O Passado Também Chuta: António Simões

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o passado tambem chuta

Tive um ídolo. Era pequeno. Andava com um ombro levantado, e o Estádio da Luz transformava-se num inferno quando os defesas direitos o rasteiravam. Chamava-se, chama-se, António Simões. Era o extremo esquerdo do Benfica que viajou pelos píncaros do futebol europeu e mundial. Era “O Miúdo”, e o grito saído da garganta profunda do Estádio da Luz inflamado era um imperativo: “larga o Miúdo”. Entrou para o Benfica na época 1959-1960, depois da antecipação contratual do Benfica ao Sporting. Foi parar aos júniores, onde se encontrou com um forjador de talentos chamado Valdevieso. Foi mais um grande do futebol português que veio da “outra banda”, neste caso de Almada e do Almada F. C.

Só o Simões foi, ou era, mais aclamado do que o imortal Eusébio. Só o Rato Mickey levantou tantas ou mais paixões que Eusébio. Ver este jogador recolher a bola antes da linha do meio-campo e começar a encarar contrários era o delírio. Estes dois nomes, Eusébio e Simões, Simões e Eusébio, eram tão diabólicos e tão complementários que é escusado dizer que um sem o outro seria na mesma um grande do futebol, mas jamais se poderia realizar a cerimónia mágica que estes dois fora de série celebravam sobre os campos de futebol do Mundo. Simões era o meu ídolo, e por este jogador gritei e festejei numa bancada como jamais voltei a festejar ou gritar.

Esta linha avançada, esta equipa Fonte: imortaisdofutebol
Esta linha avançada, esta equipa
Fonte: imortaisdofutebol

Campeão da Europa à mais tenra idade, membro da linha atacante com mais classe, génio e contundência resolutiva que vi sobre um relvado: José Augusto, Coluna, José Águas, Eusébio e Simões. Nesta linha avançada estavam os dois melhores extremos de Europa. Um dos melhores, se não o melhor, avançado centro da Europa, o poderoso Coluna, e o irrepetível Eusébio. Vê-los evolucionar sobre o terreno era uma sensação especial. Bella Gutman começou a puxar pelo Simões já na época 1960-1961. Na época seguinte recuou o Cavém para médio de ataque e entregou a camisola número 11 a Simões. Nesse ano deram-se uns jogos empolgantes com o Sporting. O lateral direito do Sporting era o internacional Mário Lino.

Era um defesa conceituado, e a defesa do Sporting nadava em prestígio. Mas, lançado na equipa do Benfica, estava um tal Simões. Situado a dois, três metros atrás da linha do meio-campo, recebia a bola do Senhor Germano ou do jovem, também, Fernando Cruz, e “o Miúdo” corria com a bola entre os dois pés de cara a Mário Lino. Como se acontecesse uma saída da manga do Mago de um coelho via-se o Lino fintado e estatelado; mas vinham mais, e via-se mais e mais estatelados no relvado da Luz. A última imagem que tenho deste tipo de jogada é o defesa central brasileiro Lúcio, de joelho em terra, e ver o Eusébio chegar a trotar à entrada da grande área; o Simões, jogador assistente e clarividente, a passar-lhe a bola rasteirinha, e o Eusébio a acelerar para a bola, chutar e… golo. O Estádio da Luz do avesso e o Miúdo a correr a festejar, o Pantera aos saltos a festejar, e todos a correr para um abraço coletivo. O que se via era magia e feitiço.

Ausente já o José Águas, somou-se ao quinteto José Torres. Anos mais tarde, no Mundial de Inglaterra, criou-se a lenda dos Magriços, e Portugal ficou em terceiro lugar. Simões foi tão importante como o mais importante, e a Seleção do Campeonato incluía como extremo esquerdo Simões. Ganhou uma dezena de Campeonatos Nacionais e cinco Taças de Portugal. Venceu o Real Madrid na final de Amesterdão e teve a oportunidade de ganhar mais três, mas não aconteceu. Despediu-se do Benfica na época 1974-1975 e rumou aos Estados Unidos. Nos intervalos do seu períplo americano, jogou no União de Tomar e no Estoril. Simões, o companheiro inseparável de Eusébio, também está no Olimpo do futebol mundial.

José Luís Montero
José Luís Montero
Poeta de profissão, José simpatiza com o Oriental e com o Sangalhos.                                                                                                                                                 O José não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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