Será que ainda te lembras deste FC Famalicão 2-2 Varzim SC? A época de 2014/2015 reservou momentos de grande emoção para o Campeonato de Portugal. Tipicamente recheada de clubes que já pisaram os palcos da Primeira Liga no passado, a verdade é que nessa temporada dois clubes renasceram das cinzas e demonstraram-no num dia que ficou para a história.

FC Famalicão e Varzim SC deram uma prova de vitalidade e de mística ao encherem o Estádio Municipal 22 de Junho naquela que era então uma jornada decisiva, principalmente para os famalicenses, que não podiam perder, pois arriscavam-se a ver o FC Vizela (outro clube histórico do nosso futebol) a entrar num dos dois primeiros lugares que davam acesso à discussão pela fase de subida.

O FC Famalicão tinha-se deslocado a Alvalade a meio da semana pois ainda estava inserido na Taça de Portugal, pelo que, apesar de não ter jogado com todos os titulares frente ao Sporting CP, o desgaste desse jogo era inevitável perante um Varzim que chegava mais fresco e mais tranquilo a esse grande jogo.

No futebol à moda antiga poucas vezes sabíamos ao certo quantas pessoas estavam no estádio. Nesse dia, no Municipal, o futebol à moda antiga regressou. Não sabendo ao certo quantas pessoas assistiram ao jogo, estima-se que mais de oito mil famalicenses estivessem presentes no estádio, assim como perto de mil varzinistas que lotaram o setor visitante. De facto, haver tanta gente no estádio obrigou à saída de várias pessoas das bancadas para ficarem na parte do peão, ou seja, de pé atrás da baliza. Futebol puro, à moda antiga, numa tarde de sol. O que queríamos mais?

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Ambas as equipas tinham iniciado a época com o objetivo de regressar aos campeonatos profissionais e o equilíbrio entre as duas era também visto nos plantéis, que possuíam características muito semelhantes, como a mescla de jogadores muito experientes com alguns mais jovens que estavam a despontar e tinham vontade de mostrar o seu valor. Os treinadores eram competentes e tinham mostrado essa competência ao longo de todo o campeonato. Daniel Ramos foi o treinador que tirou o FC Famalicão de uma situação de descida na temporada transata, passando-o a um candidato à subida na próxima. Já o Varzim era orientado por Vítor Paneira, curiosamente uma velha glória do FC Famalicão.

Com fumos, com tarjas, e um barulho indescritível, a bola começou a rolar e o Varzim entrou com tudo, o que surpreendeu o Famalicão. Com grande eficácia na finalização e fruto de um Famalicão ansioso, os poveiros aproveitaram e fizeram dois golos, com apenas 20 minutos jogados, marcados por Sandro e Sérgio Organista, o que fez com que os milhares de adeptos famalicenses presentes no estádio tivessem um calafrio, pois uma derrota hipotecava as hipóteses de seguir para a fase de subida.

Foi aí que tudo mudou. Perto do intervalo, Hamilton (o melhor jogador do Varzim) foi expulso por agressão e o Famalicão começou a assentar o seu jogo e o seu domínio perante um Varzim que, reduzido a dez, se via obrigado a defender um resultado que era confortável.

A segunda parte foi tirada de um filme épico. Completamente empurrado pelo público, o Famalicão surgiu ao seu estilo na segunda parte e reduziu a diferença no marcador aos 59 minutos, numa cabeçada do ponta de lança Pedro Correia. O Varzim sentiu o golo e nunca mais conseguiu chegar à baliza do experiente Murta, e foi o Famalicão que, embora sem criar situações claras de golo, teve todo o domínio do jogo, precisando de um golo para manter o seu lugar na classificação.

Esse golo surgiu perto dos 90 minutos através de Chico, num lance confuso que levou o guarda-redes Pedro Soares a ficar mal na fotografia. Porém, o árbitro Jorge Faustino vislumbrou uma falta (que pelas imagens não parece existir). O problema foi que, com a explosão de alegria que se tinha sentido no estádio, quase ninguém tinha ouvido o apito do árbitro. Pessoas a cair de bancadas abaixo, pessoas a tentar invadir o campo, jogadores a festejar com a claque. Tudo tinha sido em vão mas foi por apenas uns minutos.

Antes, importa reforçar que o jogo esteve mais de cinco minutos parado porque Vítor Hugo, do Varzim, caiu redondo no relvado, tendo sido mesmo chamado a cargo o desfibrilador. Felizmente, nada de grave aconteceu com o jogador, apesar do susto enorme que se sentiu.

A placa foi levantada. Seis minutos de compensação. Era o tempo que o Famalicão tinha para ir com tudo para cima do Varzim SC. E foi recompensado precisamente no último minuto de descontos, numa cena que parece retirada de um filme. Ibraima, numa receção em rotação em plena grande área, rematou enrolado para um frango de Pedro Soares, fazendo o Famalicão chegar ao desejado empate.

Mas, mais do que isso, a um rebentamento total do municipal, onde houve invasão de campo, houve pessoas a sentirem-se mal pela emoção do jogo, onde houve carga policial, e onde houve discussão do lado da bancada coberta, com Vítor Paneira a não ser poupado aos insultos (injustos, diga-se) dos adeptos do Famalicão, que deviam ter-se esquecido por momentos de que foi Vítor Paneira que, no único ano na história do Famalicão em que o clube desceu às regionais, treinou o clube da sua terra e ajudou a fazê-lo subir de divisão. O técnico do Varzim SC emocionou-se mesmo em plena conferência de imprensa ao recordar outros tempos ao serviço do FC Famalicão.

O jogo terminou com um empate a dois, e com uma festa tremenda dos famalicenses, que precisavam assim de uma vitória na última jornada em Oliveira Santa Maria (um dérbi concelhio que o Famalicão venceu mesmo por 2-1), e o Varzim, que esteve a vencer por 2-0 com uma primeira parte muito boa, não conseguiu aguentar a reação dos da casa.

Importa dizer que ambas as equipas acabaram por subir de divisão de forma inteiramente justa, num regresso de dois clubes históricos, bairristas, de pessoas apaixonadas pelo futebol profissional.

Vem daí assistir ao que foi um autêntico clássico!

ONZES INICIAIS E SUBSTITUIÇÕES:

FC Famalicão: Murta, Daniel, Vilaça, Luiz Alberto, João Pedro (76’ Éder Diego), Ibraima, Mércio (46’ Diogo Torres), Vitor Lima, Diego Medeiros (46’ Chico), Feliz e Pedro Correia.

Varzim SC: Pedro Alves, Tiago Lopes, Sandro Cunha, Raúl Martins, Bijou, Nelson Agra, Nelsinho (66’ Pedro Sá), Sérgio Organista, Amilton, Rui Coentrão (71’ Tanela) e Diego Mourão (82’ Vitor Hugo).

Artigo revisto