A agonia do Valência: o último passo da destruição de um histórico

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O Valência está quase morto. Atualmente, resta-lhe sobreviver, sem qualquer tipo de prazer. As possibilidades de uma recuperação rápida são nulas. Há quem vá mais longe e tenha decretado o óbito do histórico do Mestalla. O que aconteceu nos últimos anos ao emblema espanhol é um caso de gestão danosa, como pouco se viu no mundo do futebol e que já foi esmiuçada.

Assistimos recentemente ao desaparecimento do Bordéus, à queda até ao sopé da montanha do Boavista ou à crise do Leicester City. A história do futebol espanhol está recheada de conjuntos que desapareceram: UD Salamanca ou CD Logroñés encabeçam a lista. Nos casos referidos, as instituições faliram ou vivem um período negro devido a uma situação financeira insustentável. O caso do Valência é ligeiramente diferente.

Pela Comunitat Valenciana, Peter Lim deixou de investir, por muito que seja um dos grandes milionários ao nível mundial. A ‘morte’ do Valência não está relacionada com o dinheiro, mas sim com os valores de quem gere a instituição e com a vontade de colocar o clube na rota dos bons resultados. Vamos ser honestos. O que está a ocorrer em 2026/27 é consequência das medidas tomadas na última década. Não se trata de um simples mau arranque de campeonato. É o acumular de todas as situações que levaram milhares de adeptos às lágrimas.

Arnau Martínez Valência
Fonte: Valência

Foram várias as vozes de comentadores a defenderem que o Mestalla deveria ter ficado vazio no encontro contra o Barcelona. Seria uma demonstração de cisão entre os adeptos e a direção. No entanto, de que valeria? Não é segredo para ninguém que a Meriton não recolhe o carinho de ninguém pelos lados do Turia. Além disso, os aficionados amam verdadeiramente o Valência e não o querem deixar ao abandono dos verdadeiros vilões. Surpreendeu a alguém os protestos nas ruas que rodeiam o estádio durante o pós-jogo?

O 5-0 para os catalães foi curto, Rodri assumiu que os oponentes eram fracos. Um resultado que envergonha o que já foram os chés no passado. O grande medo é que esta goleada não seja o culminar de tudo isto. Afinal, a tendência é piorar. Desde a chegada de Peter Lim já assinaram 12 treinadores e sete responsáveis pela área de futebol. Passaram cinco presidentes pela tribuna do Mestalla.

O Valência entrou em 2026/27 com uma tripla que deixa muito a desejar, em comparação com o que já se contou no passado:

  • Kiat Lim: presidente
  • Ron Gourlay: CEO para o futebol
  • Carlos Corberán: treinador
Harvey Elliot Valência
Fonte: Valência

Atualmente, o trio é odiado pelas bancadas. Nenhum é visto como solução. É compreensível tal postura, principalmente nos dois últimos casos (o presidente é filho de Peter Lim, pouco ou nada fez para merecer o posto que ocupa. No entanto, se apresentar um low profile, não afetará ninguém).

Durante a conferência de imprensa para abordar o mercado de transferências de verão, Ron Gourlay recusou demitir-se e afirmou que a janela foi positiva, dadas as condicionantes. Façamos uma análise ao que ocorreu no que diz respeito às entradas no plantel.

O Valência trouxe sete caras novas, sendo que foram investidos nove milhões em apenas dois jogadores. Não foi uma revolução, mas não acreditemos que houve um trabalho de afinco. Alguns destes atletas já estavam fechados antes do começo do mercado. Justin De Haas deixou o Famalicão no final do seu contrato e já tinha acordo há algum tempo. Ryunosuke Sato (quatro milhões de euros, Tokyo) assinou no começo de julho, tal como Aliou Dieng (custo zero, Al Ahly). Ou seja, de sete, apenas quatro atletas foram verdadeiramente negociados nas semanas da janela de transferências.

Nou Mestalla Valência
Fonte: Valência

Pablo Maffeo (empréstimo, Olympiacos), Arnau Martínez (seis milhões de euros, Girona), Harvey Elliot (empréstimo, Liverpool) e Kayne van Oevelen (empréstimo, Ipswich Town). Não é um leque que entusiasma, que suba o nível ou que dê um equilíbrio ao plantel. O inglês, que era considerado um excedentário do Liverpool, tocou na bola contra o Barcelona e mostrou que é outra loiça. Isto demonstra que a qualidade está escassa.

Desabituem-se do Valência dos craques. Já não existe um Mendieta, um David Villa, um Albelda ou um Baraja. Os adeptos convenceram-se disso. Essa versão da instituição fica apenas na memória. O plantel é composto maioritariamente por elementos medianos, que vivem um período de forma terrível. José Copete, Filip Ugrinic, Luis Rioja ou Dani Raba que o digam. Já conhecemos as respetivas melhores versões. Neste momento, estas são uma miragem. Salvam-se poucos. Guido Rodríguez, César Tarrega, Pepelu, Javi Guerra ou Diego López também podem dar mais. Para já, Sato é uma lufada de ar fresco.

Ron Gourlay defende o seu projeto desportivo com o facto de ter ficado em nono lugar da última edição da La Liga, a dois pontos da qualificação para as provas europeias. Esquece-se de que se tratou de uma edição atípica e de que ficou a apenas sete pontos de uma despromoção.

Sato Valência
Fonte: Valência

Esse nono posto é altamente enganoso. Real Sociedad, Espanyol, Athletic ou Deportivo Alavés ficaram atrás e contam com um projeto desportivo com muito mais bases que o do Valência de Ron Gourlay. Para fechar este capítulo, recordar (e contar para quem não se apercebeu) o que aconteceu com José Luis Gayá, capitão de equipa e símbolo do clube (pese embora tudo o que sucedeu na última década, nunca deixou o barco). Foi-lhe apresentada uma proposta de renovação com uma redução salarial de 80%. Um ultraje, que pode mesmo ser visto como uma ofensa tendo em conta a qualidade de atletas que têm sido contratados pela estrutura para ocupar espaço salarial.

Quem também tem a sua imagem esgotada é Carlos Corberán. O plantel do Valência é desequilibrado, tem defeitos. Porém, as exibições são para lá de pobres. A separação entre equipa técnica e jogadores é total. Jorge Alarcón, treinador adjunto do clube, republicou um post no Twitter a criticar Hugo Duro, um membro influente do clube. Até se podia tratar do pior elemento do elenco. Está errado.

A direção deu-lhe mais três jogos de margem (até à paragem de seleções) para reverter a situação, mas isto vai além de um treinador com falta de qualidade. É uma cisão que não se pode reverter, por muito que Carlos Corberán tenha apresentado virtudes em alguns jogos. O técnico tem esperança, mas estamos a um nível das bancadas apresentarem-lhe lençóis brancos, uma vez que já está cheia de lenços. O departamento médico também é um alvo de críticas, devido às dezenas de lesões existentes nas últimas semanas. Um exemplo: Diego López, que se arriscar a uma terceira opção ao joelho.

Pablo Maffeo Valência
Fonte: Valência

A Meriton é um grande vírus que é quase impossível de abandonar o Mestalla. Há apenas uma réstia de esperança; o Nou Mestalla. Um estádio completamente desnecessário, mas que corre o risco de ser a solução para os adeptos. A propriedade quer ter receita, não lhe importa o estado do Valência. O novo recinto poderá trazer mais ingressos, levando a que Peter Lim fique satisfeito o suficiente para considerar uma venda. O singapuriano é odiado e sabe disso. Todavia, os negócios nos quais está envolvido devem gerar-lhe lucro. A cabeça de um empresário funciona assim.  

Concebamos uma mudança de dono. O que será o Valência? Um histórico totalmente destruído. Desabituado de lutar pelo top 3, sendo alvo de troça dos rivais. Com uma formação destruída, uma equipa B estagnada na Segunda RFEF. Paterna não pode estar sempre a salvar a instituição. Não são formados Javis Guerras ou Diegos López todos os anos. Além disso, Carlos Corberán não é um técnico que se dedique ao trabalho com os jovens. Iker Córdoba poderia ser titular facilmente devido às lesões e o técnico preferiu adaptar Pepelu e Arnau Martínez. David Otorbi soma minutos porque não há mais ninguém para jogar a extremo.

Caberá ao adepto do Valência sofrer. Não se aguardam textos sobre ‘milagres’, análises de uma recuperação fantástica. O clube já ‘gastou as suas balas’ e corre um sério risco de ser despromovido à La Liga 2. Pelo que vimos nos últimos anos, tal ‘tragédia’ poderia servir para um novo recomeço, mas de preferência com Peter Lim longe do Mestalla. Um grupo de trabalho que tem de se voltar a unir para cumprir os objetivos mínimos. É necessário aplicar o básico, já que o estado de bagunça é total.

Quem assistiu ao Valência 0-5 Barcelona não viu apenas um recital de Raphinha ou de Fermín López. Viu uma autêntica bomba relógio, uma guerra que não é de trincheiras. Assistiu ao estado ao qual chegou o conjunto ché. Sorte daqueles que não são adeptos deste histórico espanhol. A recuperação, se for possível, promete ser dura e todos serão bem-vindos a ajudar. Quem se voluntaria para a causa?

Histórico do Valência
Fonte: Valência

Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

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