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O Passado Também Chuta: Milwall FC: O último bastião do hooliganismo britânico

Nuno Pássaro · 3 min

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o passado tambem chuta

No final da segunda metade do séc. XIX proliferava pelas ruas de Londres uma escalada de violência entre grupos rivais que rapidamente se alastrou ao futebol.

Os hooligans ganhavam protagonismo e os desacatos ocorridos entre adeptos assinalavam um novo fenómeno de violência barata absolutamente nocivo para o futebol.

Os pequenos e sobrelotados estádios londrinos eram palco de brutais confrontos, com destaque para as invasões de campo, ou os confrontos em terminais de comboio ou autocarros.

Rapidamente este flagelo que moldou a paisagem dos estádios em terras de Sua Majestade deixou de ser apenas um problema afecto aos clubes, associações, ou mesmo da Federação Inglesa de Futebol. Tinha-se transformado numa questão de cariz político, que reclamava uma urgente intervenção estatal. Mais tarde, as claques de futebol organizadas seriam mesmo banidas dos recintos desportivos.

Em Londres, berço deste fenómeno de violência nos estádios de futebol, desde logo emergem dois grupos rivais, absolutamente temidos por todos os outros: os hooligans do West Ham United e os do Millwall Football Club.

O Millwall sempre foi um clube modesto, competindo regularmente no terceiro escalão de Inglaterra. Aliás, no seu hall of fame não consta qualquer título maior, registando-se apenas uma presença na final da FA Cup, e conta com um 10º lugar como a melhor prestação de sempre na Premier League.

O clube foi fundado em 1885 no coração de East End, um dos bairros mais perigosos da capital britânica, também conhecido como “a ilha dos cães”.

Sediado em Bermondsey, uma pequena localidade do sudeste Londrino, o Millwall ficou popularmente conhecido pela cultura de caos e violência dos seus temidos adeptos, muitos deles afectos à extrema-direita.

Há décadas que foi incorporada e adoptada uma filosofia que espelha bem o culto de violência, desrespeito pelos valores sociais, pela ordem pública e pelas instituições associado a estes adeptos. O lema “Ninguém gosta de nós, não nos importamos” é orgulhosamente invocado e entoado pelos adeptos.

Adeptos do Millwall em provocações nas imediações de White Hart Lane Fonte: marca.com
Adeptos do Millwall em provocações nas imediações de White Hart Lane
Fonte: marca.com

Devido à proximidade dos bairros, e à rivalidade dos seus adeptos, o clássico mais violento de Inglaterra e talvez de todo Reino Unido, é conhecido por “East London Derby” e opõe o Millwall FC e o West Ham United.

Os seguidores do Millwall são conhecidos por espalhar o caos por onde passam, e nem a terrível tragédia de Hillsborough que opôs Juventus e Liverpool, e onde morreram mais de 90 pessoas no estádio depois de violentos confrontos na bancada entre os adeptos dos dois clubes demoveu ou pôs cobro às intenções destes.

Anos mais tarde, já em 2004, numa partida entre Millwall e Liverpool, os adeptos daquele provocaram os do Liverpool gozando com a morte daqueles que pereceram na trágica noite de Hillsborough. Acto contínuo, a resposta não se fez esperar e seguiram-se violentos confrontos que se alastraram para as imediações do estádio e ruas adjacentes.

Já em 2013, seguidores de Newcastle e Millwall voltaram a provocar cenas de violência num estádio, deixando claro que a ameaça e os fantasmas do hooliganismo ainda não se dissiparam na sua plenitude.

Muito recentemente, no último fim-de-semana notícias deram conta do regresso da violência a um jogo de futebol, com registo de distúrbios por parte dos adeptos do Millwall no derby de Londres em White Hart Lane, casa dos “Spurs”.

Pese embora os hooligans e a violência no futebol inglês tenha sido banida, a ameaça do seu regresso continua patente. Conta-se que o espírito de Edward Hooligan vagabundeia pela famosa rua F-Troop, berço dos temíveis Millwall Bushwackers, o último bastião do hooliganismo.

 Foto de capa – Independent.co.uk

Nuno Pássaro

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