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O Passado Também Chuta: Bella Gutman

José Luís Montero · 3 min

O Passado Também Chuta: Bella Gutman

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Bella Gutman não era único; simplesmente era sublime. Tinha o costume de ser campeão e transformar o futebol numa festa. O golo aparecia porque as suas equipas não jogavam para reter; jogavam para atacar. “Marquem três golos e depois já se verá…”, frase que determina uma filosofia e fotografa a sua visão do futebol. Na sua época emergiram grandes treinadores; só temos de recordar Helénio Herrera ou Matt Busby – todos inovaram e criaram equipas que fizeram época, mas só Gutman venceu por onde passou. A Holanda rendeu-se. Treinou em Itália; treinou o Milão e ganhou. Treinou no Brasil e venceu. Treinou no Uruguai e foi campeão. Treinou na Hungria e é escusado dizer o resultado; treinou o FC do Porto e foi campeão nacional. Orientou o Sport Lisboa e Benfica e transformou o clube para sempre.

Deixando a lenda de parte e a sua parte anedótica, o dito de Bella Gutman, quando afirma que o Benfica jamais conquistaria a Europa, tem mais de lógica do que de adivinhação. Era uma equipa jovem e portanto ainda em formação, apesar de arrasar na Europa. Sabia o que queria e sabia ver e captar jogadores. Com ele entraram de rompante na primeira equipa craques como o mítico Simões e também um dos melhores defesas-esquerdos de sempre do Benfica: Fernando Cruz. O Benfica tinha uma excelente escola e aproveitou-a. Não é um treinador vulgar que mete na equipa dois, praticamente, juniores. Conhecia a equipa e a sua idade. O Mário João e o José Augusto rondavam os vinte e três anos. O Coluna e o Cavém não ultrapassavam muito essa idade; tinha apenas quatro veteranos: Costa Pereira, Germano, Ângelo e José Águas. Eusébio chega ao Benfica depois da supervisão realizada por um homem da sua confiança. É escusado dizer que o grande Eusébio estava na casa dos dezoitos anos. Estamos no mundo das estatísticas, por isso gostaria de saber se alguma equipa tão pouco veterana triunfou na Europa como triunfou o Benfica. Se existe uma equipa similar neste aspeto, chama-se Ajax.

Foram duas...  Fonte: http://soberanosoficial.files.wordpress.com
Foram duas…
Fonte: soberanosoficial.files.wordpress.com

Mas, fundamentalmente, Bella Gutman era espetáculo. Os seus extremos brilhavam mais além da sua qualidade porque, quer pela velocidade quer pela finta, praticava um futebol de vertigem onde os goleadores eram a síntese orgástica. A bola só era tocada com pausa quando um senhor chamado Germano iniciava a jogada. No entanto, pode-se dizer que o treinador e a idiossincrasia do Benfica formaram um matrimónio perfeito. Por onde passavam, a aura de mística ficava cimentada. Possivelmente, só o Peñrol do Uruguai encaixou também no Ser de Bella Gutman.

Hoje fala-se de José Mourinho como um triunfador, inovador e portador do dom da mística; no entanto, comparado com Bella Gutman, está aquém tanto na variedade de campeonatos que experimentou como na natureza destes campeonatos tão diferentes. Na década de 1950 saltar da Holanda para a Itália; da Itália para o Uruguai; de Uruguai para o Brasil e do Brasil para o Porto não era tão fácil e não existiam as novas tecnologias. Mas com isto não pretendo desvalorizar José Mourinho, antes pelo contrário; Mourinho acaba de meter o seu Chelsea na ronda da semifinal tendo como elementos criativos três jogadores jovens. Bella Gutman não admite biografias porque ultrapassou o tempo e a História. Por isso, pouco importa onde e quando nasceu e onde e quando faleceu. O Benfica é e será sempre o clube glorioso que arquitetou um treinador mágico: Bella Gutman.

José Luís Montero

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