Hoje, no mais competitivo dos campeonatos europeus, Premier League, salta a vista a estranha classificação do Manchester United FC, o equilíbrio no topo com um trio de líderes e o sexto lugar do modesto AFC Bournemouth.

Outro exercício que não podemos deixar de fazer, quando olhamos para a tabela, é procurar a classificação dos clubes recentemente promovidos e aí encontramos uma boa surpresa. Aliás, mais do que uma “boa surpresa”, é a confirmação da qualidade do Wolverhampton Wanderers FC que dominou o EFL Championship na última época. Um domínio com reflexos este ano, onde as equipas que também subiram, Fulham FC no décimo sétimo e Cardiff City FC no vigésimo lugar, têm entre elas menos de metade dos pontos do Wolves.

O que explica a excelente prestação da equipa mais portuguesa de Inglaterra? Que formação é esta, comandada por Nuno Espírito Santo (NES), que Pep Guardiola e José Mourinho não conseguiram derrotar?

Equipa e Formação

NES continua com o 3-4-3 que o levou ao topo do Championship na última época. Uma formação que com as entradas de Rui Patrício, João Moutinho, Raúl Jiménez e Jonny viu a sua qualidade aumentar.

Na primeira linha, está um dos segredos mais … mal-escondidos da boa campanha dos Wolves: Estabilidade. Conor Coady, Ryan Bennett e Willy Boly jogaram todos os minutos da Premier League até agora. Aliás, é uma estabilidade com esteroides, já que a dupla de médios que joga na frente desta linha de três homens, Rúben Neves e João Moutinho, esteve presente nos oito jogos disputados. Só não podemos dizer que são totalistas porque Moutinho foi substituído aos 80 minutos em Old Trafford.

Rui Patricio; Boly; Coady; Bennett; Jonny; Doherty; Moutinho; Neves; Jota; Jiménez; Hélder Costa.

Construção: Uma história que começa na linha de três

Fonte: TSN

Sempre que possível o Wolverhampton procura usar o seu trio de centrais para iniciar a construção desde o seu meio campo defensivo. Circulando a bola entre eles, procuram abrir espaços na estrutura adversária, beneficiado da largura dada pelos alas laterais Jonny e Doherty.

O jogador chave neste primeiro momento é Conor Coady. Apresenta uma qualidade de passe de média e longa distância fora do comum para um defesa central, beneficiado do seu passado como médio defensivo. Estas qualidades, são potencializadas ao máximo por NES, na forma como o treinador português usa Coady para variar o centro do jogo, com os seus passes diagonais.

A perder em Old Trafford? No Pressure.

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Vemos muitos centrais a tentar fazer este tipo de passe, mas muitas vezes acabam por trazer mais prejuízo à equipa do benefício. Situações onde o passe do central torna difícil o controlo da bola por quem recebe, ou onde esse mesmo passe é feito demasiado em balão, dando tempo ao adversário para rodar e ajustar o bloco, não acontecem com Coady.

Nesta matriz comparativa vemos como Coady não fica nada a perder para nomes mais conhecidos. Na realidade inglesa, Stones e Van Dijk realizam passes mais curtos em comparação com Coady, mas o central dos Wolves não vê a % de passes completos cair significativamente, apesar do risco maior desses passes. Depois se compararmos com Bonucci, na minha opinião o central mais forte no capítulo do passe a nível mundial, Coady pode ficar orgulhoso.

Fonte: Squawka

Ao lado de Coady, Boly e Bennett. Centrais que não apresentam a qualidade de passe do Capitão, mas que permitem aos Wolfes circular a bola ao longo da sua linha defensiva com tranquilidade e confiança.

Boly, está a ser uma das grandes surpresas. Apesar da sua brutal e imponente estatura física, a bola não é um elemento estranho para o francês. Se tiver espaço na sua frente, para invadir o meio campo adversário, Boly avança sem receio. Esta confiança e habilidade para ter a bola nos pés, é chave na fase de construção, uma vez que permite a criação de situações de superioridade numérica dentro do meio campo adversário.

Depois de invadir o meio campo adversário e criar essas situações de superioridade, vemos Boly a procurar Jota (Entre linhas) ou Jonny, que ataca o espaço nas costas da linha defensiva adversária, beneficiado do movimento do próprio Jota.

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Meio campo: Não conseguem lidar com os Tugas

Depois de na última época NES ter convencido Rúben Neves a vestir a camisola dos Wolves, neste Verão trouxe para o Molineux Stadium, outro português: João Moutinho. Criou assim não só uma dupla forte para aquilo que é o presente da equipa, mas as condições perfeitas para Rúben Neves emergir como: o homem mais desejado de Inglaterra.

O sucesso dos Wolfes nos confrontos com Manchester City FC e Manchester United FC, dificilmente era possível sem a presença de Moutinho. O Internacional Português garante à equipa estabilidade na fase defensiva, mas é a forma como decide nos momentos de transição que salta a vista.

Aqui vemos um exemplo, frente ao Manchester City, onde Moutinho agride o adversário através do passe, no momento de transição, penalizado o erro do adversário. Moutinho têm sido fundamental na forma como a equipa executa a estratégia que NES traz para cada jogo e como gere os momentos do jogo.

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Ruben Neves e Moutinho, oferecem (à semelhança da já mencionada linha defensiva) grande estabilidade em posse. São fundamentais na ligação aos jogadores que atuam nos corredores, também usando o passe de média e longa distância, e na forma como se envolvem com esses jogadores, cirando vários triângulos junto aos corredores para penetrar no último terço.

Como é exemplo esta bela combinação, a um toque, que permite ao ala lateral uma situação interessante no último terço. Boly avança sem medo e realiza o passe vertical para Jota, que ao baixar joga no apoio frontal de Rúben Neves, com o ex-Porto (de primeira) a isolar Jonny.

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Linha Ofensiva: Um Mexicano que sai de Portugal, mas Portugal não sai de perto dele

Na frente NES têm apostado em Diogo Jota sobre a esquerda, Hélder Costa sobre a direita e Jiménez na posição de ponta de lança. Apesar de esses serem os nomes em que o treinador têm apostado neste inicio de temporada, também Adama Traoré, Léo Bonatini e Ivan Cavaleiro surgem como opções ofensivas interessantes.

Jiménez é a definição de mobilidade, que permite à equipa a criação de situações de superioridade numérica em várias zonas do campo e/ou abrir espaços para Jota e Hélder Costa demonstrarem a sua qualidade individual. Em baixo, vemos os toques que Jiménez teve na bola no confronto frente ao Southampton FC. É mobilidade no seu nível máximo.

Fonte: WhoScored

Jota “casa” muito bem com Jiménez, e faz muitas vezes os movimentos opostos a Jiménez, aproveitando o espaço no corredor central, criados pela mobilidade do mexicano. É nas zonas centrais que Jota é mais decisivo, ao contrário de Hélder Costa, pela sua capacidade de resistência à pressão que lhe permite atua dentro de estruturas mais compactas onde existe menos espaço e é necessário decidir mais rápido.

Hélder Costa, assim como Ivan, é mais forte partindo do corredor lateral. Uma situação recorrente é a bola ser trabalhada do lado esquerdo, para depois, com recurso à proximidade de Ruben Neves, explorar situações de 1vs1 de Hélder Costa contra o adversário.

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Falar também de Adama Traoré, que pode ser um jogador fundamental no futuro próximo. Faz-me lembrar um running back da NFL, pelo seu trabalho de pés e a forma como ultrapassa os adversários.

 

Foto de Capa: Wolverhampton Wanderers FC

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