Zivkovic: A nova bola do Benfica

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sl benfica cabeçalho 1Quando era novo, com os meus seis anos de idade, fui dar um passeio de carro para a beira-mar com os meus pais e irmão. Levaram-se sandes, água e boa disposição. Já eu, levei a minha bola de futebol favorita. Tinha o símbolo do Benfica, pois claro, e eramos inseparáveis.

Quem vive numa ilha acaba por estar sempre à beira-mar. Decidimos ir ver as ondas, gigantes do mar revolto que os ventos fortes da ligeira tempestade tropical provocavam, um pouco mais perto. É sempre um espetáculo ver a força do mar a bater nas pedras e a cobri-las de espuma.

Chegados ao local, por pouco tempo me via interessado em olhar as ondas que, umas atrás das outras, me pareciam sempre iguais. Não perdi tempo e fui ao porta bagagem do carro buscar a minha ‘amiga’. Com ela nos braços, chamei o meu pai e o meu irmão para fazermos uns passes durante uns momentos. Depois de tanta insistência minha lá aceitaram, para meu deleite.

Após uma sequência de passes entre todos, houve um que foi mal direcionado e a bola foi em direção aos buracos do fundo do muro que dava para o mar. Como se predestinada a passar naquele local estreito onde só tinha espaço para a bola e mais uns míseros milímetros, a minha melhor amiga fugiu pelo buraco e caiu ao mar.
Desci as escadas que davam para a zona de cimento onde as ondas batiam e saltavam e fiquei a olhá-la a ir com a corrente. A bola branca ia progressivamente para mais longe, cada vez mais pequena, e a minha tristeza cada vez era maior. Foi duro vê-la ir embora lentamente, sem nada poder fazer. Relembro isso com incrível pormenor na minha mente. Foi algo que me marcou na infância.

No dia seguinte, os meus pais foram a uma loja e ofereceram-me uma outra bola de futebol. Fiquei muito contente, mas não era a minha bola que se perdeu no mar, a minha melhor amiga. No entanto não foi por isso que, aos poucos, não foi substituindo a outra. Lentamente, fiquei cada vez mais agarrado àquela bola especial. Até ao dia em que se perdeu com um pontapé para demasiado longe ou rompeu num prego do quintal do vizinho.

Ser-se de um clube português é mais ou menos isto. Ficamos sempre próximos daquela equipa que parece que toda a vida foi a nossa, depois saem os jogadores e sentimos uma pequena dor porque a equipa que ficou não é a mesma que nos deixou antes. Contudo, aos poucos e poucos, abraçamo-la da mesma maneira que abraçámos a anterior, à medida que ganhamos a sua confiança.

Zivkovic substituiu João Carvalho no onze titular frente ao Rio Ave  Fonte: SL Benfica
Zivkovic substituiu João Carvalho no onze titular frente ao Rio Ave
Fonte: SL Benfica

Neste momento, quando se ganhava confiança no Benfica no meio de uma tempestade de ondas gigantes, a bola fugiu para o mar ao levar-nos Krovinovic para longe durante o resto da época, aquele que ajudou o Benfica em 4-3-3 a crescer e a ganhar. Sem ele a equipa não parece a mesma. Mas colocar Zivkovic no seu lugar, no jogo frente ao Rio Ave, foi como comprar uma nova bola. Aos poucos crescerá e ganhará a nossa confiança, já começando a mostrar que pode fazer o mesmo propósito da outra.

Zivkovic parecia estar a perceber exatamente o que faltava na equipa, algo que João Carvalho ainda(!) não consegue acrescentar. Foram de bradar aos céus aqueles passes para as costas da defesa, a condizer perfeitamente com a desmarcação do outro colega vestido de vermelho. A dar seguimento a exibições como as da segunda parte, onde tudo e todos se pareciam estar a entender, não haverá razão para tirar Zivkovic do lugar do lesionado Krovinovic.

Não será a mesma coisa (o que não implica que seja pior ou melhor), mas certamente arranjaremos espaço para amar este ou outro novo onze que nos conquiste.

Isto, até ao fim da época, quando alguns dos nossos amigos saírem do clube. Aí, lá estaremos nós tristes, mas prontos para abraçar uma nova bola de futebol. Porque no fundo é só isso que interessa: ver o nosso Benfica a brilhar com a bola nos pés.

Rumo ao Penta, com qualquer bola que seja!

Foto de Capa: SL Benfica

Artigo revisto por: Vanda Madeira Pinto

Pedro Afonso
Pedro Afonsohttp://www.bolanarede.pt
Foi com o Portugal x Inglaterra do Euro 2000 que descobriu um dos maiores amores da sua vida: o futebol. Natural de Lisboa, teve a primeira experiência profissional na Abola TV e agora é jornalista da ELEVEN

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