Cumpre-me hoje sondar os lugares recônditos da minha memória para evocar as jogadas, os passes e os golos de Pedro Barbosa, médio dos leões que se sagrou campeão nacional com a camisola verde e branca por duas vezes (a primeira na época 1999/2000 e a segunda na temporada 2001/2002).

Quando o evoco, a ele e às suas jogadas, lembro-me também da fabulosa equipa do Sporting CP de 1999-2000, constituída por estrelas como  Ivone Di Fransceschi, Beto Acosta, André Ayew, Toñito e companhia, bem como da formação de 2001/2002, já com João Vieira Pinto e Jardel na frente de ataque, assumindo-se aqui Barbosa como o distribuidor de jogo por excelência, iniciando-se muitas vezes nos seus pés a irreverência posterior de João Pinto e os cabeceamentos exemplares do eterno “Super Mário”. É justo, não só por isto, mas também por isto, dizer que o título conquistado nessas épocas teve a o toque de midas de Pedro Barbosa.

Pedro Alexandre Santos Barbosa, cresceu para o futebol em terras nortenhas, nos escalões de formação do FC Porto, assumindo-se como sénior no SC Freamunde, corria a temporada 1989/90. Na época 1991/92 ruma para o Minho, representando o Vitória SC, mas foi desde a época 1995/96 até 2004/2005 que o internacional português viu todo o seu talento reconhecido, em representação do Sporting Clube de Portugal.

O que mais me fascinava no Pedro Barbosa era a calma que introduzia no jogo, mesmo quando tudo parecia perdido. Tratava a bola como se fosse de veludo, o seu toque era subtil, quase frágil mas, apesar de tudo, controlado. O que o distinguia dos demais, e que ainda hoje guardo no baú das minhas memórias, são os seus remates em jeito, na esquina da grande área. Remates, regra geral, colocados e carregados de veneno para as balizas contrárias. Esse era o Barbosa da minha adolescência que eu via nos jogos, quer pela televisão quer nos estádios sempre que ia ver o Sporting.

Quantos e quantos golos não marcou assim e nos deixou com a certeza de que o futebol, aos seus pés, parecia uma coisa simples e fácil. Tudo com uma calma, uma serenidade e uma confiança que só os grandes mestres possuem. Tinha o talento de apenas alguns e descobria espaços que, aos olhos dos comuns mortais, pura e simplesmente, não existiam. Colocava o esférico em lugares insondáveis, dribles que partiam os rins aos laterais esquerdos adversários, sempre que atuava na ala direita da formação verde e branca. Do ponto de vista do seu posicionamento em campo não era um ala puro, pois procurava muitas vezes as zonas interiores do campo para gerar roturas. Partia dele, muitas vezes, o último passe, o “da morte”, como se diz ainda na gíria do futebol.

Recentemente, Pedro Barbosa explicou a Bruno Fernandes alguns truques para se ser um verdadeiro maestro leonino
Fonte: Sporting CP

Mas, nem tudo foram rosas para este futebolista. Tal como os génios, teve oscilações exibicionais gerando-se várias dúvidas sobre a sua afirmação em patamares mais elevados do futebol europeu, pois tanto conseguia, num ápice, exibições e jogadas de encher o olho como, de um momento para o outro, parecia um fantasma em campo. Mas essa imprevisibilidade não diminuía o talento que possuía: dava ainda mais fé aos adeptos pois quando as coisas se complicavam para a formação de Alvalade, lá estavam eles à espera que o Barbosa sacasse um coelho da cartola e virasse o jogo com um cruzamento, um lance perigoso ou até mesmo um golo.

Por todas todas estas razões e muitas outras, Barbosa será sempre recordado no futebol português em geral e no Sporting em particular. A sua memória torna-se ainda mais importante, muito devido à escassez de jogadores calmos e serenos em campo atualmente, capazes de conjugar algo que aparentemente parece inconciliável: a irreverência e a tranquilidade. Também por isso, Barbosa será sempre Barbosa. E os adeptos de futebol têm de prestar-lhe as devidas homenagens, deixando de parte as críticas que tantas vezes sob ele se abateram, injustamente, ao longo da sua carreira.

Foto de Capa: Sporting CP

Comentários