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Sábado, 23 de Junho de 1984, estádio do Velódrome, em Marselha. Ali se jogou o França vs Portugal referente às meias-finais do Europeu de Futebol de 1984, que infelizmente terminou com um triunfo gaulês. Mas na retina ficou mais uma exibição deslumbrante de um tal Fernando Chalana, homem que com uma farta cabeleira e com um bigode inconfundível passeou classe pelos relvados naquela fase final. Tanta finta, tanto nó cego, tanto sprint, tanta jogada de encantar. O “Pequeno Genial”, o “Chalanix”, entre outras tantas alcunhas, fez do Euro 84 o torneio da sua vida, o seu momento mais mágico, o auge da sua carreira.

Mas falar sobre este astro é falar de muito mais do que de uma fase final de uma grande competição. Foi no Benfica que se exibiu a um nível estratosférico durante várias épocas, sendo sempre um dos meninos queridos do terceiro anel. Mas como não seria? Em idade júnior, mais precisamente na temporada de 1975/1976, já jogava numa equipa soberba do Benfica, que contava com atletas como Manuel Bento, Toni, Shéu, Vítor Martins, Vítor Baptista, Jordão ou Nené. Tanta, mas tanta assistência que este homem deu para golo; tanta finta diabólica, tanto carisma.

Tal como muitos outros jogadores da altura, foi na Margem Sul, mais concretamente no Barreiro, que Chalana cresceu para o futebol. Logo nas camadas jovens este prodígio se foi evidenciando, ultrapassando os seus adversários de todas as formas possíveis. Daí até chegar ao Benfica foi um ápice, tendo-se estreado pelo clube encarnado no dia 6 de Março de 1976. Ainda nem tinha 18 anos e já alinhava pela selecção nacional, o que diz bem a valia deste futebolista. Era quase como que um jogador de rua, espécie cada vez mais em extinção no futebol dos nossos dias; era capaz de ludibriar um adversário dentro de uma cabina telefónica, partia sempre sem medo para qualquer que fosse a jogada.

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Fez do Euro 84 o torneio da sua vida
Fonte: vhoje.blogspot.com

Tenho 25 anos, logo nunca o vi jogar. Mas sempre ouvi o meu pai falar sobre este portento futebolístico. Claro que fui ganhando curiosidade, e como tal comecei a devorar vídeos respeitantes a jogos em que Fernando Chalana esteve presente. E pronto, a delícia foi imediata! Tanto jogador que deve ter ficado com problemas renais naqueles finais de anos 70, princípios dos anos 80. O Benfica começava praticamente a vencer nas partidas nacionais, tendo Chalana a jogar de início. Lá está, tempos em que o amor à camisola ainda era uma realidade, em que a mística ainda assumia uma importância enorme.

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E a verdade é que Fernando Chalana protagonizou uma das primeiras grandes transferências do futebol português. Depois do tal Euro 84 em que deixou mais de meia França de queixo caído, o super Bordéus da altura apressou-se a comprá-lo, tendo-o adquirido por uns exorbitantes, na altura, 220 mil contos! Para atentar bem em como esse valor naquele tempo era astronómico, basta dizer que com esta venda Fernando Martins, então presidente do Benfica, fechou as obras no terceiro anel do estádio.

Infelizmente as coisas não correram pelo melhor a Chalana no clube girondino. Muita lesão, problemas com o departamento médico da equipa francesa: em suma, uma passagem sem honra nem glória por aquele país. Ele não merecia isso, o futebol não merecia isso, que decepção. Logo ele voltou para o clube do seu coração, o Sport Lisboa e Benfica, para gáudio de uma massa adepta completamente devota a este milagreiro dos relvados. Mas ele já não era o mesmo, o seu corpo já não era o mesmo, a sua disponibilidade física já não era a mesma, até o Benfica já não era o mesmo. Fez parte das equipas benfiquistas que atingiram as duas finais europeias da Taça dos Campeões, em 1988 e 1990, mas quase já nem jogava. Mas estava lá, era um nome que arrepiava só de dizer.

Em suma, Fernando Chalana é, indiscutivelmente, um dos melhores jogadores portugueses de sempre, e foi um dos melhores do mundo no seu tempo. Aqui estamos a falar do jogador, não do treinador que não tinha o dom da palavra, não do homem que lançou Miguel como lateral-direito, não do homem que quase esteve na miséria depois do final da carreira (e como contribuiu para isso a sua esposa de anos e anos, a polémica Anabela).

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Pé direito, pé esquerdo, era aquilo que quisessem
Fonte: serbenfiquista.com

Só posso agradecer a Fernando Chalana. À sua conta o meu lindo clube ganhou muita coisa, à sua conta eram aos milhares os adeptos que iam à catedral da Luz, à sua conta Portugal apaixonou todo um velho continente na fase final de um Europeu – quando na altura o nosso país quase que nem entrava para o totobola em matéria de selecção nacional. Ele é simples, não é? Sim, é. O seu aspecto físico roçava o hilariante, não roçava? Sim, roçava. Mas, meu Deus, este homem talvez não tenha sido um ser humano enquanto jogador, mas antes um ET.

Um avé para si, “Pequeno Genial”. E aqui me despeço com as palavras do sapiente Mário Wilson, o treinador que o lançou na equipa principal do Benfica: “ele é futebol da cabeça aos pés. Sim, ele é todo futebol. É senhor de intuição extraordinária para jogar à bola. Numa equipa com Chalana é simples resolver qualquer problema, porque ele é um rapaz cheio de futebol. Um rapaz capaz de solucionar qualquer problema. Além disso, não se envaidece. Por isso, Chalana é um craque”.

Ah, e perguntem ao Paulo Futre o que é que ele fazia no convés do barco quando regressava a seguir aos treinos para o Montijo…