FRIBURGO NA BRISGÓVIA, ALEMANHA- Não bastou a ambição, ainda que a esperança tenha durado até ao apito final de Davide Massa. O Braga ficou pelo caminho na Europa League, ao cair aos pés do Friburgo por 3-1, na segunda-mão das meias-finais da prova europeia, não aproveitando a vantagem construída na Pedreira. Um jogo condicionado praticamente desde o primeiro minuto, impedindo ver a estratégia inicial de Carlos Vicens em prática.
Os alemães são especialistas no contra-ataque e provocaram assim a primeira ferida no adversário. Jan-Niklas Beste, numa versão muito melhorada daquilo que apresentou no Benfica, só foi parado por Mario Dorgeles com falta e Davide Massa exibiu um vermelho, que marcou claramente tudo o que faltava da partida. O Braga perdeu o seu ala direito e Rodrigo Zalazar foi obrigado a baixar no terreno (durante o primeiro tempo), não se sentindo confortável. O Friburgo ganhou assim espaço para crescer, assumir a bola, explorar as bandas do terreno, com Lukas Kubler a aparecer no ataque, fazendo companhia a Beste pela direita. Já pela esquerda, Vicenzo Grifo partia para o meio, com Philipp Treu a conseguir uma série de cruzamentos com o pé direito.


Ainda assim, o lado esquerdo dos fuchs ia sendo travado por Víctor Gómez. Se o primeiro tento nasce de uma série de ressaltos que colocaram Lukas Kubler frente a frente com Lukas Hornicek, o segundo surgiu dos pés mágicos de Johan Manzambi. Percebeu-se porque é que deve ser vendido por algumas dezenas de milhões no mercado de verão. É diferenciado. O suíço foi colocado por Julian Schuster a médio ofensivo, quando habitualmente faz parte do duplo pivot, quando Yuito Suzuki está presente. Na teoria, o atleta substituiu o nipónico, mas na prática desempenhou tarefas diferentes.
Enquanto Suzuki deambula mais sobre as alas, como um falso 9, Johan Manzambi atuou mais de costas para a baliza e com um toque conseguia colocar a bola em Grifo ou em Beste. Além disso, também baixava no terreno quando necessário. O golo foi de belo efeito, sem grandes chances para Hornicek, mas há que se criticar a postura da defesa do Braga. Nenhum homem saiu à bola num lance em que era obrigatório tal movimento. Manzambi viu-se à vontade e colocou o Friburgo numa situação confortável: um 2-0, com o controlo do jogo. A verdade é que os germânicos poderiam inclusivamente ter chegado ao terceiro mais cedo, ainda na primeira parte. Todavia, só se voltou a fazer o gosto ao pé na segunda parte, neste caso, gosto à cabeça. Lukas Kubler, que não é um habitual titular, viveu provavelmente a melhor noite da sua carreira, com um bis. O alemão subiu ao terceiro andar e bateu toda a concorrência. Com 3-0, o Europa Park Stadion foi abaixo e os aficionados já estavam a pensar em Istambul.


O Braga foi à luta e tentou assumir as despesas do jogo. A partir dos 70’, a equipa assumiu o controlo da partida, empurrando o Friburgo para a sua grande área. Pau Víctor reduziu aos 79’ e gerou-se algum pânico. Os minhotos beneficiaram de uma série de cantos, mas Noah Atubolu disse presente, terminando com a ideia dos guerreiros de viajarem até Istambul.
Após o apito final de Davide Massa, o campo foi invadido por milhares de adeptos, que perceberam que o momento era histórico. Foi a consequência de uma alegria que estava a ser contida desde a expulsão de Mario Dorgeles. Os jogadores foram abraçados, tomados como heróis. Afinal, acabaram de entrar nos anais do Friburgo. Se do lado direito do relvado a festa era intensa, do lado esquerdo o cenário era distinto, embora o sentimento de orgulho também se manifestasse. Os 2500 adeptos do Braga aplaudiram os seus atletas, que defenderam o escudo até ao fim, mesmo reduzidos a 10 praticamente desde o começo. Carlos Vicens pediu raça, pediu para que sentissem o clube e eles responderam da melhor maneira. Alguns atletas acabaram no chão, devido ao esforço. Outros, a chorar de uma forma compulsiva. É uma eliminação que custa, mas que é difícil de ser criticada. O Friburgo foi superior, mostrou por que razão é tão elogiado no panorama internacional.
A noite promete ser longa nas ruas da grande cidade da Brisgóvia, já que assistimos a História, algo que não acontece muitas vezes. Vicenzo Grifo, depois de uma fidelidade que apresentou na sua carreira, merece capitanear uma instituição assim, com os valores corretos. O Braga vai em silêncio rumo a Estrasburgo, mas com o sentimento de dever cumprido.
Última nota para João Moutinho. Odiado por uns, adorado por outros, depende do lado da história em que estamos. Porém, aos 39 anos, é complicado encontrarmos jogadores com a sua capacidade, o seu esforço e resiliência. Muitas vezes era o primeiro homem a sair na pressão, levando os seus colegas a subirem no terreno. Noutras ocasiões, disputou duelos como se o último da sua carreira se tratasse. É o representante de Carlos Vicens dentro do terreno, o seu braço direito. Vai dar treinador.
O Braga pode retirar conclusões positivas desta caminhada, embora tenha falhado o sonho de estar em Istambul. Todavia, como Carlos Vicens referiu na conferência, os minhotos têm capacidade para lutar por este objetivo mais vezes, ganhando caule na Europa League. Dois projetos entusiasmantes enfrentaram-se no Europa Park Stadion e que seguramente ganharam seguidores durante a noite de quinta-feira.
A presença de Portugal na Europa em 2025/26 está fechada, num ano em que se gerou um relativo entusiasmo e em parte isso deve-se ao Braga. Para o ano há mais.
Bola na Rede na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: O Friburgo teve algum à vontade nos corredores, com o Braga a revelar algumas dificuldades em controlar os alemães na primeira parte. Como é que tentou que a equipa encurtasse o espaço detido pelos alemães?
Carlos Vicens: Falas do momento a partir do momento em que estávamos com 10, não? Porque 11 contra 11 não aconteceu isso. O que tentámos foi manter uma estrutura que nos permitisse estar juntos em tudo o que fizéssemos, desde o momento em que vemos o vermelho e que não era fora de jogo. Tentámos que o esforço de uma maneira ou outra nos permitisse que os jogadores chegassem aos sítios. Depois procurámos que o Rodrigo Zalazar se situasse à direita para intercambiar jogo com o Víctor Gómez e o Pau Víctor na esquerda porque o Zalazar levava menos tempo depois da lesão. O Pau Víctor tinha mais rodagem, digamos assim. Estava mais habituado a repetir esforços na última semana. Há muito dinamismo entre o Pau e o Rodrigo. Assim mantivemo-nos com a ideia de tentar, sempre que fosse possível, empurrar o Friburgo para trás. Obviamente que com 10 custa mais, mas conseguimos bastante. Mais coisas aconteciam em campo rival. Forçavas o jogo direto e tinhas que tentar a segunda bola. Quando não acontecia, tinha que correr para trás, para nos juntarmos outra vez. Acho que através disso gerámos muita incerteza no marcador, muito incómodo no rival. Foi isso que realmente que fez com que nos aproximássemos do marcador. O terceiro golo é uma bola parada, de um centro. Faz dano, mas a equipa nunca deixou de acreditar, sempre achou que havia opções. Tínhamos a mentalidade de marcar um golo para chegar ao prolongamento. Infelizmente, não aconteceu, mas tenho de agradecer aos rapazes pelo esforço. Temos de estar orgulhosos desta equipa.

