Força da Tática: FC Porto x Sporting

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FC Porto e Sporting encontraram-se uma vez mais na cidade Invicta para um clássico que prometeu muito, mas que entregou pouco. Sendo um jogo decisivo para as contas do título, havia expectativa para perceber que rumo este jogo levaria e qual seria o seu fatídico desfecho. Sob olhar atento de águia sonhadora, Portugal viu Farioli e Rui Borges respeitarem-se durante grande parte do jogo e, embora a proatividade do treinador italiano tenha colhido frutos, o empate final acabou por ser um resultado justo.

Durante mais de uma hora de jogo, as balizas pareceram acessórios decorativos num relvado que teimava que aquela era a hora do banho. Foi um embate enrodilhado a meio-campo, onde os encaixes das duas equipas no miolo são chave para percebermos o que aconteceu.

O FC Porto jogou como habitualmente joga, na sua estrutura de 1x4x3x3, onde encontramos as dinâmicas de fora para dentro nos laterais e nos extremos, e o Sporting defendeu como habitualmente as equipas defendem o FC Porto; isto é, numa estrutura montada em 1x4x4x2, apresentando-se em bloco médio, onde Pedro Gonçalves e Luis Suárez procuravam condicionar as ações de Alan Varela, bloqueando as ligações entre o médio argentino e os defesas centrais. Ressalvar que foi um jogo injusto para Trincão, renegado para o corredor esquerdo, fora de posição, para que a equipa estivesse mais equilibrada defensivamente.

Habituado a enfrentar esta estrutura, os dragões tentaram ultrapassá-la através do princípio do terceiro homem: principalmente, através de Samu (como já se tornou habitual), para que este pudesse enquadrar Alan Varela, que receberia a bola já atrás da pressão leonina. Noutras instâncias, os médios portistas (com também habituais marcações homem a homem) realizavam movimentos circulares para baterem o seu marcador direto e poder enquadrar Alan Varela da mesma forma.

Ainda assim, mesmo quando o médio argentino conseguia receber a bola de frente para o jogo, decretando a entrada no bloco do Sporting, foram raras as vezes em que a equipa da casa conseguiu dar continuidade à jogada de forma a constituir perigo. O lado esquerdo portista foi sempre pouco criativo e qualquer pingo de criatividade surgiu sempre por Pepê e por Alberto Costa, acompanhados sempre de perto por Maxi Araújo e Trincão.

Morita e Froholdt
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

Do ponto de vista leonino, não houve grande vontade de correr riscos, atendendo a como Rui Borges montou a sua equipa e o treinador não beneficiou de um Pedro Gonçalves com condição física ainda fraca, Trincão fora de posição e Luis Suárez com jogo discreto. A entrada de Morita no onze titular explica-se pelo equilíbrio defensivo e pela capacidade do japonês de reter a bola e soltá-la com mais critério, diferente de João Simões, um médio com mais capacidade de progressão, mas que acelera o jogo.

Foram poucas as vezes onde o Sporting procurou construir desde trás, conseguiu circular a bola e não se deixar afetar com a pressão alta do FC Porto (diferente da equipa visitante, o FC Porto pressionou alto e foi agressivo enquanto tal). No entanto, o Sporting não batia a pressão do FC Porto como quem sai em transição, mas apenas circulava por ela, conseguindo reter a bola em segurança, mas com dificuldade em ligar setores. Aliás, os melhores momentos do Sporting na primeira parte foram em transições, depois de esperar o erro adversário, mas foi errático na definição das jogadas.

Samu Aghehowa FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

O FC Porto viu-se a ganhar numa jogada de insistência, mas que começou no banco. Farioli foi proativo e as entradas de Rodrigo Mora e Seko Fofana ajudaram a equipa. Por vezes, vimos Alan Varela a lateralizar-se e juntar-se aos defesas centrais em construção, deixando a sua posição habitual para Fofana- esta dinâmica não é nova nos dragões (excetuando a entrada de Fofana, que fez a sua estreia), mas é uma solução a ter em conta, uma vez que confere vantagem numérica ao FC Porto nessa zona do terreno (3×2) e cria dúvida nos jogadores adversários.

Rodrigo Mora foi demais importante porque trouxe o que faltava ao FC Porto depois de ultrapassar a primeira fase de pressão do Sporting: pausa e critério. E foi o que aconteceu no golo inaugural: o FC Porto progride pelo lado direito, recorrendo a um automatismo já conhecido (extremo baixa junto à linha e o lateral ataca o espaço por dentro). Quando a bola chega a Rodrigo Mora, este não a coloca de qualquer maneira na área, mas espera pela chegada dos companheiros de equipa, e coloca-a no coração da área quando a sua equipa tem vantagem numérica. É um golo que pode ser descrito como uma jogada de insistência ou, por outros, como uma jogada de sorte, mas essa sorte e insistência só se deu devido ao que aconteceu antes.

Com a necessidade de pontuar e aproveitando que o FC Porto baixou linhas para uma linha de cinco, Rui Borges alterou as peças no tabuleiro e também as suas alterações tiveram efeito positivo: com as entradas de Luis Guilherme e Faye, Trincão regressou à sua posição habitual, com maior liberdade de movimentos e Daniel Bragança traz uma maior capacidade de ligação.

Na melhor versão do Sporting, assumindo-se em 1x3x2x5 com bola no meio-campo contrário (Fresneda a inverter para dentro, Maxi Araújo a percorrer o corredor esquerdo), o Sporting igualou a linha de cinco portista com cinco homens e foi pressionando, criando mais situações de perigo em 10 minutos do que havia criado nos restantes 80 minutos. Com bola, claramente numa faceta mais confortável, também foi capaz de se colocar numa posição benéfica e ganhar um penalty que garantiu o empate.

Francesco Farioli FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

Não foi um clássico de que nos lembraremos facilmente daqui a uns anos, foi sim um jogo preso, onde nenhuma equipa conseguiu encontrar imaginação para ferir realmente a outra e as soluções táticas estavam no banco. Empatam FC Porto e Sporting, mantém-se viva a luta pelo título.

Rui Gonçalves
Rui Gonçalves
Licenciado em Sociologia, o Rui Gonçalves aborda o futebol dentro e fora das quatro linhas. Através de um olhar crítico, escreve sobre tática, gestão desportiva e os seus impactos individuais e sociais.

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