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O Passado Também Chuta: Grande Torino

Nuno Pássaro · 3 min

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o passado tambem chuta

A riqueza da História do futebol mundial radica nos mais inolvidáveis feitos dos seus intérpretes, desde os clubes às selecções, de jogadores a treinadores.

Mergulhar na década de 40, é trazer à memória um dos mais belos – e fatalmente trágicos – episódios de todo o sempre: o “Grande Torino”.

Na época, o Torino dominava o futebol italiano averbando cinco títulos de campeão nacional e uma copa de Itália. Os seus jogadores formavam a base da squadra azzurra, que chegou a alinhar, inclusive, com dez jogadores em simultâneo. Quando jogava em casa, o Torino tinha um período de ataque avassalador que era conhecido como «os 15 minutos do Filadélfia». Dizia-se na imprensa italiana daquela época que nenhuma equipa do mundo era capaz de sobreviver a esses quinze minutos de ataque vertiginoso do Toro, comandados pelo seu capitão goleador Valentino Mazzola, o melhor jogador da sua geração.

Por obra do destino, nem todas as histórias encantadas têm um final feliz. Em 1949, já no final de uma década absolutamente memorável, o Toro foi a Lisboa defrontar o Benfica num jogo amigável disputado no Estádio Nacional. No regresso a casa, o avião que transportava a equipa colidiu numa das torres da Basílica de Superga, em Turim, e vitimou todos os passageiros a bordo. O “Grande Torino” desaparecia da forma mais cruel da face da Terra, destroçando famílias, e milhares de adeptos. Turim não mais foi a mesma.

Ruínas do antigo “Stadio Filadelfia”, primeira casa do Toro Fonte: agatti.com
Ruínas do antigo “Stadio Filadelfia”, primeira casa do Toro
Fonte: agatti.com

Contudo, nessa fatídica temporada, o Toro ainda conquistou o título de campeão nacional, fazendo alinhar nas 4 últimas jornadas a sua equipa de juniores. Num gesto de desportivismo sem precedentes, os quatro adversários também fizeram alinhar a sua equipa de juniores, registando-se quatro vitórias a favor do Toro (Torino 4-0 Génova, Torino 3-0 Palermo, Sampdoria 2-3 Torino, e Fiorentina 0-2 Torino).

A tragédia de Superga surgiu num contexto histórico-social muito débil. A Itália tinha saído derrotada da II Guerra Mundial, e a pobreza e fome eram uma constante num país que procurava reerguer-se. O futebol no geral, e o Torino em particular revestiam de capital importância para um país que via nos sucessos da sua selecção e de alguns clubes, com o Toro à cabeça, a força da esperança e união de todo um povo.

Em vésperas do Mundial de 50, no Brasil, esta tragédia deixou a squadra azzurra órfã das suas principais valias, uma vez que a equipa base alinhava toda no desaparecido Torino.   Perante este desolador cenário, e após um funeral que juntou meio milhão de pessoas, a Federação Italiana de Futebol proibiu a sua selecção de viajar de avião para o Brasil, e após uma viagem de barco que durou duas semanas, a Itália viria a ser derrotada por 3-2 pela Suécia, sendo eliminada do mundial logo na primeira fase da competição.

Nunca mais o “Grande Torino” se recompôs da tragédia de Superga. Desde então, o Toro só logrou ser campeão italiano no longínquo ano de 1976, venceu três Taças de Itália (1968, 1971 e 1993), e ainda atingiu a final da Taça UEFA em 1992, sendo derrotado pelo poderoso Ajax de Amesterdão.

O séc. XXI tem sido marcado por subidas e descidas de divisão, e em 2005 o Torino chegou mesmo a falir. Já perdeu o estatuto de “grande” de Itália e já não é sequer o maior clube de Turim, tendo sido ultrapassado pelo grande rival Juventus. Em 2016, o Estádio Olímpico foi rebaptizado de “Estádio Olímpico Grande Torino”, em clara homenagem à histórica e temida equipa do Toro da década 40.

 Foto de capa: Lance

Nuno Pássaro

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