jogo interior

(Assim como quem diz no futsal, no basquetebol, no andebol, no hóquei em patins, etc.)

O livro “A Arte da Guerra”, escrito no séc. IV a.C., há cerca de 2 500 anos, por Sun Tzu, um militar, estratega e general chinês, ainda hoje continua a ser admirado como fonte de conhecimento na área da estratégia, tendo sido alvo de análises e interpretações, utilizadas em diversos contextos. Muitos referem-se a “A Arte da Guerra” como tendo sido a origem do próprio conceito de estratégia. Embora seja um tratado unicamente militar, todos os conselhos, ensinamentos e conceitos de Sun Tzu são admiravelmente adaptáveis ao mundo empresarial e ao mundo desportivo, entre outras áreas. Basta contextualizar o que lá está escrito, olhar para a “concorrência” como se fosse o inimigo e para o “mercado” como se fosse o campo de batalha. É um exercício de criatividade, perspectiva e realidade.

Rui Vitória, há uns tempos, apresentou o seu livro, baseado em leituras do livro original e aplicadas à sua vida de treinador, “A Arte da Guerra Para Treinadores”. Rui Vitória fornece pistas para levar a sua equipa ao triunfo. Da formação de uma equipa à disputa de uma grande final, passando pelas etapas do treino e pela gestão do jogo, “A Arte de Guerra Para Treinadores” é um manual de estratégia aplicado ao desporto. Após a leitura do livro achei interessante o enquadramento que Rui Vitória fez, relacionando a obra original e a sua interpretação, e apeteceu-me reflectir sobre o assunto. Fui à procura da relação da guerra com o jogo, ou seja, da guerra como actividade bélica com um certo objectivo, com o jogo desportivo e competitivo, no contexto de actividade física e de superação a vários níveis.

Huizinga, em “Homo Ludens” (1938), argumenta que o jogo é uma categoria absolutamente primária da vida e define jogo como: “uma actividade voluntária exercida dentro de determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria, e de uma consciência de ser diferente da vida quotidiana.”

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Noutras definições encontramos ideias muito parecidas:

“Um jogo é um sistema no qual os jogadores envolvem-se num conflito artificial, definido por regras, que determina um resultado quantificável”. (Katie Salen e Eric Zimmerman); “Um jogo é uma forma de arte na qual os participantes, denominados jogadores, tomam decisões, a fim de gerir os recursos através de elementos de jogo na busca de um objectivo.” (Greg Costikyan); “Um jogo é uma actividade entre dois ou mais tomadores de decisão independentes que procuram atingir os seus objectivos num contexto limitado.” (Clark C. Abott); “No seu nível mais elementar, então podemos definir jogo como um exercício de sistemas de controlo voluntário em que há uma oposição entre forças, confinados por um procedimento e as regras a fim de produzir um resultado de desequilíbrio”. (Elliot Avedon e Brian Sutton-Smith); Em Inteligência Artificial, um jogo é um modelo teórico de conflitos de interesse (decisões possíveis, resultados possíveis) entre dois ou mais agentes que têm motivações conflituantes.

Assim sendo, em qualquer jogo existe confronto, conflito, luta de interesses, vencedor e vencido. Elementos em comum na relação destas duas temáticas: jogo e guerra.

Há 2 500 anos, Sun Tzu na realidade escreveu um guia, um tratado, que ensinava vários aspectos a ter em consideração para um batalhão vencer uma guerra ou batalha, pois era muito habitual uma nação entrar em guerra com outra, e a História Mundial assim nos conta. O que vários leitores da obra perceberam foi que metaforizando o conteúdo de “A Arte da Guerra”, na verdade algo de valioso se obtinha. Um guia de estratégia para conseguir obter vantagem competitiva, através de certas acções e hábitos. Na realidade actual e em particular, numa actividade desportiva como o futebol, todos andam constantemente em busca de vantagem competitiva. Sun Tzu diz que “a Arte da Guerra baseia-se no engano”. Vendo bem, todas as acções, em todos os momentos, da maior parte dos jogos, mesmo nos jogos desportivos colectivos e competitivos (mas também individuais), são realizadas com a intenção de “enganar” o adversário. Não será um “enganar” com uma conotação negativa, no sentido de mentir, omitir, aldrabar, roubar, conquistar ou até matar, tal como sucede em qualquer guerra.

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Será um enganar com o intuito de iludir, cansar, fazer o adversário sentir que tem vantagem para depois aplicar a jogada decisiva. Será jogar muitas vezes pela esquerda para “adormecer” o adversário e desferir um ataque “mortífero” pela direita. Será lançar um jogador que o adversário não esperava. Será manter um certo registo no discurso com a comunicação social para que os adversários se confundam na recepção dessas mensagens. Serão muitas coisas mais…

Sun Tzu diz também “Quando fores capaz de atacar, deves aparentar incapacidade e, quando as tropas se movem, aparentar inactividade. Se estás perto do inimigo deves fazê-lo crer que estás longe; se longe, aparentar que estás perto. Colocar iscos para atrair o inimigo. Golpear o inimigo quando está desordenado. Preparar-se contra ele quando está seguro em todas as partes. Evitá-lo durante um tempo quando é mais forte. Irritá-lo quando tiver um temperamento colérico. Se for arrogante, tratar de fomentar o seu egoísmo. Ataca o inimigo quando não está preparado e aparece quando não te espera.”

A estratégia no futebol, assim como noutras modalidades, é o padrão de comportamento a adoptar em campo. Difere da táctica, embora possa ser confundida por alguns. A táctica é a organização sistémica da equipa. Independentemente do sistema táctico, a equipa pode adoptar uma postura mais ofensiva ou mais defensiva. Com o mesmo sistema táctico, uma equipa pode alterar a estratégia dentro de um jogo. Mais ligada à táctica individual e de grupo, a estratégia leva em consideração a movimentação dos jogadores na marcação e na articulação, e as características dos jogadores. Assim, a estratégia está mais directamente ligada aos comportamentos, e a táctica à disposição e funções individuais e colectivas dos “guerreiros”.

Da obra de Sun Tzu retiro cinco factores que são ensinamentos chave para quem deseja pensar ou repensar as suas estratégias, se bem que o ideal seria, e é uma recomendação minha, ler o livro original, que talvez possa encontrar por alguma livraria. Para prever-se o resultado de uma “guerra”, devemos analisar e comparar as nossas próprias condições com as do nosso “inimigo”, baseados em cinco factores:

  • A DOUTRINA (motivação) – significa “tudo aquilo que faz com que os liderados estejam em sintonia com seu líder, de forma que o seguirá aonde quer que ele vá, sem temer pelas suas vidas, nem correr qualquer perigo”. Representa aquilo que faz com que a equipa lute, o propósito, a causa moral.
  • O TEMPO (condicionantes) – significa o Ying e o Yang (a harmonia dos opostos), a noite e o dia, o frio e o calor, dias ensolarados ou chuvosos, etc… Tudo o que estiver relacionado com o que possa condicionar a batalha. Representam tudo o que está para além do nosso controlo. A única forma de nos defendermos deste factor é criar processos que nos permitam estar preparados e ter riscos mais reduzidos. Ter um plano B, C ou D é fulcral.
  • O TERRENO (espaço) – implica as distâncias e faz referência onde é fácil ou difícil deslocar-se, se é em campo aberto ou lugares estreitos, e isto influencia as possibilidades de sobrevivência. Representa a movimentação e o posicionamento em campo, o posicionamento físico. A forma como a equipa se movimenta. O sistema táctico.
  • O MANDO (liderança) – há de ter como qualidades a sabedoria, a sinceridade, a benevolência, a coragem e a disciplina. Está relacionado com os valores do líder.
  • A DISCIPLINA (competências e habilidades colectivas) – há-de ser compreendida como a organização do exército, as graduações e classes entre os oficiais, a regulação das rotas de mantimentos e a provisão de material militar ao exército. Representa a clareza organizacional da equipa, a coesão, o relacionamento dentro de campo, o entrosamento.

Cada vez mais, hoje em dia, a informação recolhida, a observação da organização do adversário, a recolha dos comportamentos padronizados ou caóticos, etc., são aspectos essenciais da preparação para a “batalha”. O scouting, as políticas de contratações e de formação são aspectos que podem fazer a diferença. Ter mais informação é ter mais poder, é ter mais capacidade de controlar as coisas. No entanto, ter informação sem ter a capacidade de decidir, sem uma liderança forte, sem a habilidade para filtrar o mais importante do residual, sem a capacidade de antecipação, é como a jogar cartas, ter um ás de trunfo e não o jogar quando devíamos. Ter um pensamento estratégico ajuda o líder a ter objectivos bem claros e definidos, e um ou mais planos de acção. Tudo isto aliado à capacidade de comunicar eficientemente com os liderados, à capacidade de ter uma relação empática, levará o “general” à conquista de mais vitórias e à glória dos seus “guerreiros”.

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Já foi jogador mas há uns tempos passou para o outro lado e ajuda os treinadores com as coisas que escreve. Adora desporto e todas as componentes do jogo interior, ou treino mental. O seu foco são os processos e adora estudar as dinâmicas do trabalho em equipa. Coloquem muita malta a trabalhar junta e ele descortina todas as suas nuances. Já teve filhos, plantou árvores e ultimamente lançou um livro. Parece que está safo…                                                                                                                                                 O Alcino não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.