Jogo Interior #25 – O comportamento reflexivo do treinador

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O treinador é um promotor de atividades com grupos de praticantes recorrendo, fundamentalmente, à construção das unidades de treino, suportando-se na Teoria e Metodologia do Treino e à condução destas sessões, praticando o que foi planeado, interagindo diretamente com os seus atletas baseando-se, então, na Pedagogia.

Desta forma, sabemos que o treinador tem um papel essencial, obviamente, no planeamento e na estruturação das competências técnicas e táticas e, das atitudes e comportamentos a “propor” ao grupo com que interage, visando exercer uma ação persuasiva que fomente, nos praticantes, vontade para alterar competências técnicas e sociais.

Esta intervenção é eficaz se o treinador evidenciar competência e esta for reconhecida e identificada, primeiro que tudo, pelos praticantes. É aqui que surge o comportamento reflexivo, o hábito criado de regularmente haver uma autoavaliação, por parte do treinador, no que se refere às suas práticas e aos seus valores. E é disso mesmo que vamos falar hoje na nossa rúbrica de Jogo Interior.

Esta “ferramenta” é determinante para identificar pontos fortes e fracos, desvios e acertos no desenvolvimento da sua função com o intuito de melhorar e aumentar a competência do treinador. É, também, através do comportamento reflexivo que o treinador de futebol, ou de qualquer outra modalidade, garante e estrutura o seu próprio progresso e evolução.

Desenvolver este comportamento permite que o treinador avalie a sua própria prática e, assim, promova o seu desenvolvimento, que se repercute, invariavelmente, na qualidade das suas práticas, unidades e sessões de treino, e no desenvolvimentos dos praticantes a todos os níveis. O treinador consegue, assim, encontrar e desenvolver meios e competências para identificar o grau de eficácia das estratégias de intervenção utilizadas no treino e na competição, corrigindo-as se forem inadequadas.

Considero esta capacidade de auto-observação e introspeção essencial para o sucesso de um treinador, é uma necessidade constante, mas é transferível para qualquer área profissional e para além deste território. Um médico deve estar constantemente atento e deve refletir sobre as suas ações, sobre as suas prescrições, sobre a sua forma de comunicar com as pessoas, faz parte do seu trabalho se quiser ser competente no exercício da sua função. Numa relação familiar, amorosa ou de amizade, devemos também ter este comportamento reflexivo, perceber se estamos a abordar a outra pessoa da melhor forma, se a nossa postura é a correta a fim de perceber se somos “competentes” na relação que pretendemos manter, se a quisermos manter.

Qualquer treinador realiza, permanentemente, uma avaliação do seu desempenho, das suas decisões e intervenções, e com a experiência e o treino esta capacidade de autoavaliação em tempo real é aprimorada. Ainda assim, e tendo em conta que os treinadores menos experientes poderão perder muitas informações importantes, estes profissionais devem complementar a sua autoavaliação com uma espécie de auto avaliação à posteriori, onde recorrem à sua memória para preencherem tabelas ou listas que permitam verificar o sucesso das suas intervenções, das suas decisões e escolhas.

Tudo isto, da Primeira Liga aos patamares mais amadores, é fundamental para que o treinador se desenvolva e melhore a sua intervenção, perceba que erros está a cometer, que estratégias estão a resultar e a ter efeitos positivos e que outras não tanto, sabendo que existe influência direta deste comportamento reflexivo sobre a competência demonstrada, competência esta que é percebida pelos praticantes e atletas que tem à sua frente e que são os principais “objetos de mudança”, sendo aqueles que mais sofrem com a qualidade ou não das práticas executadas.

 

Artigo revisto por Joana Mendes

Bruno Alexandre Rodrigues
Bruno Alexandre Rodrigueshttp://www.bolanarede.pt
Desde cedo praticou futebol e o seu gosto pelo desporto foi crescendo. Licenciado em Educação Física e Desporto no ramo de Treino Desportivo e com Mestrado em Ensino da Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário, é, atualmente, Treinador de futebol de formação e Treinador Adjunto de futebol sénior. Pretende refletir sobre as situações que vivencia, em primeira pessoa e não só, no dia a dia da modalidade.                                                                                                                                                 O Bruno escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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