A história de todas as nações fica marcada por altos e baixos. Olhando aos grandes impérios, analisamos que existe um momento de apogeu, seguido de uma queda, que não é imediata. Ao mesmo tempo, um novo protagonista surge no domínio global. Foi o que aconteceu com Portugal, Espanha, Países Baixos ou o Reino Unido. Vivemos um período de transição de liderança mundial dos Estados Unidos da América para a China (se é que a mesma já não ocorreu).
Certos países já estiveram em lugares de destaque, ditando a lei em regiões sem fim à vista, com líderes a deterem o poder totalitário. Contudo, a ‘fama’ não dura para sempre e as crises aparecem ciclicamente. Nicolau I, czar da Rússia, foi o autor de uma das expressões mais curiosas relativamente a este tema, acusando o Império Otomano de ser o ‘doente da Europa’. E, de facto, a nação vivia uma crise socioeconómica sem precedentes, com várias regiões a procurarem a sua independência. Os séculos de crescimento tinham ficado no passado e o Império Otomano não era um protagonista.
Uma das consequências da Primeira Guerra Mundial passou pelo fim destes ‘doentes da Europa’. Império Otomano e Império Austro-húngaro chegaram ao seu final, desenhando-se uma nova geografia no continente, que não acabou com as tensões existentes.


Este fenómeno de ciclos também pode ser inserido no futebol. Trata-se mesmo de um bom exercício para entendermos quem está no domínio e quem se encontra numa quebra clara, colocando o rótulo de ‘homem doente’ em várias equipas espalhadas pelo mundo. Em Espanha, 2025/26 apresentou-nos uma série de projetos que estão em crise, quando já ocuparam um lugar de protagonistas dentro do desporto rei, ainda que longe de Barcelona, Real Madrid, Atlético Madrid. Há três casos ilustrativos:
- Girona
- Mallorca
- Osasuna
As formações dos Países Catalães foram despromovidas. Os navarros ficaram a bater à porta, rezando para serem bafejados pela sorte até ao último minuto. Nenhum emblema desta lista era colocado como favorito à despromoção, embora se admitisse que o seu melhor momento tinha passado. O caso dos catalães é mesmo o mais gritante, dado o seu passado recente.
Os comandados por Míchel finalizaram a La Liga 2023/24 no terceiro lugar, conseguindo uma qualificação para a Champions League e a entrada de um capital importantes nas contas bancárias. A instituição que faz parte do City Group não conseguiu estabilizar-se sequer na primeira metade da tabela, acusando a pressão de ter de jogar duas vezes por semana na primeira metade da época. A maioria das contratações tampouco funcionara, apesar dos 50 milhões de euros investidos. As saídas de Aleix García, Savinho ou Artem Dovbyk não foram compensadas da melhor maneira, apesar das compras de Yáser Asprilla, Ladislav Krejci, Abel Ruiz ou Bojan Miovski. O 16.º posto de 2024/25 tinha sido o aviso de que Quique Cárcel e Míchel teriam de mudar algo. Caso contrário, o futuro seria negro.


O Girona voltou a realizar alguns investimentos, ainda que não com a mesma força. De fora, aparentava que podia pelo menos ser uma temporada tranquila para a turma do Montilivi. Bryan Gil, Azzedine Ounahi (o melhor da equipa, com alguma distância), Vladyslav Vanat, Axel Witsel, Thomas Lemar entre outros, eram atletas com provas dadas. Fran Beltrán chegou no inverno para dar outra pujança ao meio campo. Marc-André Ter Stegen também viajou para norte, mas as lesões ‘tramaram-no’. Nem com as saídas de Ladislav Krejci, Miguel Gutiérrez e Yangel Herrera criou-se uma grande aflição.
Contudo, mais do que uma crise de momento, a situação negativa do Girona é do foro institucional, precisava quase de uma mudança a 100% e um recomeço. O começo de época foi terrível e o final penoso. Pelo meio, laivos de esperança. Míchel não conseguiu dar a volta à situação e passou de herói a vilão. Em maio, os blanquivermells passaram a ser uma equipa de La Liga 2, dando um tropeção na sua evolução enquanto clube e voltando a ser a terceira força da Catalunha.
Quem fez companhia ao Girona na zona de despromoção foi o Mallorca (além do Real Oviedo, que cedo se percebeu que estava condenado). Tal como a formação do Montilivi, os insulares tinham atingido um momento de auge não há tanto tempo assim. Em 2024/25, a equipa chegou à final da Taça do Rei, perdida nas grandes penalidades para o Athletic, numa despedida quase perfeita de Javier Aguirre. No verão de 2025 chegou um novo homem ao leme. Jagoba Arrasate vinha com a missão de começar um novo ciclo, depois de ter deixado uma imagem de excelência no Osasuna. Ao deixar o El Sadar, o basco estaria em busca de um desafio mais exigente, de outro patamar, mas deu um passo ao lado na carreira. O décimo lugar obtido em 2024/25 está longe de ser terrível, além de que a participação na Supertaça de Espanha deu uma notoriedade mundial aos barralets.


Contudo, o ambiente que se vivia no Son Moix estava longe de ser o melhor. Não era praticado um futebol entusiasmante, mas houve um particular interesse no acompanhamento do projeto depois das contratações de Pablo Torre e Jan Virgili ao Barcelona quase nove milhões de euros. As saídas de Greif e Copete não pareciam fatais (a substituição do defesa por Kumbulla foi uma desgraça, vista aos dias de hoje). Tudo apontava a uma época tranquila. Porém, em setembro de 2025 viu-se a verdadeira face de um projeto que estava podre por dentro. O balneário vivia um clima de tensão, com o experiente Dani Rodríguez a vir-se queixar a público por ter sido ultrapassado por Jan Virgili. O experiente extremo, um histórico da instituição, tinha sido ultrapassado pelo rookie. Uma história que já vimos tantas vezes e que raramente acaba bem para o mais velho. Jagoba Arrasate não contava com o apoio de um dos líderes do plantel e isso custou caro. Nenhum deles acabou a época nas Baleares.
Dani Rodríguez foi para o Leganés em janeiro, onde batalhou para que os madrilenos não fossem despromovidos à Primera RFEF. Jagoba Arrasate acabou mesmo demitido em fevereiro, numa fase em que o fantasma de uma eventual despromoção pairava no ar. Martín Demichelis deu ares da sua graça, mas não conseguiu evitar a descida. O Mallorca foi do céu ao inverno em dois anos. Porém, neste caso, o plantel era muito desequilibrado. Se Vedat Muriqi (segundo melhor marcador da La Liga), Samu Costa ou Jan Virgili são jogadores para outros patamares, existiam outas peças que ficaram aquém do pedido (Marash Kumbulla à cabeça). Ao contrário do Girona, Pablo Ortells, ainda que saiba que vai perder os destaques, terá uma base para trabalhar e uma equipa técnica definida. Martín Demichelis é para continuar. Só o facto de o treinador estar confirmado, já dá um outro balanço aos baleares para o que vem aí de 2026/27, onde terão de lutar obrigatoriamente pela subida de divisão.


Voltando para a Espanha Continental, o Osasuna é aos dias de hoje o ‘doente’ do futebol castelhano, alcançando a manutenção por muito pouco em 2025/26. Com Jagoba Arrasate, a formação de Pamplona conseguiu fixar-se como um ‘cliente habitual’ dos lugares de meio de tabela, permitindo-se lutar pelo acesso às provas europeias, olhando mais vezes para a frente do que para trás. A saída do basco, deu a entender que o projeto montado por Braulio Vázquez era aquele, o que estava longe de lançar os alarmes. O nome de Vicente Moreno não conseguiu entusiasmar ninguém, mas o nono lugar alcançado em 2024/25 provou que a missão foi cumprida.
A direção desportiva cedo confirmou que estava em busca de um novo técnico e viu um dos treinadores da moda deixar-se encantar pelo Reino de Navarra. Alessio Lisci guiou o Mirandés aos playoffs de subida, quando o objetivo da turma de Anduva era a manutenção, com um plantel recheado de cedidos, como habitual. O italiano trazia uma proposta de bom futebol que convenceu os adeptos do Osasuna e a estrutura. Fazendo uma retrospetiva, podemos concluir que aquela equipa do Mirandés tinha nomes brutais, inacreditáveis para aquele patamar e que grande parte do sucesso se devia aos mesmos e não a quem os liderava.


Víctor Muñoz foi gradualmente transformando-se no protagonista do plantel, o que o levou a ser convocado para o Mundial 2026. O Osasuna tem uma base montada e muito clara: Herrera, Boyomo, Catena, Torró, Moncayola, Aimar, Rubén García e Ante Budimir, além do citado Víctor Muñoz.
Contudo, parte destes jogadores não logrou evoluir mais, entrando inclusivamente em regressão. É uma elite que necessita de ser renovada. Alguns adeptos nas redes sociais descrevem que o Osasuna passou de ser um clube exemplo e humilde, a uma instituição com uma estrutura ‘snob’, sem grandes justificações para tal. O 17.º lugar desta temporada é uma mensagem de alerta (cinco derrotas seguidas nas últimas cinco jornadas). São necessárias mudanças profundas, vender jogadores que têm estatuto de estrela, mas que não podem ficar mais tempo no El Sadar (Jesús Areso saiu no timing ideal para os rojillos). Porém, todo o processo já está atrasado. À data a que se escreve este artigo, os espanhóis ainda não têm treinador. Carles Martínez foi para o Bayer Leverkusen, Imanol Alguacil não quer assinar, José Bordalás preferiu ficar no Getafe. Ramis passou a ser o grande candidato. O tarragonês guiou o Burgos à posição de surpresa da La Liga 2, falhando por pouco o playoff de subida, mas poucos esperavam que a sua saída do El Plantío seria para um emblema da La Liga.
Quem for orientar o Osasuna sabe perfeitamente que não é a primeira nem a segunda escolha da estrutura. E ter esse rótulo é passar por uma das piores posições no futebol e começando a época já com a desconfiança dos adeptos. A ‘aposta’ dos próprios dirigentes na descida do clube também terá de deixar em alerta os aficionados.


O Osasuna fez um seguro de mais de um milhão de euros em caso de despromoção em 2025/26, o que faria com que recebesse seis milhões de euros. Uma situação 100% legal, mas que mereceu críticas. Não se confiava a 100% na manutenção? Além de que os navarros perderam a verba que investiram. Certo é que passou a ser plenamente normal colocar a equipa nos candidatos à descida para 2026/27, após uma temporada longe de impressionar.
A La Liga também nos traz os casos de Valência e Sevilha, históricos fundamentais para perceber a evolução do desporto rei no país vizinho, que estão num momento negativo, provocado pelas direções. Não sabemos se as instituições serão candidatas à Europa ou à despromoção, mas a tendência é desiludirem. O contrário, deixaria os próprios adeptos surpreendidos. No entanto, são casos distintos de Osasuna, Girona e Mallorca. Não houve um apogeu recente, estão mergulhados numa crise.
As despromoções da última época (exceto a do Real Oviedo) deixaram um alerta às restantes equipas. A manutenção esteve ‘cara’, nos 42 pontos, e apenas um dos promovidos desceu. Ninguém estará a olhar para o Racing Santander e Deportivo de La Coruña (não se conhece ainda o terceiro promovido) como os ‘patinhos feios’ da prova, com uma La Liga recheada de históricos. Todos os anos o futebol europeu traz-nos histórias bonitas como a do Bodo/Glimt, a do Thun ou as temporadas marcantes de Bournemouth e Friburgo. Contudo, também existem exemplos a não seguir e que merecem uma reflexão, para se entender o que falhou.



