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A primeira vez que vi Dennis Bergkamp jogar foi numa antiga cassete do meu pai. Era muito novo na altura; antes mesmo de ter computador ou acesso à internet, tinha já dentro de mim o dito “bichinho do futebol”. A cassete era uma daquelas antigas, uma compilação dos melhores momentos, golos e jogadas dos Mundiais e Euros até então (e que saudades desses vídeos, ao invés dos clips de baixa qualidade e músicas de fundo manhosas de hoje em dia). Não me lembro contra quem foi – não consegui encontrar o vídeo no Youtube – mas acredito que tenha sido marcado na altura do Euro de 1992 – Van Basten, Gullit e um “jovem avançado”, jogavam todos na mesma equipa. Desde esse momento que posso afirmar que Dennis Bergkamp foi, provavelmente, o jogador que mais gostei de ver jogar até aos dias de hoje.

Dennis Bergkamp – lenda e símbolo do Arsenal / Fonte: www.telegraph.co.uk
Dennis Bergkamp – lenda e símbolo do Arsenal
Fonte: The Telegraph

Agora é a parte em que argumento o porquê da minha escolha. Não o vou fazer. Qual é o propósito de começar para aqui a apresentar palmarés, estatísticas e a história de Bergkamp? Até porque Dennis Bergkamp nunca foi sinónimo de prémios individuais. Não dos grandes, pelo menos – foi duas vezes nomeado o 3.º melhor do mundo. Mas a magia no jogo de Bergkamp nunca foi a de marcar mais golos, ou a de ter mais nomeações para melhor do mundo, ao contrário de hoje, que parece que é a coisa mais importante no futebol moderno. Não. A magia no jogo de Bergkamp residia no pormenor. Na técnica, na classe, na elegância do toque de bola, na visão de jogo superior, na capacidade de execução certeira. Bergkamp era o mago do minimalismo, aquele que, com quase nada, tudo fazia. E é disso que se deve falar.

The Non-flying Dutchman” (alcunha carinhosamente atribuída pelos adeptos do Arsenal devido à sua fobia de voar em aviões) jogou em três posições ao longo da sua carreira. Jogou a médio-ala no seu início de carreira, no Ajax, no Inter de Milão e na Selecção, e jogou como ponta-de-lança nos seus primeiros anos no Arsenal. Mas foi enquanto segundo avançado que Bergkamp mostrou ao mundo do futebol toda a extensão das suas habilidades. Até hoje, não consigo encontrar ninguém que tenha jogado ao nível em que Bergkamp jogou na posição de segundo avançado. Um terror para qualquer defesa, Dennis Bergkamp era o motor ofensivo da equipa do Arsenal na década em que representou as suas cores. As suas combinações, com avançados como Wright, Anelka e Henry, levaram a uma das melhores épocas da história do clube na Premier League.

Marcar um jogador como este é praticamente impossível. Marcação apertada era mentira – Bergkamp era exímio no primeiro toque e bastava um ou dois movimentos para desembaraçar-se de um defesa e arranjar espaço para distribuir jogo. Marcação à zona era suicídio – dono de um remate colocadíssimo, dar espaço fora da área ao holandês era sinónimo de muitos golos sofridos. Dois homens a marcá-lo? Bergkamp era como um maestro que compreendia como ninguém a movimentação dos seus companheiros de equipa. Era capaz de isolar e desmarcar com um simples toque de primeira. Mas desengane-se o leitor se pensa que estas capacidades se deviam ao seu porte físico. Dennis Bergkamp era um jogador franzino, não era possante nem excessivamente rápido. Aquilo que destacava Bergkamp dos outros era, pura e simplesmente, uma capacidade técnica fora-de-série. Há jogadores que utilizam essa dádiva superior para fintar até ao fim dos seus dias, outros que usam e abusam de um dado movimento técnico só porque o sabem fazer melhor do que os outros. Mas Bergkamp era diferente – sabia usar a sua técnica e aplicava-a com uma classe incomparável. Era capaz de receber um balão que vinha do meio-campo, dominar a bola com um toque, tirar o defesa com outro e finalizar ao terceiro – como de resto fez, no mítico golo marcado à Argentina para o Mundial de 1998, que valeu a passagem às meias finais da competição.

Mundial 98 – Bergkamp elimina Argentina com um golo de antologia / Fonte: www.operationsports.com
Mundial 98 – Bergkamp elimina Argentina com um golo de antologia
Fonte: operationsports.com

Dennis Bergkamp foi um jogador como nenhum outro. Foi líder e general de campo em grande parte da sua carreira. Tratava a redondinha como ninguém na sua geração e produziu vários momentos dignos de serem vistos, uma e outra vez, por verdadeiros amantes do futebol. À semelhança de muitos outros, acredito em que o seu génio nunca tenha sido realmente reconhecido e o seu talento suficientemente valorizado. Era um jogador prático e objectivo, senhor do minimalismo, mas que espalhava classe com o mais pequeno toque na bola. Para quê fazer trinta por uma linha para fintar um único defesa, quando um simples domínio e passe curto à esquerda libertam o ala que pode assim finalizar? Quando discuto com amigos e conhecidos sobre quem figuraria num melhor onze de sempre, Bergkamp era titularíssimo na minha equipa. Não só jogava, e muito, como conseguia pôr toda uma equipa a jogar. Se alguma equipa se esquecesse da sua presença durante meros minutos, normalmente acabava a ir buscar a bola ao fundo das redes, sem saber bem o que tinha acontecido. Nesses momentos, lá aparecia o nome de Bergkamp no placard electrónico, o suspeito do costume. Só depois, à terceira repetição, é que lá se via o holandês, com um passe magistral, uma tabelinha mortífera, um chapéu sublime, um remate que passou meio despercebido mas que tinha as coordenadas correctas. Felizmente, existem provas das “maldades” do “Non-flying Dutchman”. Basta ver as gravações dos jogos.

Nunca vi ninguém aproveitar espaços tão pequenos como Bergkamp. Dá impressão de que a jogar dentro de um armário e às escuras saía de lá com a bola controlada. Foi o jogador que provavelmente marcou ou criou os melhores golos que já vi. Uma classe de senhor, dono de um toque de génio e de uma visão a roçar o sobrenatural. Não tenho qualquer dúvida de que Dennis Bergkamp é, para mim, um dos melhores de sempre. E posso estar aqui a noite inteira a falar da pura magia que aqueles pés produziam. Melhor mesmo é ver alguns destes momentos.

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