Em declarações à sua assessoria de imprensa, Diogo Dalot refletiu sobre o triunfo do Manchester United diante do Liverpool.

Jaime Faria perde final do Challenger de Mauthausen após reviravolta

Jaime Faria saiu derrotado este domingo na final do Challenger de Mauthausen, na Áustria, depois de um duelo frente a Roman Safiullin.

Thun faz história e conquista o primeiro título na Suíça ao regressar à elite

O Thun sagrou-se campeão da Suíça pela primeira vez na sua história, num feito alcançado na época de regresso à primeira divisão.

PUB

Mais Artigos Populares

Começo demolidor acaba em desilusão | Famalicão 2-2 Benfica

O fulgor inicial do Benfica foi diluído numa saída de cabeça baixa, com um resultado que não só sabe a pouco, como abre portas a uma luta acesa com o Sporting por um lugar na Champions League.

Gil Vicente empata a zeros contra o Rio Ave e não aproveita tropeço do Famalicão na luta pelo 5º lugar

Não houve golos no empate entre o Rio Ave e o Gil Vicente. Gilistas não conseguiram apanhar o Famalicão na tabela.

Consagração sem travão na Luz | Benfica 3-1 Sporting

O Benfica entrou em campo com o Hexacampeonato já garantido. Não haverá, no final da época, assim tantas exibições memoráveis em que uma equipa com o título no bolso decida não puxar o 'travão de mão'.