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“Paixão pelo jogo, paixão pelo treino e paixão pela profissão”. Na sua entrevista de 2012 ao Bola na Rede, Aurélio Pereira, olheiro do Sporting que descobriu Cristiano Ronaldo, apontou estas três características como indispensáveis para que um futebolista, por mais talentoso que seja, possa vingar no futebol. Ora, não é preciso estar muito atento a CR7 para saber que ele reúne essas qualidades – em níveis por vezes até exagerados, pelo menos aos olhos do adepto comum.

No que diz respeito ao treino, sucedem-se os treinadores e colegas que dizem sempre o mesmo: Ronaldo é o primeiro a chegar e o último a sair da sessão, trabalhando sempre de forma incansável. O apreço pela profissão vê-se no respeito que o português tem pelo desporto que lhe mudou a vida: uma boa dose de sorte é indispensável, mas o brio profissional tem-no ajudado a permanecer no topo durante todo este tempo. Já a paixão de Ronaldo pelo jogo em si é o factor mais visível a qualquer adepto e, simultaneamente, aquele que mais se confunde com uma obsessão. São conhecidos os episódios em que CR7 foi pouco exuberante nos festejos após um golo de um companheiro, assim como também é nítida a sua avidez pela baliza mesmo que a sua equipa já esteja a golear. Se puder fazer quatro golos, Ronaldo vai ficar chateado caso marque apenas três. Independentemente de se gostar ou não desse traço de personalidade, a verdade é que também é a ambição desmedida que permite fazer com que Ronaldo, Mourinho ou tantos outros se superem a si próprios.

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Nada acontece por acaso – a seriedade e intensidade no treino são duas das razões para o sucesso de CR7
Fonte: Facebook oficial de Cristiano Ronaldo

Admirar Cristiano Ronaldo em 2016 é natural. Tão natural como alguém gostar de ir à praia ou de beber imperiais e comer tremoços com os amigos. Os poucos que disserem que não gostam são olhados de lado e rapidamente questionados acerca dos seus motivos – quase sempre ridicularizados porque, como qualquer pessoa normal sabe, ir à praia ou beber imperiais é bom. Não se pode dizer, portanto, que dedicar um texto nesta rubrica a Cristiano Ronaldo seja algo de extraordinário. Mas o nº 7 do Real Madrid e da Selecção merece figurar neste espaço. Ele e Messi – é impossível não trazer o argentino para este texto, porque não o fazer seria negar a realidade futebolística da última década – são dois raros exemplos de futebolistas que atingiram rápida e inequivocamente o estatuto de lendas, sendo colocados de forma unânime não apenas no topo dos futebolistas da sua geração, mas também no de toda a História da modalidade. Tanto um como o outro conseguiram-no e é por isso que, mais do que comparados, devem ser admirados.

Num ponto não posso, contudo, deixar de fazer uma pequena comparação entre Ronaldo e Messi ou, se quisermos, um pequeno reparo a algo que já se tornou hábito dizer-se acerca de ambos: “o problema de Ronaldo é Messi”, disse um dia Jürgen Klopp, e imitamos nós com cada vez maior frequência. O alemão afirmou-o com a melhor das intenções, não duvido, e por entre elogios ao craque português. Não estou também a pôr em causa a veracidade da afirmação. Mas a verdade é que tanto pode dizer-se isto de Ronaldo como de Messi. Ou seja, se o português não é o melhor jogador da última década de forma absolutamente inequívoca, isso deve-se ao 10 do Barça; mas, de igual modo, o argentino só não coleccionou oito Bolas de Ouro consecutivas porque existe Ronaldo. O extremo português também impediu o rival do Barcelona de ir ainda mais além no que toca a distinções individuais – e isso é assinalável, porque só um monstro com uma regularidade assombrosa conseguiria fazer Messi abrandar. Esta competição saudável taco-a-taco, por muito que ambos digam que não pensam um no outro, também faz Ronaldo e Messi quererem ser melhores. E o futebol agradece.

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Ronaldo precisou de pouco mais de 6 épocas para destronar Raúl e tornar-se no melhor marcador de sempre do Real
Fonte: Facebook oficial de Cristiano Ronaldo

Enquanto Sportinguista, a minha admiração por Ronaldo ganha uma outra dimensão – ainda que não tenha ilusões quanto a um regresso futuro do craque a Alvalade, porque o mundo dele é de uma galáxia material e mediática muito distante da realidade portuguesa. Contudo, recordarei para sempre o seu aparecimento repentino na equipa principal leonina, juntando-se a Quaresma e emprestando um nível elevadíssimo de magia e repentismo aos corredores laterais do Sporting, que mascarou um pouco uma péssima temporada a nível colectivo. Testemunho com afecto e fervor os sucessos de um jogador que vi dar os primeiros passos no meu clube. As minhas tardes passadas a ver jogos do Manchester United tornaram-se por isso frequentes, assim como os golos de Ronaldo, cada vez em maior número.

Em Madrid, menos “artista” mas mais letal, o extremo ridicularizou a lógica dos números: até então, o recorde de golos marcados no campeonato espanhol estava nos 38, Ronaldo estabeleceu a marca em 41 (Messi viria depois a conseguir 50, num ano em que CR7 fez 46 e, no ano passado, o português marcou por 48 vezes – uma escalada de golos sem precedentes!). Colocou também o recorde de golos numa edição da Liga dos Campeões em incríveis 17 remates certeiros e precisou de pouco mais de 6 épocas em Madrid para se tornar no melhor marcador de sempre do Real, com 340 golos até ao momento – Raúl, que detinha o anterior recorde (323 tentos) necessitou de 16 temporadas para atingir tais números. Contudo, o melhor elogio que se pode fazer a Cristiano Ronaldo é notar que ele obrigou outro mito do futebol, o brasileiro Ronaldo, a passar a ser chamado “Fenómeno” já depois do fim da sua carreira, como forma de distinção entre duas lendas. Não existe maior prova do que esta para demonstrar que Cristiano Ronaldo alcançou definitivamente o céu do desporto-rei.

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Em menos de 7 anos, CR7 pulverizou os recordes de golos marcados do Real Madrid
Fonte: Wikipedia

Dito isto, não gostaria de terminar este texto sem procurar desconstruir, em poucas palavras, alguns mitos que se foram criando acerca de Cristiano Ronaldo:

1) “Messi é talento e Ronaldo é trabalho”: Se Ronaldo fosse só produto do seu trabalho, isso implicaria admitir que qualquer miúdo que passasse tanto tempo como ele no campo de treinos e no ginásio teria hipóteses de, um dia, poder tornar-se no melhor jogador do mundo. Ora, como é óbvio, isto não é verdade. Do mesmo modo, se tivesse apenas talento e nada mais, Messi ter-se-ia perdido rapidamente, tal como aconteceu a milhares de outros miúdos a quem não faltava qualidade. A verdade é que ambos os astros são uma óptima simbiose entre o talento e a tal paixão pelo jogo, pelo treino e pela profissão de que falava Aurélio Pereira. A seriedade com que os dois encaram a profissão, bem como a procura da perfeição no seu jogo, faz com que Ronaldo e Messi sejam exemplos ímpares de uma conjugação perfeita entre talento e trabalho.

2) “Ronaldo só marca contra as equipas fracas”: Por definição, uma equipa fraca é mais vulnerável do que uma equipa forte, estando por isso mais propensa a que as suas defesas sejam quebradas. Estranho seria existir um jogador que apontasse constantemente hat-tricks contra os “colossos” e não se fizesse notar contra equipas de menores dimensões. No entanto, dizer que Ronaldo só coloca o seu nome na lista de marcadores frente aos adversários mais fáceis não é, pura e simplesmente, verdade. No fim de Setembro de 2015, a Sky Sports divulgou a lista das maiores vítimas de CR7 desde que está em Madrid: o Barcelona e o Atlético, os dois principais rivais do Real, estão empatados na terceira posição do ranking das equipas que sofreram mais golos do português, com 15 cada. A lista é encabeçada pelo Sevilha (21 golos) que, não sendo uma equipa ao nível das outras, tem-se afirmado como um dos melhores emblemas espanhóis da última década. O Getafe (18 golos) vem em segundo.

3) Ronaldo só marca golos de penálti e de ‘encostar’”: CR7 marca bastantes golos de penálti, sim. Foram  10 em 48 na última edição da liga espanhola, aos quais se somaram ainda outras 3 penalidades na Liga dos Campeões. Curiosamente, uma vez que 5 dos 43 golos de Messi nesse campeonato também foram de grande penalidade, facilmente se conclui que, excluindo os castigos máximos, ambos os astros marcaram os mesmos 38 golos. Contudo, se recuarmos outra época, notamos que Ronaldo e Messi converteram exactamente o mesmo número de penáltis no campeonato e Champions: 6 na primeira competição, 2 na segunda. A alimentar este mito acresce o facto de o aproveitamento de penáltis por parte de CR7 ser maior do que o de Messi, dando ideia de uma clivagem maior do que a que existe realmente.

Sobre os golos “de encostar”, embora tanto Ronaldo como Messi tenham começado as suas carreiras como extremos, nos últimos anos o primeiro tem-se tornado sobretudo um finalizador, ao passo o segundo baixa cada vez mais no terreno para ir buscar jogo e fugir às marcações. Assim sendo, é natural que CR7 seja quem os colegas procuram para concluir as jogadas. De qualquer das formas, estamos a esquecer-nos de uma coisa: os golos valem todos o mesmo. E, nesse particular, há poucos jogadores melhores do que Cristiano Ronaldo na história do futebol. Juntamente com Messi, Ronaldo é o grande responsável por nós, adeptos, termos passado a considerar “normal” que um futebolista tenha mais golos marcados do que jogos disputados. E isso é notável, tendo em conta que a melhor época da carreira do Ronaldo “Fenómeno” foram 37 jogos e 34 golos, e a de Thierry Henry foram 37 jogos e 30 golos. Como já tive oportunidade de dizer, não foram os craques antigos que passaram a ser maus; Ronaldo e Messi é que são de outro planeta.

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Ao contrário do que se diz, Ronaldo não marca só a equipas pequenas
Fonte: Sky Sports (dados de Setembro de 2015)

Na já mencionada entrevista que concedeu ao nosso site, Aurélio Pereira disse que começou a suspeitar que Ronaldo seria um caso sério logo nos primeiros tempos do madeirense com o leão ao peito. Num treino, o pequeno Ronaldo estava a ser marcado em cima antes de um lançamento lateral e, “apesar de ser um ano mais novo do que esse adversário, voltou-se para trás e disse-lhe: ‘ó miúdo, tem calma!’. O à-vontade de Ronaldo em campo, bem como o facto de não ter medo de assumir o jogo nem de errar são, como se vê, características praticamente inatas nele. Como tal, somadas a uma capacidade de trabalho e talento sobre-humanos, resultaram num dos melhores e mais completos futebolistas que o mundo já viu, conjugando velocidade, drible, remate com os dois pés, remate de cabeça, inteligência, capacidade de reacção e características físicas quase imbatíveis.

Se, como também disse Aurélio Pereira, é verdade que “entre o sucesso e o insucesso muitas vezes está um cabelo”, não é menos verdade que, no que dependia apenas de si, Cristiano Ronaldo fez sempre tudo para chegar ao actual patamar. Quando CR7 começou a carreira, o Olimpo do futebol era formado por Pelé e Maradona; quando se retirar, o imaginário dos “melhores de sempre” inclui-lo-á também a ele, assim como o seu rival argentino do Barcelona. Por ter conseguido reconfigurar desta forma o panorama do futebol mundial, Ronaldo merece este texto de louvor e muito mais. No seu horizonte estará, seguramente, conseguir vencer a breve trecho os títulos colectivos que o Real Madrid até agora não lhe soube dar. E ele irá, como até aqui, disputar cada jogo como se fosse o primeiro da carreira e precisasse de se mostrar ao treinador para ganhar um lugar na equipa. É assim Cristiano Ronaldo, um competidor de primeira água e um vencedor como há poucos no mundo. É um enorme prazer poder vê-lo jogar.

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