Lamento, o futebol não gera extraordinárias respostas emocionais

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Dois pontos antes de começar:

Não sou, nem pretendo ser reguladora de emoções.

Não há santos, nem diabos.

Podemos concordar que nenhum clube confere aos seus adeptos a etiqueta de boa ou má pessoa? Seja lá o que isso significa. Nenhum clube é feito só de “inocentes” ou de “culpados”.

Demorei muito para escrever esta crónica, apesar de ser um tema que já me faz dissertar sozinha pela casa há algum tempo. Queria começar bem para tentar agarrar-vos, percebi depressa que era tempo perdido. O mais importante era acalmar o coração antes de escrever. Tentar ser prática e razoável. Notem que escrevi “tentar”. Não prometo ser bem-sucedida. No fim de contas esta opinião é apenas resultado das minhas experiências que serão diferentes das vossas.

Tive uma educação católica. Andei na catequese, fui à missa, fiz parte do grupo de leitores, de acólitos, até que deixei de praticar e acreditar. Uma vez tive um acidente de automóvel grave e quando me apercebi, sempre que tinha uma situação mais tensa a conduzir, benzia-me. Fazia-o sem consciência. Tinha aquilo entranhado no corpo. Porque é que estou a contar isto? Porque sei o quão difícil é questionar algo que nasceu e cresceu connosco.

Quando há uns anos um professor de Relações Públicas me chamou para me corrigir um trabalho, respeitei a opinião, mas recusei-me a alterá-lo. Eu tinha escrito, citando um livro de marketing no desporto, qualquer coisa como: “O desporto, em especial o futebol, gera extraordinárias respostas emocionais”. O professor alertou-me que o futebol, por si só, não provocava nada. As pessoas é que se refugiavam naquelas frases, naquela ideia. Era uma forma de justificarem o seu comportamento ou descontrolo emocional, dizia-me ele. Não aceitei. Eu acreditava piamente naquilo. Acreditava que o futebol transformava as pessoas. O futebol fazia com que seres extremamente calmos fossem capazes de atos absolutamente inesperados. Eu assistia a fenómenos do género todos os fins-de-semana.

Fonte: Sebastião Rôxo / Bola na Rede

O tempo ensinou-me que se a razão tivesse apenas um lado, penderia mais para o do meu professor, do que para o meu.

Lamento, mas o futebol não gera extraordinárias respostas emocionais e quanto mais cedo percebermos isso, mais cedo poderemos (re)conquistar todos os adeptos que perdemos. O futebol ganhará com isso, os clubes ganharão com isso.

Não me interpretem mal, não quero, nem defendo que um estádio seja um sítio onde nos sentamos todos de boca fechada a assistir a um jogo. Eu também salto da cadeira, também digo palavrões, também gesticulo, mas podemos concordar que há um limite, certo?

Até porque esse tipo de expressão, este tipo de pensamento, faz-nos refém. Exemplo disso foi não ausência demorada de público nos estádios, mas a justificação para tal.

Durante este ano e meio de pandemia, pude ouvir vezes sem conta e de vários responsáveis políticos que o futebol, ao contrário de outras atividades, continuaria sem público porque era sabido que as pessoas se comportam de forma diferente nos estádios. Confesso que este tipo de discurso me provocava urticária. Primeiro porque não serviam para acicatar os ânimos, depois porque existiam justificações concretas e perfeitamente compreensíveis para o efeito e por último, porque este discurso, ainda que de forma não intencional, perpetua este tipo de comportamentos, normaliza-os, vem dizer que é admissível agir-se como vândalo no futebol, quando não é. Se não podemos estar “à molhada” num concerto durante uma pandemia, não podemos fazê-lo num estádio. Quem não for capaz de cumprir as regras, deve sofrer as consequências legais dos seus atos. Esteja onde estiver.

Tenho dezenas de amigos que não gostam ou não ligam a futebol. Quando lhes digo que joga a seleção ou que é dia de clássico me respondem coisas como: “Olha que ótimo dia para ir ao Shopping. Estará deserto!”

Poderia levá-los comigo a um CA Boca Juniors x CA River Plate, sentá-los perto das claques e posso garantir-vos que não sentiriam “extraordinárias respostas emocionais”.

Por outro lado, se estivessem a assistir ao seu concerto preferido ou espetáculo, ficariam enfurecidos, com vontade de arremessar tudo o que pudessem se o vocalista ou ator desafinasse o concerto todo ou falhasse constantemente as suas marcações. A diferença é que se o fizessem num teatro, além de sofrerem as consequências legais dos seus atos, os fãs seriam os primeiros a “convidá-los a sair”. A “sociedade” não se coibiria de censurar o seu comportamento. É um exemplo parvo levado ao extremo, mas acho que percebem a ideia.

 

Redação BnR
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