Estávamos em 2011 e o Campeonato Brasileiro estava nesse ano, mais do que nunca, recheado de estrelas oriundas dos vários Estados do Brasil. O melhor campeonato do mundo fora da Europa estava num nível como raramente se tinha visto e os focos de interesse eram muitos.

O dia 27 de julho representaria o expoente máximo desses mesmos focos de interesse, particularmente no jogo entre o Santos Futebol Clube e o Clube de Regatas do Flamengo, a contar para a 12.ª jornada do campeonato. Este era um desafio que à partida já tinha tudo para ser excecional mas cujo guião ditou que ficaria marcado, até à data, como o melhor jogo do século XXI para muitos fãs.

Embora estas não fossem duas equipas de topo nesse ano, o conjunto de jogadores existente em cada um dos lados prometia que este seria um jogo merecedor da atenção de qualquer adepto de qualquer equipa do mundo. E embora uma equipa se constitua por todos os jogadores que a representam, havia, neste caso, especial foco para dois deles, um de cada lado. Na equipa da casa brilhava Neymar Jr., o menino de 19 anos que andava nas bocas do mundo pela qualidade técnica que demonstrava. Pelos visitantes atuava Ronaldinho Gaúcho, o mágico que com 31 anos continuava a espalhar classe pelos relvados de todo o mundo. Era um choque de gerações que, naquele dia, tinha tudo para correr bem.

O jogo começou e rapidamente se confirmaram todas as expetativas de espetáculo, quando aos cinco minutos Borges fez o primeiro da partida a contar para a equipa da casa. Passados poucos minutos, aos 16, o avançado brasileiro fazia o bis e colocava o placard nos 2-0. Embora o resultado fosse já desnivelado, a equipa forasteira continuava as suas investidas, e ao minuto 20, Deivid proporcionou uma das maiores falhas de sempre quando, quase em cima da linha de golo, conseguiu mandar a bola para fora. Era o desespero dos rubro-negros que passados apenas seis minutos viram Neymar Jr. colocar, de novo, a bola no fundo das redes, depois de um lance simplesmente genial que deixava todos de boca aberta.

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O resultado parecia já quase irrecuperável e o que se seguiu não cabia na imaginação nem dos mais sonhadores. Ora veja.

Aos 28 minutos, depois de uma falha da defensiva do Santos, Ronaldinho fazia o golo de honra, devolvendo assim a esperança àqueles que tinham mais fé. Mas a questão mudou, quando decorridos apenas mais quatro minutos, o “mengão” fazia o 3-2, proveniente da cabeça de Thiago Neves. Como é percetível, este era um jogo que dava para tudo e não faltou também o momento caricato. Depois de uma grande penalidade cometida sobre Neymar, Elano tentava uma “panenka” que foi facilmente defendida pelo guarda-redes do CR Flamengo, que ainda teve a audácia de gozar com o seu companheiro de profissão.

O jogo prosseguiu e foi na entrada para o intervalo que veio a redenção de Deivid. Depois de um pontapé de canto batido pelo mago, o avançado aparecia ao primeiro poste e restabelecia e igualdade no marcador. Estavam decorridos os primeiros 45 minutos e havia já seis golos.

A segunda parte teria de ser jogada ao nível da primeira e nesta altura já tudo parecia possível. A única certeza era a de que haveriam mais golos e a confirmação chegou logo aos 51 minutos, outra vez através de Neymar Jr. e outra vez com grande nível. Depois de tirar um adversário da frente com apenas um toque, encarou o guarda-redes e com um “chapéu” colocou a bola no fundo da baliza. Era o Santos FC que estava de novo na liderança.

Mas os vermelhos e pretos não se deixariam ficar. E quem mais poderia ser senão o líder e capitão, o mago Ronaldinho, a voltar a trazer esperança à sua equipa? Foi assim que aos 68 minutos de jogo, com um livre cobrado por baixo da barreira, o craque brasileiro restabelecia a igualdade e abria as portas para o que se viria a passar minutos mais tarde. Foi aos 81′ que o próprio se encarregou de colocar a bola na baliza do Santos FC, fazendo assim o hat-trick, confirmando a cambalhota no marcador e o resultado final.

Sim, foram nove golos, uma recuperação fantástica, o bis do menino que estava a nascer no mundo do futebol (um dos golos que lhe valeu o Prémio Puskas desse ano), o hat-trick de um dos melhores jogadores de todos os tempos e a cambalhota no marcador que valeu ao CR Flamengo os três pontos nesse jogo. Houve de tudo e atire a primeira pedra quem não gostaria que os jogos fossem todos assim. Que jogo fantástico!

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão