Sábado, dia 23 de novembro de 2019, o mundo conheceu uma das mais épicas finais de uma competição internacional de clubes de sempre. O estádio Monumental de Lima, no Perú, transformou-se no palco principal de um grande jogo de futebol, entre duas grandes equipas e conheceu o seu momento mais “Monumental” entre os minutos 89 e 92. Um verdadeiro golpe de teatro que terminou em euforia para uns e em tragédia para outros. Assim é o futebol, o verdadeiro futebol da paixão, da emoção, dos sentimentos à flor da pele. Assim é também o povo sul americano e quando estamos a falar de uma final entre um clube argentino e um clube brasileiro, o ambiente torna-se ainda mais especial.

O CA River Plate chegava com toda a confiança à final da Copa Libertadores. Os argentinos eram os detentores do troféu e estavam mais do que habituados a chegar ao jogo decisivo, tendo uma equipa habituada a ganhar e com um treinador, também ele, habituado a ganhar. Pela frente tinham todo o entusiasmo de um clube que não chegava a uma final da Libertadores desde 1981 onde, na altura, a equipa onde brilhava Zico conquistou a competição.

Os brasileiros chegavam com a ilusão oferecida por um treinador português, Jorge Jesus, que em muitos poucos meses de trabalho conseguiu fazer com que uma equipa até então completamente desacreditada, se transformasse num autêntico rolo compressor nas provas em que estava inserida. De facto, o CR Flamengo chegava à final de Lima tendo atropelado o Grémio FBPA por 5-0, num jogo fantástico no Maracanã. O que separava o Flamengo de Jesus da Libertadores era o River Plate, um adversário poderoso e que tinha uma forma de jogar muito difícil de bater, tal como a do próprio Flamengo. Esperava-se um confronto de estilos, um poder-a-poder, um verdadeiro clássico sul americano. Porém, ninguém adivinharia o que ia acontecer no jogo.

O Flamengo até começou o jogo por cima, fazendo a sua circulação habitual, entrando de forma a não permitir o River de sair do seu meio campo e tentando bloquear Enzo Pérez, jogador que Jesus conhece como ninguém e que era o grande farol da equipa argentina. Contudo, no primeiro assomo dos “Millionarios”, a bola entrou na baliza de Diego Alves. Num cruzamento atrasado, que à primeira vista não levava perigo, uma falha de comunicação entre Gerson e Willian Arão revelou-se fatal, pois a bola chegou a Borré, que disparou sem hipóteses para o guardião brasileiro.

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Estava feito o primeiro para o River e a partir daí o jogo transformou-se. O Flamengo sentiu o golo sofrido e embora nunca se tenha desmoronado, a verdade é que também nunca conseguiu assentar o seu jogo perante um River que não tinha qualquer problema em dar a iniciativa ao conjunto brasileiro. A equipa de Marcelo Gallardo tinha a lição muito bem estudada e todas as rotinas e dinâmicas do Flamengo não estavam a ser postas em prática, devido à intensidade da pressão argentina, que impedia os jogadores do Flamengo de pensarem e executarem com a qualidade habitual. Assim se chegou ao intervalo, um intervalo que o Flamengo precisava para voltar a acalmar, para assentar ideias, porque faltava toda uma parte para se jogar.

A verdade é que a segunda parte trouxe o primeiro lance de verdadeiro perigo para o Flamengo. Numa jogada individual, Bruno Henrique tentou assistir De Arrascaeta, que não acertou na bola. A bola sobrou para Gabriel Barbosa que rematou para um corte milagroso de De La Cruz. Na recarga, Everton Ribeiro rematou para uma grande defesa de Armani, evitando o empate.

Foi o primeiro lance em que o Flamengo se conseguiu soltar e jogar o seu futebol. Mas não estava fácil. O River continuava muito compacto a defender e as suas saídas para o ataque, principalmente pelo lado direito onde Ignacio Fernandez aproveitou uma má exibição de Felipe Luís para dar alguns calafrios à defesa do Flamengo. Porém, sentia-se que o Flamengo ganhava a bola com cada vez mais facilidade e que a linha de pressão do River era cada vez mais baixa, o que indiciava uma quebra física na equipa argentina.

Com um meio campo completamente reformulado pela entrada de Diego e pelo recuo de Everton Ribeiro, o Flamengo passou a contar com dois criativos a organizar todo o futebol ofensivo da equipa. E foi aos 89 minutos, quando muita gente se preparava para congratular o River Plate, que tudo mudou. Num arranque que à primeira vista parecia pouco prometedor de Bruno Henrique, pois encontrava-se sem linhas de passe, uma desmarcação genial de De Arrascaeta entre o central e o lateral direito do River foi percebido no momento certo por Bruno Henrique que, num passe de rutura, isolou o uruguaio, que num último esforço conseguiu colocar a bola ao segundo poste onde Gabriel Barbosa, que tinha passado o jogo inteiro despercebido, encostou para o empate.

Quando tudo parecia perdido, teve Gol de Gabigol. O golo surgiu como um vulcão em erupção para os adeptos do Flamengo, que explodiram. A esperança estava mais renovada do que nunca. Uma final que parecia perdida voltava de novo a estar completamente em aberto. E, três minutos depois, quando toda a gente já pensava no prolongamento, o golpe de teatro aconteceu. Diego, com um passe longo, colocou a bola no meio da confusão em que se tinha tornado a defesa do River. Gabriel Barbosa foi à luta, atrapalhando a ação de Pinola que falhou a interceção, fazendo com que Martinez Quarta tenha falhado a dobra também. Quem percebeu tudo desde o início foi Gabriel que, num remate fulminante, fuzilou a baliza de Armani e selou a vitória do Flamengo.

Um golo que foi a demonstração pura da persistência, do acreditar que os jogadores do Flamengo tiveram ao longo do jogo. Para além de toda a euforia, de lágrimas de alegria, de pequenos problemas de corações que não estavam preparados para tanta emoção, assistiu-se a uma libertação em plena Libertadores: a libertação de Jorge Jesus, que após duas finais europeias perdidas injustamente, vencia a sua primeira grande competição além fronteiras.

Lágrimas, muitas lágrimas de emoções que estavam contraídas há 38 anos, que se libertavam agora devido à entrada no clube de um treinador português, que revolucionou não só a forma de treinar e de jogar do Flamengo, como levantou uma série de questões no próprio futebol brasileiro, que parecia parado no tempo e cingido a um futebol mais individualista, sem grande intensidade, conhecendo-se o talento natural do jogador brasileiro.

A peça da Libertadores teve um final feliz para o Flamengo, para o futebol brasileiro, mas também para Portugal, que esteve praticamente parado a assistir à primeira final internacional de clubes ganha por um treinador que sempre reuniu a simpatia do grande público, mas que tem uma competência no treino ao nível dos melhores do mundo.

Artigo revisto por Joana Mendes