Talvez não seja um jogo a rever para muitos, mas a ver pela primeiríssima vez. Seja como for, o seu visionamento é bastante aconselhado a todo e qualquer benfiquista. É, muito provavelmente, o jogo das águias que de maior importância se reveste. A vitória por 3-2 em Berna sobre o FC Barcelona marca o nascimento do Glorioso Benfica, que viria a cimentar tal estatuto um ano mais tarde também no centro da Europa, ao bater o então pentacampeão europeu Real Madrid FC, em Amesterdão, por 5-3.

Na final, o SL Benfica encontrou um forte FC Barcelona, que apresentou no seu onze inicial um brasileiro – Evaristo -, dois húngaros – Kocsis e Czibor – e um hispano-húngaro – Kubala. Do lado português, só se falava a língua de Camões… no relvado. Isto porque no banco de suplentes, ao leme da armada lusitana estava… um húngaro, de seu nome Béla Guttmann. Berna, acolhedora da final, trazia más memórias aos húngaros, que em 1954 haviam aí perdido a final do Mundial frente à Alemanha Ocidental.

No entanto, as coisas até começaram bem para os húngaros de azul e vermelho, em particular para Kocsis, que inaugurou o marcador aos 21 minutos. Havia, no entanto, um problema muito grande que o Barcelona não foi capaz de resolver. Esse problema dava pelo nome de José Águas e trabalhava a golos. Eram dez os que constavam da sua conta pessoal à entrada para a final. Aos 31 minutos, passaram a ser 11 (foi o melhor marcador da competição). À goleador, à número “9”, à matador, à capitão, Águas restabeleceu o empate, com sentido de oportunidade.

Béla Guttmann foi o homem do leme na primeira conquista europeia do Sport Lisboa e Benfica
Fonte: SL Benfica

Melhor que um golo, só mesmo dois. Um minuto volvido e remontada consumada. Num lance caricato, um corte defeituoso de um central espanhol envia a bola à trave. Na tentativa de a alcançar, o guardião Antoni Ramallets fá-la atravessar a linha de baliza. Vantagem portuguesa, mantida até ao intervalo.

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Na segunda metade, o inevitável e inigualável Mário Coluna dilatou a vantagem encarnada à passagem dos 55 minutos. Vinte minutos mais tarde, mais um golo húngaro para o FC Barcelona: Czibor reduziu para 3-2, mas não fez tremer uma equipa recheada de craques, que contava com a segurança de Costa Pereira na baliza, com a classe de Coluna, com a veia goleadora de Águas e com a técnica de José Augusto.

O SL Benfica destronou assim o Real Madrid FC e inscreveu o seu nome entre os grandes da Europa e do Mundo. A 31 de maio de 2021 celebram-se 60 anos da conquista de Berna, numa altura em que há “supostamente um suposto projeto supostamente” europeu em marcha para os lados da Luz. Por isso – e por muito mais – este extraordinário SL Benfica – FC Barcelona merece ser (re)visto.

Caminhadas barcelonista e benfiquista até Berna

Depois de cinco triunfos do Real Madrid na competição nas primeiras cinco edições, o título soube cedo que não viajaria para Madrid pelo sexto ano consecutivo. Após eliminar o Lierse da Bégica, foi precisamente o FC Barcelona a deitar por terra as aspirações madrilenas, ao vencer a eliminatória da primeira fase por um agregado de 4-3 – empate a dois em Madrid e vitória na Catalunha por 2-1.

Assim, os blaugrana assumiam prontamente o favoritismo na competição. Na eliminatória, frente aos checos do Spartak Hradek Králové, conseguiram um agregado confortável de 5-1. De seguida, nas meias-finais, precisaram de três encontros com o Hamburgo para decidir o lugar na final, a disputar na capital suíça. Vitória espanhola por 1-0 em Barcelona, vitória alemã por 2-1 em Hamburgo e nova vitória por 1-0 dos catalães na partida de desempate.

As vitórias frente a Real Madrid e Hamburgo galvanizaram por certo um Barcelona, no qual se pontificavam o brasileiro Evaristo e o espanhol Luís Suárez, que contribuíram com 10 golos (seis e quatro, respetivamente) para a caminhada barcelonista até à final. O problema residia em quem estava do outro lado. Em Berna, os catalães depararam-se com um Sport Lisboa e Benfica intragável até então.

Na triunfal caminhada até ao Estádio Wankdorf, os encarnados trucidaram a concorrência. Na fase preliminar, despacharam o Hearts, da Escócia, por um total de 5-1 (1-2 no Reino Unido, 3-0 em Lisboa). Na eliminatória a contar para a Primeira Fase, o cenário foi ainda menos agradável para os húngaros do Újpesti Dózsa, que perderam por 6-2 em Lisboa. Na Hungria, infligiram a única derrota na competição às águias: 2-1. Nada que fizesse mossa.

Nos quartos-de-final, vitórias por 4-1 e 3-1 sobre o AGF da Dinamarca e assunto facilmente resolvido. Eis que chegaram as meias-finais. O encontro duplo com o Rapid Wien começou em Lisboa e acabou na Áustria. Bom, na verdade acabou em Lisboa, com a vitória por 3-0 dos encarnados a selar o destino da eliminatória. O empate a uma bola na Áustria veio simplesmente carimbar o primeiro passaporte português para a final das finais.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

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O desporto bem praticado fascina-o, o jornalismo bem feito extasia-o. É apaixonado (ou doente, se quiserem, é quase igual – um apaixonado apenas comete mais loucuras) pelo SL Benfica e por tudo o que envolve o clube: modalidades, futebol de formação, futebol sénior. Por ser fascinado por desporto bem praticado, segue com especial atenção a NBA, a Premier League, os majors de Snooker, os Grand Slams de ténis, o campeonato espanhol de futsal e diversas competições europeias e mundiais de futebol e futsal. Quando está aborrecido, vê qualquer desporto. Quando está mesmo, mesmo aborrecido, pratica desporto. Sozinho. E perde.                                                                                                                                                 O Márcio escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.