Voltamos a 2007. Aterra, no aeroporto de Lisboa, Óscar Cardozo, a mais recente contratação do SL Benfica.

O gigante (1.93m) avançado paraguaio apresentou-se à frente de um batalhão de jornalistas, com um estilo mais similar ao de um segurança de discoteca do que propriamente a um futebolista. Totalmente vestido de preto, com óculos de sol e com uma atitude de quem não se preocupava muito com os jornalistas.

O andar desajeitado e a elevadíssima estatura preocupavam os puristas do futebol “espetáculo”. Cardozo chegava do campeonato argentino (Newell’s Old Boys), onde era reconhecido como um matador e finalizador de área.

O rótulo não saiu barato aos cofres encarnados. O SL Benfica pagou perto de 12 milhões de euros para adquirir o passe do paraguaio. As primeiras palavras de Cardozo foram muito objetivas: “Sirvam-me bem que eu resolvo na área”. E resolvia mesmo.

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O paraguaio chegou à Luz numa altura difícil para o clube encarnado. O panorama do futebol nacional era dominado pelo FC Porto, a hegemonia azul e branca não parecia ter fim à vista.

Na primeira época do “Tacuara” em Portugal, o SL Benfica terminaria o campeonato num terrível quarto lugar, atrás de FC Porto, Sporting CP e Vitória SC. A segunda temporada teve um fim semelhante, desta vez os encarnados terminaram no terceiro lugar, atrás dos dois eternos rivais.

Os golos do paraguaio iam convencendo parcialmente as bancadas do Estádio da Luz, mas o seu comportamento dentro de campo atraía muitas críticas. O desejo dos adeptos em assistir a um futebol de pressão, de ataques rápidos, de fintas vertiginosas contrastava com a lentidão, falta de esforço e a primeira impressão de “tosco” (com muitas aspas) que o avançado transmitia.

Cardozo era o que era. Tacuara, a sua alcunha, é em castelhano uma espécie de bambu. O bambu é uma planta simples, grande, resistente, muito flexível, mas que é, no entanto, muito forte e de excelente qualidade. Cardozo era isso mesmo.

Com a chegada de Jorge Jesus, o rendimento do internacional paraguaio disparou. Foi a melhor época de Cardozo no Benfica, época onde atingiu uns impressionantes 38 golos.

Cardozo sempre foi sinónimo de golo
Fonte: SL Benfica

Apesar do sucesso dos encarnados e das boas prestações de Cardozo, o paraguaio continuava a ser “patinho feio” da equipa. Era bastante comum ver o jogador a ser assobiado e aplaudido de pé no mesmo jogo. Raro era o benfiquista que apenas gostasse de Cardozo, a maioria ou idolatrava ou odiava o avançado. Discussões sobre o seu rendimento era o que mais abundava nas bancadas do Estádio da Luz.

Apesar da sua elevada estatura e das “dificuldades” de movimentação, Cardozo era um jogador de uma classe absurda. O golo em Leverkusen, onde com um toque sublime tira da frente o defesa e de seguida pica a bola por cima do guarda redes, é expoente máximo da sua qualidade.

Cardozo era isto mesmo. A capacidade que tinha para fazer tanto com tão poucos toques na bola, era absolutamente impressionante. Exibições lendárias como o hat-trick frente ao Sporting CP ou o bis frente ao Fenerbahçe SK imortalizarm a sua qualidade enquanto marcador de golos (os 13 golos apontados ao Sporting CP também ajudaram certamente).

Durante um jogo coletivamente mau, Cardozo aparecia como uma luz ao fundo do túnel. Mesmo estando completamente “fora do jogo” o paraguaio tocava uma vez na bola: e fazia golo.

Quase como um ilusionista, Cardozo transformava os assobios em aplausos e gritos de golo, a tristeza e raiva em alegria.

Cardozo era sinonimo de golo. 22, 17, 38, 24, 28, 33 e 11. Foram estes os golos de Cardozo nas sete épocas em que esteve ao serviço do Sport Lisboa e Benfica. Estes números foram mais que suficientes para “pulverizar” o recorde de Mats Magnunsson como o melhor marcador estrangeiro do SL Benfica (Cardozo ultrapassou o sueco logo em 2011).

Todos os anos chegam e partem jogadores de enorme qualidade a Portugal, mas creio que nenhum avançado moderno provocou tanto medo aos adversários. Cardozo teve a longevidade que Falcão não teve em Portugal. Cardozo era decisivo nos grandes jogos, como muitas vezes Jonas não era. Não teve as lesões graves de Jackson Martinez. Teve o palmarés que Liedson nunca conseguiu alcançar.

O Tacuara era, como proclamavam os adeptos encarnados, perigoso. O paraguaio foi um dos grandes ídolos de uma geração, que se obrigava a jogar nos recreios com o seu (maioritariamente tosco) pé esquerdo para imitar as proezas do gigante.

Cardozo foi um dos jogadores que mais dividiu a massa associativa do SL Benfica. Contudo será sempre um dos nomes marcantes na grande história dos encarnados. 173 golos em 292 jogos. Dois campeonatos nacionais, cinco Taças da Liga e uma Taça de Portugal.

Artigo revisto por Diogo Teixeira

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