Não temos futebol para ver e isso é frustrante, mas pode também ser uma boa oportunidade para refletir. Para ver jogos antigos e pensar naquilo que de bom e de mau se tem feito. Para os treinadores e para as equipas recomenda-se que se vejam os jogos mais recentes para tentar limar o seu jogo ao máximo, reconhecendo os erros e tentar arranjar maneira de os eliminar, ainda que não seja possível implementar novas ideias no treino.

Mas para os adeptos e amantes do futebol, sugiro outra coisa: rever jogos antigos de glória. Especialmente nesta altura em que o futebol português não vive grandes momentos – nenhum dos três grandes tem convencido esta época nem internamente nem na Europa – é bom lembrar que nem sempre foi assim. É bom lembrar que nós já nos batemos contra os melhores e que já saímos por cima. Temos inúmeros exemplos disso, conquistas internacionais, grandes percursos na Europa. Hoje não me irei debruçar sobre um dos títulos do FC Porto mas sim sobre um jogo que, na minha curta vida e memória, foi provavelmente o melhor que já vi. Falo de um FC Porto contra o Bayern de Munique no Dragão em 2015.

Admito, tive um enorme prazer a rever esse grande jogo. Ver o FC Porto fazer uma figura tão positiva num grande palco na Liga dos Campeões trouxe-me um sentimento que já há muito não sentia. Só por aquele ambiente do Dragão pré-jogo já se sentia algo especial.

Aqueles primeiros minutos do FC Porto são praticamente perfeitos. Alinhado num 4-3-3 que a defender funcionava num 4-1-4-1, os Dragões anularam completamente os bávaros enquanto que conseguiam ser uma ameaça muito forte ao setor defensivo dos alemães. A estratégia montada por Julen Lopetegui era clara. A sua equipa estava num bloco médio de pressão, não indo sempre na procura de condicionar os centrais, mas um bloco que era muito intenso quando acionava essa tal pressão. E havia claros comportamentos dos adversários que funcionavam como indicadores para os jogadores portistas lançarem-se como cães para cima dos jogadores do Bayern. Quando recebiam mal, quando recebiam de lado para o jogo, quando começavam a hesitar demasiado com a bola, Jackson e companhia pressionavam intensamente.

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E esta estratégia deu resultado instantaneamente. Ao minuto e 15 segundos, Jackson vê uma oportunidade de cair em cima de Xabi Alonso, depois de umas trocas de bola inconsequentes entre os centrais, rouba-lhe a bola e parte para cima de Neuer. Ainda até hoje não sei como é o que o guarda-redes não viu vermelho naquele lance. Dante nunca iria conseguir chegar ao colombiano depois de este ter tirado a bola do alcance do defensor das redes e Jackson iria marcar golo, disso não tenho dúvidas. Ainda assim, foi dado o penalti e Quaresma não desperdiçou. Foi também muito importante este golo cedo e este golo que provém exatamente daquilo que já disse, da estratégia tática da equipa. Isso foi fundamental para que os jogadores acreditassem naquilo que o treinador lhes tinha pedido para fazer e que continuassem a fazê-lo.

O jogo seguia e continuava nas mãos do FC Porto. Mais nos pés do Bayern, é certo, mas perfeitamente controlado pelos jogadores de azul e branco. Aqui destaco o fantástico trabalho que o trio do meio-campo fez o jogo inteiro mas especialmente nestes primeiros 25 minutos. Só era possível que este bloco médio-alto funcionasse se não houvesse linhas de passe óbvias dos centrais para os médios alemães, e tanto Oliver Torres como Herrera fizeram um trabalho brilhante neste aspeto. Cobriam muito bem as linhas de passe como também pressionavam com grande intensidade quando algum médio recebia a bola. Caso a bola entrasse mesmo no meio-campo portista, estava lá o terceiro elemento crucial, Casemiro, para limpar tudo. Com o seu habitual jogo algo agressivo, o médio brasileiro esteve muito bem no desarme e na cobertura do espaço entre a linha média e a linha defensiva.

Ao minuto 10’ surge o segundo momento de aproveitamento por parte dos Dragões. Dante recebe muito mal a bola e Quaresma, que estava já bem posicionado, arranca para cima do central. Rouba-lhe a bola com facilidade, parte para cima Neuer e, com toda a calma do mundo, dá um toquezinho com aquela trivela já tão característica para pôr a bola no fundo das redes. Estava feito o 2-0 e o Dragão estava ao rubro. Tudo estava a correr bem ao FC Porto. Houve algum demérito do Bayern que cometia bastantes erros, mas esses eram também de certa forma provocados pela forma como o Porto condicionava o seu jogo.

Mas para já só falei do jogo dos portistas sem bola, e a verdade é que não foi só por aí que a equipa mostrou a sua grandeza. Quando tinha a bola não se limitava a mandá-la para a frente na esperança que Jackson a segurasse e conseguisse sacar algo do nada. Não, os jogadores mantinham-se fiéis àquela que era a sua maneira de jogar e tentavam sair de forma apoiada e com critério. Claro, sentiam mais dificuldades do que nos jogos dito normais, mas manter a identidade era algo importante. Neste momento com bola, não posso deixar de destacar, mais uma vez, Oliver Torres. Que fantástico jogador. Uma perceção de ocupação de espaços que deixa muito jogadores de topo com inveja. Também tomava algumas decisões erradas e falhava alguns passes, mas era um privilégio ver a maneira como se movimentava em campo.

Ao minuto 28’ surge a primeira pedra no sapato. Sempre que o Bayern criava perigo era porque Casemiro saía momentaneamente da sua posição para ir cobrir outros espaços, deixando assim o tal espaço entre a linha média e defensiva. Neste lance, Boateng encontra-se na ala direita, quase como se de um extremo se tratasse. Quando recebe a bola, não tem nenhuma marcação específica e Casemiro, detetando o perigo, sai à pressão. Contudo, já foi tardia e o central consegue mesmo cruzar a bola para a área. E, sem a ajuda do trinco brasileiro, surge o espaço para Thiago aparecer a partir do meio-campo para finalizar com sucesso.

Mas diga-se uma coisa, o FC Porto deve ter aproveitado as celebrações do golo para tirar a pedra do sapato e de seguida apertá-lo de tal maneira a que não entrasse mais nada lá dentro. O golo sofrido não parece ter afetado em nada os jogadores portistas porque estes continuaram com a mesma garra e coragem de jogar de pé para pé contra um dos maiores clubes europeus, liderado na altura por um dos melhores treinadores de sempre, Pep Guardiola.

Os minutos iam passando e o FC Porto continuava bem. O Bayern simplesmente não conseguia criar grandes lances de perigo. O 4-4-2 losango que apresentava não conseguia importunar em nada os mandados de Lopetegui. Faltava alguma largura ao jogo dos bávaros e o jogo pelo meio-campo estava muito bem tapado pelo já mencionado trio dos Dragões. O FC Porto seguia muito junto, muito coeso e muito dentro da ideia do seu treinador. Era impressionante a pressão que os da casa conseguiam imprimir sempre que a bola entrava no seu meio-campo ou quando esta entrava nos alas alemães. Não havia por onde fugir.

O FC Porto manteve-se de tal forma confortável no que restou do jogo que até foram mesmo os Dragões a conseguir marcar mais um golo. Numa jogada que nem foi muito característica do jogo portista, Alex Sandro lança uma bola para a frente na zona de Jackson, Boateng parece ter a bola controlada no ar mas consegue fazer a proeza de falhar por completo o cabeceamento. Jackson, sempre muito atento, consegue dominar muito bem a bola para o espaço, dá mais um toque para tirar Neuer da frente e finaliza com muita classe. Estava feito o 3-1 e estava definido o resultado final.

O FC Porto foi obrigado a baixar um pouco as linhas nos últimos minutos com o cansar das pernas mas foi sempre uma equipa muito intensa, muito concentrada e muito corajosa. E foram esses mesmos valores que levaram a que triunfasse perante uma das melhores equipas do mundo.

E este jogo obrigou-me necessariamente a refletir sobre o estado atual das equipas portuguesas e sobre o FC Porto. Porque é verdade que esta equipa de 2014/2015 tinha mais alguma qualidade com certas individualidades que hoje não tem. Jackson era um ponta-de-lança incrível, os dois laterais tinham imensa qualidade, Casemiro ia já mostrando o porquê de se ter tornado no trinco titular do Real Madrid. Mas também é facto que muitos destes jogadores ou não serviram ou não foram bem aproveitados, quer desportiva como financeiramente. Jogadores como Maicon, Martins Indi foram dispensados (e bem, provavelmente) por não terem qualidade suficiente, Oliver não servia para o treinador, Brahimi e Herrera saíram a custo zero. Então porque é que hoje não é possível fazer jogos como estes? Esta pergunta por si só já dava pano para muitos artigos mas deixo aqui essa necessidade de reflexão sobre tudo o que envolve, neste caso, o FC Porto mas o mesmo serve para os todos os outros. Podemos e devemos pedir e exigir mais das nossas equipas portuguesas.

 

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