Portugal bateu o Chile por 2-1 num encontro particular, que levou a festa do futebol para o Estádio do Jamor, a casa do futebol luso. Milhares de pessoas deslocaram-se até Oeiras para dar força à seleção nacional, que realizou o primeiro particular de dois, antes do Mundial 2026. Uma vitória q.b., que deixou boas sensações, mas também algumas apreensões. Os sul americanos estão longe do que apresentaram em outras gerações.
Quando pensamos em Chile, o que nos vem à cabeça é Alexis Sánchez e Artur Vidal (além de Matías Fernández e Fernando Riera) e esta equipa está bem longe daquela que fazia capas na última década. É uma outra geração, mais fraca, num projeto em clara reconstrução. Roberto Martínez prometeu que ia utilizar várias peças e cumpriu. Do onze inicial, possivelmente a grande surpresa foi a colocação de Bernardo Silva em campo. No papel ao lado de Samu Costa. No relvado, um todo o terreno que até de líbero fez, aparecendo muitas vezes entre Rúben Dias e Renato Veiga para dar início à primeira fase de construção. A ideia, bonita de se ver, criou uma certa imagem de dependência no ex-Manchester City, algo que se deve dissipar com a integração dos médios do PSG.
Portugal pressionava alto e durante a primeira parte o Chile não conseguiu criar perigo, tentando sair quase sempre da mesma maneira, com Guillermo Maripán a lançar a bola para os extremos (Osorio e Maxi Gutiérez) e para o médio ofensivo (Agustín Arce), mas com a mesma a ser cortada pelos defesas lusos. A linha de quatro foi intransponível e permitiu apertar os sul americanos para a sua baliza. A seleção nacional usou e abusou do corredor esquerdo, com uma vertente muito mais ofensiva que o direito. Rafael Leão ficava com a linha, enquanto que João Cancelo pisava espaços centrais, embora o lateral esquerdo também pisasse os terrenos exteriores quando necessário. Basicamente, repetiu o que fez pelo Barcelona durante a última meia temporada.


Houve ações de destaque. A bola parada que resultou num cabeceamento de Rúben Dias e numa grande defesa de Lawrence Vigouroux, a boa combinação entre Cristiano Ronaldo e Rafael Leão que resultou numa bola ou poste ou até mesmo o golo anulado a Portugal, devido a fora de jogo. Até perto do intervalo, o jogo foi todo de Portugal, o que animou as bancadas. Apenas o guardião chileno impedia a abertura do marcador, o que augurava algo ainda melhor para a segunda parte.
No entanto, o pintor decidiu borrar a pintura e destruir a tela. Num momento de confusão, Rafael Leão agrediu um adversário e foi expulso (tal como Iván Román), passando a ser um 10×10. Uma situação completamente evitável num jogo particular, onde o objetivo é que os jogadores ganhem condição física e entrosamento. O extremo do AC Milan viveu uma época para esquecer, onde não conseguiu ser o protagonista que todos pediam, criando inclusivamente conflitos. Rafael Leão tinha tudo para ser um dos melhores jogadores do mundo, mas há atitudes incompreensíveis que fazem com que os tubarões europeus fiquem reticentes na hora de o contratar. A infantilidade que cometeu fez com que se tornasse no ‘medalha de lata’ do encontro. Roberto Martínez ainda saiu em defesa do seu atleta, mas pouco há a defender. O internacional português optou pela conduta agressiva e por alguns segundos pensou que estava num ringue de boxe e não num campo de futebol. Cabe à FIFA analisar e definir se Rafael Leão será suspenso por dois jogos, o que não seria injusto. Dentro das quatro linhas, o extremo esquerdo viu o jogo passar por si várias vezes e falhou uma série de decisões, mas no computo global estava a ser importante e a animar as bancadas com as suas arrancadas. Um processo a ser revisto pela equipa técnica. Certamente o selecionador não foi simpático dentro do balneário.
A segunda parte acabou por ser totalmente distinta. Portugal mudou peças, colocou-se em 4x2x2x1, com Bruno Fernandes e Rúben Neves no duplo pivot, Francisco Conceição e Pedro Neto a extremos e Gonçalo Guedes a avançado móvel. A partida ficou mais dividida e o Chile procurou o tento. Havia mais espaço para os dois lados e com um jogo mais aberto passou a existir mais indefinição. Não ‘estava no papo’. Porém, Rúben Neves deu um grande passe e Gonçalo Guedes só teve de finalizar, aos 59’. O jogador da Real Sociedad fez uma excelente temporada com a mesma missão na Real Sociedad. Não é um 9 fixo, totalmente o contrário, o que confunde os defesas (que estavam habituados às poucas movimentações de Cristiano Ronaldo) e cria inclusivamente espaços para os extremos. Neste caso, foi o próprio Guedes que conseguiu esse espaço, depois de uma boa bola do médio do Al Hilal. Porém, foram várias as vezes que Pedro Neto conseguiu fazer diagonais para o centro, aparecendo como um todo o terreno, tal como faz no Chelsea. Se isto seria possível num 11 contra 11. Nunca iremos saber, mas quem entrou na segunda parte conseguiu ganhar alguns pontos.


Bruno Fernandes aumentou a vantagem, aos 75’, com um remate de fora da área. O jogador do Manchester United passou para a base da jogada depois do intervalo e tinha perdido algum relevo. Todavia, quando se conseguia aproximar da zona de finalização, conseguia ser um perigo. Este foi um dos casos, onde conseguiu igualmente ter espaço. O médio é útil em todas as funções, mas é a 10 que consegue mostrar a sua melhor versão.
O Chile ainda procurou o tento de honra e aos 90+1’ Lucas Cepeda brilhou. O jogador do Elche conseguiu um pouco de espaço e Rúben Neves foi algo passivo na marcação, deixando o chileno com espaço para descobrir uma abertura para a baliza. Rui Silva tinha pouco a fazer e os sul americanos, pelo que fizeram na segunda parte e pela exibição de Lawrence Vigouroux mereceram o tento.
Nas bancadas, os adeptos das duas seleções souberam-se comportar, mesmo no momento de maior tensão. Ainda assim, deixar a nota que vários aficionados saíram do Jamor aos 60’, numa fase em que Cristiano Ronaldo não estava em campo (tampouco voltou para o banco). Num jogo que estava longe de ser decidido, percebeu-se que alguns aficionados só estavam nas bancadas para ver o atleta do Al Nassr, o que motivou críticas.


Uma última crítica para a Federação Portuguesa, a já habitual. É muito bonito organizar jogos no Estádio do Jamor, mas os acessos são terríveis e o recinto necessita de uma melhoria gigante. Vários adeptos demoraram mais de 40 minutos a poderem sair do recinto, quando na Luz ou em Alvalade quase que não existe tempo de espera. Uma obra do tempo da ditadura, que na teoria é a imagem do desporto luso, mas que merece uma reforma.
Portugal deixou boas vibrações no encontro frente ao Chile, principalmente pelo mostrado na primeira parte, onde soube dominar e ‘acorrentar’ o adversário à sua área. O jogo contra a Nigéria é o último teste antes da viagem para a América do Norte, onde se vai procurar ser tudo, menos Saltillo.



