Senhores Donos Disto Tudo,

Permitam-me começar com a definição de um conceito que todos adoram ver escrito, mas poucos cumprem verdadeiramente com o seu significado: Igualdade é a inexistência de desvios ou incongruências sob determinado ponto de vista, entre dois ou mais elementos comparados, sejam objetos, indivíduos, ideias, conceitos ou quaisquer coisas que permitam que seja feita uma comparação.

Igualdade. Igualdade é tudo aquilo que nunca existiu no futebol português, mas as decisões tomadas na sequência da evolução da pandemia Covid-19 revelam a incompetência dos dirigentes e a falta de capacidade e de coragem de quem rege o desporto rei em Portugal.

Fiquei perplexo ao assistir à reunião dos dirigentes dos três clubes mais representativos do futebol português com o Sr. Primeiro Ministro e com o Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, com o acompanhamento tardio do representante das Ligas Profissionais de Futebol Profissional, que numa primeira instância nem tinha sido chamado a algo tão importante. Que ninguém ouse citar regulamentos nem argumentos que “a maioria decidiu que seria assim”.

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Não são três presidentes de clubes que vão aferir o estado de todos os clubes da Primeira e Segunda Ligas e não são seguramente eles que vão delinear um plano de retoma às competições. Iniciei este ponto referindo que fiquei perplexo ao assistir a isto tudo, mas acrescento que não me surpreendeu. Não é de hoje que apenas três clubes são falados, debatidos e elevados a “donos disto tudo”. O que aconteceu nessa reunião foi apenas o representar de tudo o que tem acontecido no futebol português ao longo das últimas décadas e que é acentuado nos tempos modernos, com toda a globalização da comunicação e da necessidade de vender, acima de informar, e estar bem presente nos Mass Media.

O que a Liga Portugal fez foi separar as duas ligas que tutela em regimes de profissionais de “primeira” e profissionais de “segunda”. Se a Primeira Liga vai ser retomada, a Segunda Liga também teria de o ser. Quanto ao como, quando e onde, é algo que compete a quem manda e aos dirigentes que tanto recebem para mandar. Se o Euro 2004 serviu para algo, foi para dotar o país de infraestruturas para a prática do futebol. Praticamente todos os estádios da Primeira Liga estão aptos a receber jogos com a segurança que a pandemia exige, assim como há vários estádios da Segunda Liga e até de divisões abaixo com condições geográficas e estruturais para o fazer (exemplo do Estádio Municipal de Aveiro, do Estádio Municipal de Leiria ou do Estádio Algarve).

Nenhuma decisão é fácil nesta altura mas nunca nenhuma decisão deveria ter sido tomada de ânimo leve, sem qualquer respeito pelos clubes e fundamentalmente pelos jogadores e treinadores, que são a grande fonte de rendimento para todos esses dirigentes que se acham defensores de um futebol para todos.

90 jogos. 90 jogos serão disputados na Primeira Liga, em condições sobre as quais ainda se sabe muito pouco. Não houve espaço, na cabeça dos dirigentes da Federação Portuguesa de Futebol, para realizar seis ou sete jogos para definir, dentro do campo, quem subiria à Segunda Liga. Em apenas uma semana, era possível resolver o assunto. O que era tão simples tornou-se impossível.

Porquê? Porque é que o Campeonato de Portugal não tem a visibilidade de uma Primeira Liga? Porque que é que o Campeonato de Portugal não gera as receitas da Primeira Liga? A resposta a ambas as perguntas é “porque sim”, mas há um exercício importante que deve ser feito por cada um de nós: Será que num cenário em que SL Benfica, FC Porto e Sporting CP não existissem, a Primeira Liga seria retomada?

Fiquei estarrecido ao ver que quem manda no futebol português, num contexto difícil para a sociedade a nível global, tem uma preocupação acérrima em que a Primeira Liga de futebol termine dentro de campo, dando como terminadas as restantes como se ninguém existisse, como se ninguém tivesse direito a sequer contestar. O fundo criado em que cada clube da Segunda Liga recebe cerca de 180 mil euros para se sustentar é irrisório, porque os custos de um clube de futebol profissional vão muito para além desse valor, que simbolizam uns “trocos” que fazem cobro a apenas algumas despesas ou alguns salários.

A tentativa de calar os clubes com o dinheiro demonstra, não só a falta de cultura futebolística do nosso país em que o dinheiro é mais importante que um golo, como também uma atitude de atirar areia para os olhos das pessoas, fazendo-as esquecer da tremenda injustiça que está a ser feita.

Voltando ao tema do mérito desportivo e da falta de valor dada à Segunda Liga (falando do futebol profissional), a decisão da descida do CD Cova da Piedade e do Casa Pia AC levam-me a propor a realização de outro exercício mental, este até sugerido pelo próprio treinador dos piedenses João Alves: Será que se FC Porto B ou o SL Benfica B estivessem em posições de descida, esta decisão seria tomada na mesma?

Este circo tem uma repercussão a toda a escala no panorama do futebol nacional. Partamos para os campeonatos não profissionais. Pasmem-se os senhores que o argumento de mérito desportivo seja atribuído às duas equipas que tenham mais pontos num campeonato dividido em quatro séries nas quais oito equipas passariam à fase seguinte, tendo todas elas a mesma legitimidade de sonhar com o acesso às competições profissionais.

O mérito desportivo no Campeonato de Portugal nunca residiu na quantidade de pontos amealhados porque o seu formato competitivo visa sobretudo o apuramento para os playoffs, no qual os jogos são disputados por eliminatórias. Mais do que uma prova de regularidade, é uma prova de “mata-mata”. Para além disso, cada série tem a sua especificidade, existindo uma heterogeneidade gritante na competitividade de umas em relação a outras. Será que o FC Vizela faria tantos pontos se estivesse inserido na série C? Será que o SC Praiense, que liderava a sua série, não dominaria a série A? São questões de impossível resposta da mesma forma que esta decisão é completamente infundada. O futebol não é matemático.

O futebol é imprevisível, vive de momentos de forma, vive de contextos, vive acima de tudo de uma bola e 11 jogadores de cada lado. Não vive do poder de dirigentes que, com decisões destas, demonstram que a sua grande preocupação não era com o futebol mas sim em agradar a terceiros.

O que estão a fazer aos clubes do Campeonato de Portugal e aos clubes da Segunda Liga é um ato de traição que revela a nulidade do interesse na competitividade e no verdadeiro desenvolvimento do futebol. Algo que estava vincado noutras questões como a não centralização dos direitos televisivos para proteger uma operadora e três clubes ou a gritante diferença de tratamento de uns clubes em relação a outros exposta na Primeira Liga, revelou expressões ainda mais sombrias nos restantes escalões.

Na Primeira Liga tudo será resolvido dentro de campo. Seja na luta pelo título, seja na luta por vagas europeias, seja na luta pela manutenção. Na Segunda Liga, duas equipas desceram sem terem direito a lutar pela sua sobrevivência quando estavam 30 pontos em disputa da mesma forma que duas equipas subiram quando outras teriam ainda uma palavra a dizer. No Campeonato de Portugal, em quatro líderes, dois subiram, fazendo os outros questionarem-se se são menos líderes que eles. Este é o estado caótico do futebol português.

Num momento em que muito se fala de vacinas e medidas de contenção da propagação de um vírus, desejo que um dia exista uma vacina para o futebol português: uma vacina da justiça, da equidade de valores e tratamentos e, acima de tudo, que proteja os verdadeiros intervenientes: os jogadores, os treinadores, os adeptos. O futuro de muitos clubes, jogadores e funcionários está em risco. Será que os dirigentes da FPF e da LPFP vão sustentá-los com base no mérito desportivo?

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

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