jogo interior

Apesar de ser um amante do desporto em geral, há alguns anos comecei a aprender a gostar de futsal. Tanto que fui praticante e, quando deixei de o ser, quis ser treinador. Sou até ao momento e não me vejo a ser outra coisa.

O futsal encerra em si diversas componentes que o definem como uma modalidade exigente, quer física quer tecnicamente, tendo uma enorme componente mental. Ao nível das capacidades condicionais atrevo-me a dizer que é mais duro do que o futebol, partindo do princípio que é disputado ao mais alto nível. Por ser uma modalidade praticada em espaço reduzido é bastante exigente também ao nível táctico. É uma modalidade de alta intensidade e repleta de momentos de grande espectacularidade.

Não vou escrever acerca da história do futsal em Portugal, pois ela está escrita e faz parte do passado. Escrevo projectando o futuro porque as circunstâncias assim me motivam. Apesar dos pequenos avanços no desenvolvimento da modalidade no nosso país, ela ainda carece de uma identidade própria, existente em todas as modalidades de pavilhão (basquetebol, andebol, hóquei em patins, voleibol). Sinto que ainda existe um estigma que está enraizado na mentalidade dos portugueses que é a sensação de que o futsal é um parente pobre do futebol, uma modalidade alternativa e que impede muita gente, mesmo estando em cargos de direcção no desporto, de o compreender quer na sua essência, quer em profundidade.

Pegando nas palavras de uma amiga, treinadora da equipa feminina do campeonato nacional de futsal, que disputará o encontro decisivo para apurar o vencedor desta época no próximo sábado, “na semana em que se decidem dois títulos nacionais, o feminino e o da 2.ª divisão nacional, as referências no site da FPF são nulas. Esta futebolização do futsal só tem como consequência a falta de competitividade dos campeonatos e o aumento do fosso entre as equipas com mais capacidade financeira e as que têm menos recursos.” A verdade é que muito poucas pessoas na FPF lutam pelo futsal, pela sua divulgação, pela disseminação da modalidade, pela criação de eventos atractivos e apelativos para os agentes (quer nacionais, quer locais) que financiam as equipas. Uma excepção foi este ano a Final Four da Taça de Portugal, masculina e feminina, no Pavilhão Multiusos de Sines, que conseguiu um feito histórico, tendo sido das transmissões com mais audiências, tendo mesmo ultrapassado o futebol. Prova de que o futsal também consegue ser aglutinador de massas e atractivo para os amantes do desporto em geral.

Portugal é vice-campeão de Futebol Feminino
Portugal é vice-campeão de Futsal Feminino
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Outra questão da “futebolização” sobre a qual sou bastante crítico também está relacionada com uma das últimas actualizações ao nível da arbitragem, em que se “colaram” os critérios de marcação de faltas ao futebol e, com isso, se deturpou a essência do futsal. Desta forma a capacidade técnica foi preterida em relação à capacidade física, e o jogo passou a ser mais “possante” e menos técnico. Passou a ser mais táctico e menos irreverente, o que fez com que estrategicamente se passou a usar com mais regularidade o 5.º elemento, o que suscita também algumas variações de opinião. Passaram a marcar-se menos faltas e os jogos passaram a ser mais agressivos. Estas directivas ao nível dos critérios de marcação de faltas pela arbitragem são, no entanto, da responsabilidade da UEFA, sendo também transversais aos campeonatos dos países europeus de futsal. Constatei isso nos últimos encontros da final do campeonato espanhol e na fase final da UEFA CUP.

É normal e até bastante plausível a comparação entre o futebol e o futsal. A meu ver o futsal, apesar de ter derivado do futebol, trazendo consigo características comuns que têm a ver com o facto de ser jogado com os pés, tendo algumas dinâmicas idênticas e tendo trazido alguns praticantes de várias idades, de vários escalões, ao longo do tempo, tem pouco mais de comum com o futebol. O futsal não é um “mini-futebol”. Tem mais de andebol, de basquetebol, de hóquei em patins, de pólo aquático do que de futebol. O problema é que ao serem transferidos praticantes do futebol para o futsal também foram transferidos adeptos do futebol para o futsal, que pouco entendem acerca do jogo e que confundem princípios, filosofias, condutas e valores. A dinâmica do futsal é outra. Há princípios comuns mas especificidades diferentes. O perfil do atleta de futsal é muito diferente. As capacidades condicionais são diferentes. A capacidade de tomada de decisão é muito diferente. Com tudo isto e muito mais, para mim é impossível comparar o futsal ao futebol, pois cometem-se os mesmos erros que um pai ao comparar dois filhos.

O Futsal é uma modalidade em crescimento em Portugal
O Futsal é uma modalidade em crescimento em Portugal

É preciso que os altos dirigentes do desporto para o futsal sejam pessoas que entendam todas estas diferenças. É preciso que os próprios treinadores trabalhem estas questões com os seus atletas, desde os escalões mais novos, para que novas gerações entendam o futsal em si próprio e não como uma pequena cópia do futebol. É preciso que se criem formações para os dirigentes, para que comecem a surgir pessoas com outro tipo de sensibilidade em relação ao futsal. Não é preciso que a gente do futsal fuja do futebol mas sim que o escolha pelas suas características.

Ao longo de todo este tempo atrevo-me a dizer que quanto mais vejo e oiço acerca do futebol mais adoro o futsal. Isto não quer dizer que não goste de futebol, somente que gosto mais um bocadinho do futsal. E por favor defendam o futsal defendendo as suas qualidades e não desdenhando os defeitos do futebol. É uma questão de valores e liderança, e por isso sermos melhores em qualquer coisa é da nossa inteira responsabilidade! Desta forma estaremos preparados para mudar a História!

Comentários

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Já foi jogador mas há uns tempos passou para o outro lado e ajuda os treinadores com as coisas que escreve. Adora desporto e todas as componentes do jogo interior, ou treino mental. O seu foco são os processos e adora estudar as dinâmicas do trabalho em equipa. Coloquem muita malta a trabalhar junta e ele descortina todas as suas nuances. Já teve filhos, plantou árvores e ultimamente lançou um livro. Parece que está safo…                                                                                                                                                 O Alcino não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.