2 da manhã, noite de São João. Entre manjericos e martelos a cidade do Porto aproveitava a festa que entrava pela noite dentro para ir espreitando, com mais ou menos atenção, o que se passava à mesma hora, mas num fuso horário totalmente diferente. Se na cidade Invicta se espalhavam sorrisos boémios, a muitos quilómetros de distância multiplicavam-se as caras de desalento e frustração. O FC Porto empatava por 4-4 diante do Al Ahly e era eliminado do Mundial de Clubes sem vitórias conquistadas e com mais um prego no caixão de uma temporada particularmente infeliz.
Wessam Abu Ali, avançado palestiniano que entrou no imaginário de vilões do FC Porto, expôs as feridas de um Dragão latejante e nas ruas da amargura. Menos de um ano depois, o momento é totalmente diferente e não é preciso nenhum santo para encher as ruas. Não é preciso celebrar o São João nem abrir caminho pelas multidões para arranjar um espaço suficiente para o bailarico. Basta um cachecol azul e branco, uma camisola com o emblema do FC Porto e um cântico a ecoar, não entredentes, mas com as cordas vocais bem amplificadas: o FC Porto é campeão.
Num ano tudo muda, mas poucos podiam perspetivar que tanto pudesse mudar na vida azul e branca para um desfecho de época tão positivo. Ainda assim, se a premonição poderia ser difícil de projetar, o resultado não é assim tão complicado de explicar nem o porquê de o FC Porto ter sido campeão. E tamanha claridade nas explicações é, porventura, o maior elogio que se pode fazer à época azul e branca.


A principal razão passa pela coordenação clara entre Francesco Farioli, treinador que rendeu Martín Anselmi depois da hecatombe transatlântica, e toda a estrutura. Há a sensação, de fora, de que André Villas-Boas confiou muito mais no italiano do que em Vítor Bruno ou Martín Anselmi em tempos. Apesar da brevidade da carreira de Francesco Farioli, antigo adjunto de Roberto De Zerbi e estudioso do jogo, o antigo treinador de Ajax e Nice (para lá das aventuras iniciais na Turquia) já tinha apresentado provas de trabalho feito.
De resto, apesar do fantasma andar a pairar, o fenómeno Ajax era irrepetível em qualquer cenário exceto no único que conjugava todos os mais sádicos deuses do futebol. Primeiramente, porque o trabalho do italiano nos Países Baixos, numa análise capaz de ir além das últimas jornadas, é em tudo assinalável. Faltassem mais provas, é ver por onde anda o gigante neerlandês nesta temporada. Depois, porque há, no plantel do FC Porto, provas de qualidade individual e coletiva e referências no balneário que não existiam pelas terras neerlandesas, onde o medo, a ansiedade e a desconfiança começaram algures a reinar.
Afastado o fantasma, mais exterior que interior ao FC Porto, uma visão sobre o plantel e sobre a construção da equipa deixava antever uma época positiva. Depois de um ano cujo mercado prometeu tudo e entregou quase nada, desta feita a coordenação ideias da estrutura + necessidades do treinador para a equipa funcionou praticamente na perfeição.


Francesco Farioli queria pulmão, altura, capacidade atlética e de trabalho pela equipa. Como quem não quer a coisa, chegaram, para a titularidade, Jan Bednarek e Jakub Kiwior, uma dupla de centrais da Premier League, Alberto Costa num negócio que enviou um desacreditado João Mário para Itália, Victor Froholdt do Norte da Europa e Borja Sainz. Para o banco, Francesco Farioli teve dedo claro na chegada de Pablo Rosario, antigo pupilo do Nice, e Luuk de Jong, que de inimigo se fez amigo do italiano. No verão, apareceu ainda Dominik Prpic.
As apostas no mercado eram claras: o FC Porto ia ganhar metros, ganhar força e ganhar pulmão em campo. Se quando apareceu, Francesco Farioli se confundia com os românticos estudiosos da posse de bola, da construção curta e da capacidade de brincar com o adversário, o treinador dos dragões chegou ao FC Porto numa versão mais maturada, mantendo uma identidade clara, mas dando mais valor ao controlo e à fisicalidade. E foi este o guião da época do FC Porto.
O FC Porto não fez uma quantidade tal de jogos exuberantes para encantar Portugal e o mundo, mas fez muitas coisas muito bem feitas em campo. Foram poucos os jogos em que o plano de Francesco Farioli se revelou insuficiente ou foi claramente ultrapassado. De resto, há também mérito na forma como a construção da ideia de jogo se foi desenvolvendo, mantendo a base criada durante a pré-época e que torna o FC Porto de 2025/26 uma equipa de autor.


Um 4-3-3 base com os extremos abertos, de fora para dentro, os laterais baixos para atrair a pressão e canais de escoamento bem definidos. O 6 era, quase sempre, o homem livre que o FC Porto queria descobrir para ver de frente o jogo e acelerar. Quando estava complicado, o volume de jogo perto da área adversária permitiria uma oportunidade de visar a baliza ou de procurar o cruzamento para Samu Aghehowa. Se não valia em jogo corrido, a bola parada resolvia.
Ao longo da época, a base não se alterou de um ponto de vista substancial, mas para lá do crescimento individual de alguns jogadores e da chegada de outros, houve algumas nuances diferentes. Com o 6 cada vez mais pressionado, percebendo os adversários que não lhe podiam dar espaço, os médios ganharam abrangência. Os laterais, inicialmente mais presos em posições mais baixas, foram ganhando amplitude e profundidade, especialmente no caso de Alberto Costa, e capacidade de projeção de trás para a frente ou de maior diversidade de movimentos, se falarmos de Martim Fernandes. O ponta de lança deixou também de ser usado como destino e passou a ser chave para enquadrar as chegadas dos médios, a romper de trás como terceiro homem.
Em janeiro, o FC Porto ganhou novas armas. Se Luuk de Jong, a quem se projetava um papel interessante, particularmente em jogos de maior exigência técnica, se lesionou, e Samu Aghehowa se viria a lesionar, o FC Porto voltou a fazer uso da rede de contactos de Francesco Farioli e contratou Terem Moffi. Para a rotação na defesa e para a voz no balneário, o FC Porto fez regressar Thiago Silva. Mas os mais importantes, estavam por outras bandas.


Em janeiro, o FC Porto sabia que estava bem encaminhado para o título e decidiu apostar tudo nessa possibilidade. Se Victor Froholdt precisava de descansar mais e de um substituto, chegou Seko Fofana, sem espaço em França e com os recursos físicos e técnicos – acima de tudo estes – para o lugar. Quando a principal lacuna do FC Porto se acentuava na falta de criatividade a partir de posições adiantadas, Oskar Pietuszewski chegou para atenuar o futuro e para marcar o presente. Entrou com tudo para o lado esquerdo do ataque azul e branco e trouxe a irreverência no 1×1 que o Dragão gritava por.
Há, na época do FC Porto, nomes fundamentais. Diogo Costa subiu o nível e, em praticamente todos os jogos, somou uma defesa importante. Nas margens mínimas das vitórias, há uma assinatura bastante clara do capitão. Com bola, quer a iniciar saídas, quer a colocar na frente, foi fundamental. Os polacos no centro da defesa tornaram o setor mais debilitado no mais preponderante do FC Porto. Jan Bednarek chegou com muitas dúvidas e com um ponto de interrogação face às debilidades que a Premier League havia revelado, mas num cenário menos exigente em termos de movimentos, vendo o jogo de frente e com avançados menos completos em comparação a Inglaterra, pegou de estaca. Ao seu lado, também contundente nos duelos, mas com outra leveza no andar e outros argumentos no pé esquerdo, Jakub Kiwior impôs-se facilmente. Continua a ser curioso pensar nas artimanhas de André Villas-Boas para convencer o Arsenal a libertar o polaco tão facilmente.
Mais à frente, outro dos esteios da temporada: Victor Froholdt, indubitavelmente no topo na lista de jogadores mais influentes na época. No lugar dos pulmões tem uma espécie de bateria com energia praticamente interminável, que lhe permite recuar metros para travar transições e, com bola, chegar perto da área para finalizar. Com o avançar da época, foi-se soltando e demonstrando mais recursos técnicos no momento ofensivo – passe, chegada, remate – e defensivo – desarme, interceção e posicionamento.


Numa segunda prateleira de influência, é possível destacar os dois laterais direitos, Alberto Costa mais possante e físico, Martim Fernandes mais técnico e criativo, foram dando coisas diferentes à equipa do FC Porto. Alan Varela cresceu em influência no meio-campo e, com momentos e fases diferentes ao longo da época, assumiu um papel relevante na equipa. Gabri Veiga, em crescendo durante a temporada, ganhou influência na equipa portista, mais forte na chegada, mais contundente em construção e com peso na bola parada. Pepê, sem um brilhantismo desmedido, é um dos rostos da versão operário que Francesco Farioli quer que a equipa seja. Joga um pouco por todo o lado, oferece-se no momento defensivo e corre pela equipa. Deu mais ofensivamente, a nível combinativo e de definição, que Borja Sainz. Por fim, Samu Aghehowa, enquanto a lesão não lhe mudou os planos, fez uma temporada de destaque. Começou com uma névoa que trazia de Anselmi, que o obrigava a tocar na bola mais vezes fora da área que dentro dela, mas Francesco Farioli conseguiu um equilíbrio. A crueldade do futebol chamou uma lesão quando, para além dos muitos golos, vinha cada vez com maior influência como referência e enquadrador de ataques.
A época do FC Porto é marcada pelas duas equipas e pela rotatividade imposta por Francesco Farioli, qual gestor, a rodar a equipa como se o futebol fosse matemática. Nesta rotação, é de Pablo Rosario o destaque. O médio chegou sem grande destaque, mas chamou para si os holofotes em muitas ocasiões. Se é verdade que a polivalência é destacável, não pode incidir apenas nessa característica a qualidade do médio. Principalmente a partir desta posição, é capaz de dar outro perfume ao jogo azul e branco, metendo bolas desde trás e dando criatividade ao jogo. Foi, como solução para 30 ou 60 minutos, que Rodrigo Mora foi enquadrado na época do FC Porto, naquele que é um dos grandes pontos de interrogação sobre o futuro. Estará o criativo apenas talhado a uma rotação como 8, num papel que puxa muito pelas suas lacunas e inibe as suas qualidades? Não dá para prever, tal como não dava para prever o desenvolvimento de Zaidu, que de patinho feio, tornou-se numa espécie de divindade para os adeptos. Com uma pequena diferença: ao jogador meme, juntou-se o jogador memorável pelas arrancadas e definição. Também William Gomes, com golos mágicos, Borja Sainz, mais pelo compromisso que pela intencionalidade ou Deniz Gul, que de terceira opção a crescer se viu atirado aos leões merecem o destaque, como Francisco Moura, apesar do fim de época tremelicante o merece pelos primeiros vezes.


A gestão do plantel e a aposta fulcral no campeonato ajudaram o FC Porto a ser competente internamente. Com o endurecimento do calendário, há ainda uma zona cinzenta por descobrir no que concerne à construção de plantéis e à gestão de minutos. Resistindo à tentação de achar que há apenas uma fórmula certa ou perfeita, a calculadora de Francesco Farioli foi decisiva para, depois de um mês de fevereiro onde a sensação de meio-gás chegou a aparecer, a equipa dar resposta fisicamente na fase mais complicada. Março dissipou quaisquer dúvidas sobre a candidatura ao título.
A época foi dura para o FC Porto. O que se passou dentro de campo, ajudou a amenizar a dor profunda que as perdas de Jorge Costa, muito próximo da equipa técnica e da equipa, e de Pinto da Costa, uma instituição que se confunde com o FC Porto e que se despediu na última temporada, mas ainda bem presente na memória, trouxeram. Também eles serão lembrados por adeptos e pela equipa azul e branca nestas semanas.
O título antecipado permite momentos de celebração longos e profundos e antecipa duas grandes festas. O momento não convida à reflexão, embora os sábios antigos garantam que trabalho é trabalho e conhaque é conhaque. A questão central prende-se: e quando é o trabalho que abre as alas para o conhaque? Perguntem ao FC Porto, é melhor. Assim se celebra um campeonato.



